<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590</id><updated>2012-02-08T18:33:46.774-08:00</updated><category term='Luiz Felipe Ponde'/><category term='Renato Janine Ribeiro'/><category term='Sexualidade'/><category term='Marcelo Gleiser'/><category term='Cidadania'/><category term='neurociencia'/><category term='Jorge Coli'/><category term='Brasil'/><category term='Educacao'/><category term='Antonio Cicero'/><category term='Eliane Brum'/><category term='Hélio Schwarstman'/><category term='amor'/><category term='SuzanaHH'/><category term='arte'/><category term='Roberto Pompeu de Toledo'/><category term='psicologia'/><category term='Paulo Werneck'/><category term='Cultura'/><category term='depressao'/><category term='filosofia'/><category term='Tempos modernos'/><category term='ateismo'/><category term='ciencia'/><category term='Fernanda Torres'/><category term='Ricardo Semler'/><category term='Contardo Calligaris'/><category term='Joao Pereira Coutinho'/><title type='text'>reflexõ(e)s</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>131</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-1353170069127931515</id><published>2012-02-08T18:33:00.001-08:00</published><updated>2012-02-08T18:33:46.779-08:00</updated><title type='text'>O fracasso do UCA-Total</title><content type='html'>08/02/2012ELio Gaspari para FspA doutora Dilma deveria mandar que sua Secretaria de Assuntos Estratégicos divulgasse o conteúdo do relatório final da "Avaliação de Impacto do Projeto UCA-Total (Um Computador por Aluno)", coordenado pela professora Lena Lavinas, da UFRJ. Ele está lá, a sete chaves, desde novembro passado.A providência é recomendável, sobretudo agora que o governo licita a compra de até 900 mil tablets. Com 202 páginas, relata um desastre. A professora Azuete Fogaça, da Federal de Juiz de Fora, trabalhou na pesquisa e resume-a: "Boa parte dos computadores não foi entregue nos prazos. Outros foram entregues sem a infraestrutura necessária para sua adoção em sala de aula. O treinamento dos docentes não deu os resultados esperados. O suporte técnico praticamente inexiste. Os laptops que apresentaram problemas acabaram encostados em armários ou nos almoxarifados, porque não há recursos".O programa UCA-Total, lançado em 2010, comprou um laptop para cada um dos 10.484 alunos da rede pública de cinco municípios-piloto: Tiradentes (MG), Terenos (MS), Barra dos Coqueiros (SE), Santa Cecília do Pavão (PR) e São João da Ponta (PA). Uma equipe de 11 pessoas acompanhou a iniciativa.Os computadores chegariam a escolas equipadas com internet sem fio e professores capacitados colocariam a garotada no mundo novo da pedagogia informatizada.Em São João da Ponta, o sinal mal chegava à escola. Em Barra dos Coqueiros, chegava às praças públicas e, para recebê-lo, os estudantes saíam do colégio. Em Terenos não havia rede. Tudo bem, porque algum dia ela haverá de chegar. Até lá, alguns heroicos professores pagam as conexões de provedores privados com dinheiro dos seus bolsos.Os laptops comprados pelo governo têm baterias para cerca de uma hora. Como as aulas duram cinco, como fazer para recarregá-los? (Uma tomada para cada carteira, nem pensar.) As prefeituras colocariam armários-alimentadores nas salas. Nem todos os municípios fizeram isso. Na Escola Estadual Basílio da Gama, em Tiradentes, não havia sinal nem armários de recarga, e os laptops estavam encaixotados.Deixou-se em aberto uma questão central: o aluno deve levar o computador para casa? Em três municípios, levavam. Num, foram instruídos a não trazê-los todos os dias.Só metade dos alunos teve aulas para aprender a usar os laptops.Depois de terem recebido cursos de capacitação, 80% dos professores tinham dificuldade para usar as máquinas nas salas de aula. (Problema dos cursos, não deles, pois 91% tinham nível superior ou curso de especialização.) Uma barafunda. As escolas estaduais não conversavam com as municipais e frequentemente não se conseguia falar com o MEC ou com a Secretaria de Assuntos Estratégicos.Não se diga que os laptops são trambolhos. A garotada adorou recebê-los, e os professores tinham as melhores expectativas. As populações orgulharam-se da novidade. O problema esteve e está na gestão.A única coisa que funcionou foi a compra de equipamentos. O professor Mário Henrique Simonsen, que conhecia o governo, ensinava: "Às vezes, quando um sujeito te traz um projeto, vale a pena perguntar: 'Qual é a tua comissão? Dez por cento? Está aqui o cheque, mas prometa não tocar mais nesse assunto'".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-1353170069127931515?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/1353170069127931515/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/02/o-fracasso-do-uca-total.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1353170069127931515'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1353170069127931515'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/02/o-fracasso-do-uca-total.html' title='O fracasso do UCA-Total'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-6914670397202463433</id><published>2012-02-01T12:04:00.000-08:00</published><updated>2012-02-01T12:04:38.429-08:00</updated><title type='text'>Temaki, liberdade e fraternidade</title><content type='html'>ANTONIO PRATA -FSP 01.02.2012Outro dia uma amiga tuitou: "Temaki de goiabada com cream cheese: pode?". Conhecendo bem minha amiga, logo entendi que não se tratava de uma censura gastronômica, mas de uma irônica indagação sociológica, como se este rolo de alga, doce e queijo cremoso nos lançasse, das encruzilhadas do país, seu desafio de esfinge: "Decifra-me ou devoro-te".Às vezes um temaki é apenas um temaki -às vezes, não. Esta versão Romeu &amp; Julieta é reflexo da ascensão econômica de milhões de brasileiros: uma canoinha tricolor trepidando no centro da pororoca social; uma insolente dentada do gosto popular nas pudibundas nádegas da sofisticação. Que marcas deixará essa mordida? Não sei muito bem, mas desconfio que se olharmos através deste temaki como quem espia por uma luneta -pupila no orifício menor do cone, o maior apontado para o mundo, cuidado para não lambuzar os cílios- talvez consigamos enxergar algo do Brasil que se aproxima.Para os arautos do apocalipse, aqueles que veem neste sincretismo culinário (como, aliás, em todo sincretismo) um sinal do fim dos tempos, a classe C está invadindo o país com seu mau gosto e falta de educação, deixando por onde passa um rastro de Fandangos e acordes de Michel Teló. Aterrorizados ao verem o real e a melanina escorrendo para cima através das classes sociais, soltam resmungos como "esse aeroporto tá parecendo uma rodoviária!" e sonham com os dias tão próximos e distantes em que a "gente diferenciada" queria emprego de doméstica, não estação de metrô.Ora, quem pensa que o gosto da classe C ameaça uma suposta sofisticação estética não entendeu patavina do Brasil.Em primeiro lugar, nossas elites não estavam todas escutando Mahler e lendo James Joyce até outro dia, quando foram atropeladas pelas hordas emergentes, de isopor no ombro e pré-pago na mão.Em segundo, grande parte do que produzimos de culturalmente mais valioso, de Pixinguinha a Tom Jobim, de Aleijadinho à Tarsila do Amaral, do vatapá aos pratos do Alex Atala, é fruto do encontro do popular com o erudito, não de puristas isolados em torres de marfim. Foi isso o que os modernistas bradaram aos quatro ventos -já faz quase cem anos-, isso que os tropicalistas repetiram e remodelaram -lá se vão mais de quatro décadas-, mas que uma parte recalcitrante dos brasileiros se recusa a aceitar, ainda com delírios de um imorredouro projeto branqueador.Não estou sendo ufanista. Estou sendo classista: classimedista. Lembremos de outro país onde a mistura de raças e heranças culturais, mais a criação de uma sólida classe média com o New Deal, a partir dos anos 1930, legou ao mundo o rock, o blues, o jazz, um bom quinhão do melhor cinema e da melhor literatura produzidos no século 20, além desse saudável desrespeito à tradição, pré-requisito para uma sociedade que se pretende igualitária.Desrespeito que a gente vê num solo do Charlie Parker ou, por exemplo, num temaki de goiabada com cream cheese. Pode não ser a minha comida favorita, mas por que é que o meu gosto deveria se impor aos demais? Democracia é isso aí, pessoal. Que bom.antonioprata.folha@uol.com.br@antonioprata&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-6914670397202463433?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/6914670397202463433/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/02/temaki-liberdade-e-fraternidade.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6914670397202463433'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6914670397202463433'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/02/temaki-liberdade-e-fraternidade.html' title='Temaki, liberdade e fraternidade'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-9033730622991703129</id><published>2012-02-01T11:30:00.000-08:00</published><updated>2012-02-01T11:30:16.306-08:00</updated><title type='text'>Desenvolvimento</title><content type='html'>rDesde Adam Smith, os economistas têm se dedicado a encontrar a fórmula que revelaria a condição "suficiente" para a realização do desenvolvimento econômico. Após o término da Segunda Guerra Mundial, o progresso tem sido lento e, de fato, ainda não sabemos se a fórmula existe e se seria de aplicação universal.Mesmo com o aperfeiçoamento das estatísticas, a construção de infindáveis modelos -muita matemática e econometria (às vezes com uma pitada de história)-, depois de dois séculos e meio na busca do graal cuidadosamente escondido (ou talvez apenas sonhado!), temos resultados práticos pífios.Talvez tenhamos encontrado algumas condições "necessárias", mas não muito mais do que Adam Smith já conhecia...Trata-se do mais importante problema a ser esclarecido pela economia. Afinal, por que na longa caminhada desde o neolítico até a segunda metade do século 18 a produção per capita cresceu num ritmo extremamente baixo? Talvez uma armadilha malthusiana. E por que sofreu uma rápida transformação depois de 1750?Porque, a partir daí, pelo menos uma economia, a britânica, foi capaz de capturar a energia dispersa em seu território (água, madeira e carvão), auto-organizar-se com instituições convenientes e dissipá-la na produção de itens e serviços consumidos por uma população crescente.Há alguns anos, Gregory Clark ("A Farewell to Alms", 2007) propôs uma interessante hipótese que continua gerando uma enorme literatura. A causa eficiente do desenvolvimento da Inglaterra teria sido a emergência de uma classe média, com seus valores de prudência, poupança e disposição para o trabalho.Clark reduz o foco do desenvolvimento da "qualidade das instituições" ou, pelo menos, sugere que diferentes "instituições" podem produzir o desenvolvimento econômico.A hipótese de Clark é compatível com a pesquisa de Acemoglu et. Al (2005) quando afirma que os ganhos do comércio exterior apropriados pelas classes médias da Holanda e da Inglaterra foram a causa eficiente do seu desenvolvimento. A contraprova desse fato foi a estagnação de Portugal e Espanha, onde os mesmos efeitos foram apropriados por uma pequena elite.Infelizmente, não existe (e provavelmente nunca existirá) a receita que nos diga qual é a condição "suficiente" para garantir o desenvolvimento econômico.Mas existem, sim, condições "necessárias" observadas na história e racionalizadas na economia, sem as quais ele não prosperará.Para o Brasil, é muito bom saber que uma forte classe média é uma delas.ANTONIO DELFIM NETTO&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-9033730622991703129?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/9033730622991703129/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/02/desenvolvimento.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/9033730622991703129'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/9033730622991703129'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/02/desenvolvimento.html' title='Desenvolvimento'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-84581826521081739</id><published>2012-02-01T11:10:00.001-08:00</published><updated>2012-02-01T11:14:11.011-08:00</updated><title type='text'>País é produtor decadente, apesar de ter mercado de consumo relevante</title><content type='html'>01/02/2012Antônio CORRÊA DE LACERDA - Analise para Folha de São Paulo A produção industrial ficou praticamente estagnada em 2011 (0,3%), em um claro contraponto com o desempenho do comércio, que deve ter crescido 7%.Há aspectos que explicam parte dessa dissonância, como as medidas que o governo havia tomado para desaquecer o ritmo da atividade econômica e o aumento dos estoques nos últimos meses.Há, no entanto, um fator preponderante, que é o crescimento das importações, em praticamente todos os segmentos industriais, muitas vezes substituindo a produção local em elos relevantes da cadeia produtiva.O real valorizado diminui a competitividade da produção brasileira, não apenas para exportação, mas frente aos importados, especialmente de países que, ao contrário do Brasil, mantêm sua moeda desvalorizada e subsidiam fortemente seus produtores para ganhar mercados.Outros fatores de competitividade sistêmica têm prejudicado a geração de valor agregado local, como custo elevado de financiamento e crédito, carga tributária sobre investimentos e exportação, infraestrutura e logística, caras e deficientes, custo elevado de insumos etc.O nível da produção industrial do fim de 2011 é quase o mesmo do de setembro de 2008, pré-efeito da crise da quebra do Lehman Brothers.Todo o desempenho ao longo desses mais de três anos só nos fez recuperar o patamar alcançado então.DESINDUSTRIALIZAÇÃOO PIB (Produto Interno Bruto) deve ter acumulado um crescimento de cerca de 10% no período, mas a indústria parou. Nos tornamos um mercado de consumo relevante, mas um produtor decadente.A desindustrialização é um fenômeno precoce e intempestivo no Brasil. Algo que deve ser fortemente combatido, pois não é uma demanda setorial corporativa.A indústria é um forte indutor do desenvolvimento, como denotam as experiências históricas internacionais e a nossa própria, sendo fator determinante de comércio exterior, renda, emprego, tecnologia e balanço de pagamentos.Não se trata de uma escolha excludente entre produzir bens primários ou manufaturados, já que temos potencial para sermos competitivos em ambos. Desde que haja condições sistêmicas isonômicas e um arcabouço de políticas de fomento voltadas para tal.Só depende de estratégia e de olhar além do curto prazo.ANTONIO CORRÊA DE LACERDA é professor-doutor do Departamento de Economia e do Programa de Estudos Pós-graduados em Economia Política&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-84581826521081739?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/84581826521081739/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/02/vladimir-safatlefolha-de-sao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/84581826521081739'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/84581826521081739'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/02/vladimir-safatlefolha-de-sao.html' title='País é produtor decadente, apesar de ter mercado de consumo relevante'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-3302289815863856750</id><published>2012-01-31T16:47:00.001-08:00</published><updated>2012-01-31T16:47:25.229-08:00</updated><title type='text'>Escala F</title><content type='html'>VLADIMIR SAFATLEFolha de São Paulo31/01/2012Na década de 50, o filósofo alemão Theodor Adorno (1903-1969) uniu-se a um grupo de psicólogos sociais norte-americanos para desenvolver um estudo pioneiro sobre o potencial autoritário inerente a sociedades de democracia liberal, como os Estados Unidos.O resultado foi, entre outras coisas, um conjunto de testes que permitiam produzir uma escala (conhecida como Escala F, de "fascismo") que visava medir as tendências autoritárias da personalidade individual.Por mais que certas questões de método possam atualmente ser revistas, o projeto do qual Adorno fazia parte tinha o mérito de mostrar como vários traços do indivíduo liberal tinham profundo potencial autoritário.O que explicava porque tais sociedades entravam periodicamente em ondas de histeria coletiva xenófoba, securitária e em perseguições contra minorias.O que Adorno percebeu na sociedade norte-americana vale também para o Brasil. Na semana passada, esta Folha divulgou pesquisa mostrando como a grande maioria dos entrevistados apoia ações truculentas como a internação forçada para dependentes de drogas e intervenções policiais espetaculares como as que vimos na cracolândia.Se houvesse pesquisa sobre o acolhimento de imigrantes haitianos e sobre a posição da população em relação à ditadura militar, certamente veríamos alguns resultados vergonhosos.Tais pesquisas demonstram como a idealização da força é uma fantasia fundamental que parece guiar populações marcadas por uma cultura contínua do medo.É preferível acreditar que há uma força capaz de "colocar tudo em ordem", mesmo que por meio da violência cega, do que admitir que a vida social não comporta paraísos de condomínio fechado.Sobre qual atitude tomar diante de tais dados, talvez valha a pena lembrar de uma posição do antigo presidente francês François Mitterrand (1916-1996).Quando foi eleito pela primeira vez, em 1981, Mitterrand prometera abolir a pena de morte na França. Todas as pesquisas de opinião demonstravam, no entanto, que a grande maioria dos franceses era contrária à abolição.Mitterrand ignorou as pesquisas. Como se dissesse que, muitas vezes, o governo deve levar a sociedade a ir lá aonde ela não quer ir, lá aonde ela ainda não é capaz de ir. Hoje, a pena de morte é rejeitada pela maioria absoluta da população francesa.Tal exemplo demonstra como o bom governo é aquele capaz de reconhecer a existência de um potencial autoritário nas sociedades de democracia liberal e a necessidade de não se deixar aprisionar por tal potencial.VLADIMIR SAFATLE escreve às terças na Folha de São Paulo&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-3302289815863856750?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/3302289815863856750/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/escala-f.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3302289815863856750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3302289815863856750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/escala-f.html' title='Escala F'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-1753655170057202746</id><published>2012-01-31T08:18:00.001-08:00</published><updated>2012-01-31T08:18:01.098-08:00</updated><title type='text'>99% inconsequentes</title><content type='html'>CRISTIANO COSTA para Folha de São Paulo Opinião 31.01.12Ao longo da vida, tomamos decisões que têm efeitos imediatos, passageiros ou pouco importantes, mas também fazemos escolhas muito importantes. A decisão de abandonar o ensino médio, por exemplo, pode ter consequências dramáticas para a renda futura de alguém.Muitas vezes, porém, as pessoas não têm muitas oportunidades. Filhos nascidos em famílias mais humildes, de renda modesta, muitas vezes dependem de auxílio do governo. Essa é a realidade de muitos americanos nos dias de hoje. A crise econômica fez florescer o debate sobre o recente aumento da desigualdade de renda nos EUA.Um estudo do Congressional Budget Office mostra que a renda média americana cresceu cerca de 45%, em termos reais, entre 1979 e 2007. Nesse período, a renda dos que estão no topo da distribuição, os 1% de maior renda, cresceu 275%.O contraste permitiu um debate mais enfático sobre distribuição de renda e a taxação nos Estados Unidos, que deve ser parte importante no processo eleitoral de 2012.Muitos entendem que as condições dos 99% mais pobres são fruto primordialmente das políticas públicas, que impõem baixos impostos aos mais ricos e não oferecem aos mais pobres serviços considerados importantes, como saúde pública e universidade gratuita.Esse grupo acredita que os fracassos de muitas pessoas entre os 99% são culpa do governo. Mas essa é uma maneira fácil de transferir o problema.De acordo com dados do Tesouro americano, cerca de 58% das famílias no menor quintil de renda em 1996 estavam em um quintil mais alto em 2005. É o "sonho americano" em ação.O movimento no sentido contrário também ocorre. Daquelas famílias que se encontravam entre as 1% de maior renda em 1996, mais de 57% desceram para um grupo de menor renda em 2005. É o chamado "pesadelo americano".Nesse processo de alta mobilidade de renda em curto espaço de tempo, as escolhas individuais ocupam um papel muito mais importante do que mudanças no sistema de tributação ou nas políticas públicas.A economia americana é altamente meritocrática. Ou seja, aqueles que trabalharem muito encontrarão oportunidades e terão o seu trabalho recompensado.A situação atual de muitos americanos está diretamente ligada a escolhas que foram mal feitas.Muitos jovens americanos acumularam dívidas elevadas para cursar uma faculdade privada e hoje se encontram desempregados.Muitas famílias americanas compraram casas tomando empréstimos elevados. Hoje, elas não possuem renda para pagar as prestações e estão sendo despejadas.Muitos idosos americanos não compraram planos de saúde quando jovens e não pouparam para o futuro. Hoje, dependem de programas sociais que não atendem todas as suas necessidades.As consequências dessas escolhas, muitas feitas sob a crença de que "tudo daria certo" ou sob hipóteses equivocadas sobre o mercado de trabalho, vieram à tona durante a crise de 2008.Na verdade, essas escolhas foram tanto causa como consequência da chamada Grande Recessão.As crenças com relação ao futuro são parte fundamental das decisões econômicas das pessoas. Muitos norte-americanos compraram casas e apartamentos com a crença de que eles iriam se valorizar. Muitos fizeram cursos de graduação caríssimos, assumindo que o emprego estaria garantido após a faculdade. Essas hipóteses se provaram erradas, e a crise econômica atingiu em cheio o grupo mais vulnerável a choques econômicos.A verdade é que, no país da livre escolha, na terra das oportunidades, muitas pessoas não querem admitir que parte da condição em que elas se encontram foi causada por elas mesmas. São consequências de suas escolhas pessoais.CRISTIANO COSTA, 32, doutor em economia pela Universidade da Pensilvânia, é professor da Fucape Business School&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-1753655170057202746?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/1753655170057202746/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/99-inconsequentes.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1753655170057202746'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1753655170057202746'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/99-inconsequentes.html' title='99% inconsequentes'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-6656516783143179786</id><published>2012-01-27T13:57:00.000-08:00</published><updated>2012-01-27T13:57:35.559-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Marcelo Gleiser'/><title type='text'>Por que duvidam da evolução?</title><content type='html'>FSP, 22.01.12&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Ao menos nos EUA, a evidência é indiscutível. Em uma pesquisa do grupo Gallup na véspera do aniversário de 200 anos do nascimento de Charles Darwin, no dia 12 de fevereiro de 2009, apenas 39% dos americanos responderam que "acreditam na teoria da evolução".&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Não há dados semelhantes no Brasil, mas imagino que os números sejam semelhantes ou piores.&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;A mesma pesquisa relaciona o resultado com o nível educacional dos respondentes. Apenas 21% das pessoas com ensino médio completo ou menos acreditam na evolução. O número sobe para 53% nos graduados e 74% em quem tem pós-graduação.&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Outra variável investigada foi a relação do resultado com frequência à igreja. Dos que acreditam em evolução, 24% vão a igreja semanalmente, 30% ao menos uma vez por mês e 55% nunca vão. Quanto mais crente, maior a desconfiança em relação à teoria de Darwin.&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Por outro lado, a evidência em favor da evolução também é indiscutível. Ela está no registro fóssil, datado usando a emissão de partículas de núcleos atômicos radioativos. Rochas de erupções vulcânicas (ígneas) enterradas perto de um fóssil contêm material radioativo. O mais comum é o urânio-235, que decai em chumbo-207.&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Analisando a razão entre o urânio-235 e o chumbo-207 numa amostra de rocha ígnea e sabendo a frequência com que o urânio emite partículas (em 704 milhões de anos, a quantidade de urânio numa amostra cai pela metade), cientistas obtêm uma medida bastante precisa da idade do fóssil. Por exemplo, os dinossauros desapareceram há 65 milhões de anos.&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;A evidência em favor da evolução aparece também na resistência que bactérias podem desenvolver contra antibióticos. Quanto mais se usam antibióticos, maior a chance de que mutações gerem bactérias resistentes. Esse tipo de adaptação por pressão seletiva pode ser investigado no laboratório, sujeitando populações de bactérias a certas drogas e monitorando modificações no seu código genético.&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Posto isso, pergunto-me por que a evolução causa tanto problema para tanta gente. Será que é tão ofensivo assim termos tido um ancestral em comum com outros primatas, como os chimpanzés?&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;A nossa descendência é ainda muito mais dramática: se formos mais para o passado, todos os animais que existem descenderam de um único ancestral, o Último Ancestral Universal Comum (na sigla Luca, em inglês), que provavelmente era um ser unicelular.&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Essa desconfiança do conhecimento científico é muito estranha, dada a nossa dependência dele no século 21. (De onde vêm os antibióticos e iPhones?) O problema parece estar ligado ao Deus-dos-Vãos, a noção de que quanto mais aprendemos sobre o mundo, menos Deus é necessário. Os que interpretam a Bíblia literalmente veem nisso uma perda de rumo. Se Deus não criou Adão e Eva e se não nos tornamos mortais após a "queda do Paraíso", como lidar com a morte?&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Uma teologia que insiste em contrapor a fé ao conhecimento científico só leva a um maior obscurantismo. Mesmo que não acredite em Deus, imagino que existam outras formas de encontrar Deus ou outros caminhos em busca de uma espiritualidade maior na vida.&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;b&gt;MARCELO GLEISER&lt;/b&gt;&amp;nbsp;é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita".&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-6656516783143179786?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/6656516783143179786/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/por-que-duvidam-da-evolucao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6656516783143179786'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6656516783143179786'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/por-que-duvidam-da-evolucao.html' title='Por que duvidam da evolução?'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-5826825364455258117</id><published>2012-01-27T11:50:00.000-08:00</published><updated>2012-01-27T11:50:56.282-08:00</updated><title type='text'>Estados Unidos e China são rivais, mas se tornam cada vez mais colaboradores</title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;Por&amp;nbsp;Immanuel Wallerstein - FSP&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;O relacionamento entre a China e os Estados Unidos é assunto importante para as&amp;nbsp;classes falastronas (blogueiros, mídia, políticos, burocratas internacionais). Suas&amp;nbsp;análises em geral descrevem a relação entre uma superpotência em declínio, os EUA,&amp;nbsp;e um país "emergente" em rápida ascensão, a China.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;No mundo ocidental, o relacionamento é quase sempre definido de maneira negativa,&amp;nbsp;com a China vista como "ameaça". Mas ameaça a quem e em que sentido?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;É claro que, quando o Partido Comunista conquistou a China, chineses e americanos&amp;nbsp;pareciam ter se transformado em ferozes inimigos. Na Guerra da Coreia, combateram&amp;nbsp;em lados opostos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;Mesmo assim, pouco tempo depois o presidente Richard Nixon fez sua famosa visita a&amp;nbsp;Pequim e estabeleceu uma aliança prática contra a União Soviética.&amp;nbsp;Como parte de seu acordo, os Estados Unidos romperam suas relações diplomáticas&amp;nbsp;com Taiwan (ainda que tenham mantido sua garantia de proteger o país contra uma&amp;nbsp;invasão chinesa).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;Embora o colapso da União Soviética tenha tornado irrelevante a aliança, o&amp;nbsp;relacionamento não mudou, na prática. Na verdade, eles se aproximaram ainda mais.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;A situação em que o mundo se encontra hoje envolve um grande superavit chinês com&amp;nbsp;os EUA, e boa parte desse excedente ruma para títulos do Tesouro americano, o que&amp;nbsp;ajuda a garantir a capacidade de Washington para continuar a investir recursos&amp;nbsp;pesados em suas múltiplas atividades militares e a se manter como bom comprador de&amp;nbsp;produtos chineses.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;Ocasionalmente, os dois governos adotam retórica áspera, ainda assim nunca é muito&amp;nbsp;sábio prestar atenção à retórica.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;Nos assuntos globais, a retórica em geral tem por intento primário exercer efeito&amp;nbsp;político no país do qual se origina, em vez de refletir a verdadeira política com relação&amp;nbsp;ao país contra o qual é dirigida.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;As ações dos países merecem mais atenção. Atentem ao seguinte: em 2001, pouco&amp;nbsp;antes do 11 de Setembro, um avião chinês e um avião norte-americano colidiram ao&amp;nbsp;largo da ilha de Hainan.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;O avião norte-americano provavelmente estava espionando a China. Alguns políticos&amp;nbsp;dos Estados Unidos apelaram por resposta militar. O presidente George W. Bush&amp;nbsp;discordou. Mais ou menos se desculpou com os chineses e obteve a restituição do&amp;nbsp;avião e a libertação dos 24 aviadores americanos capturados.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;Nos diversos esforços americanos para obter apoio da ONU às ações do país, em&amp;nbsp;diversas arenas, os chineses muitas vezes dissentiram, mas jamais vetaram uma&amp;nbsp;resolução que os EUA tenham proposto diretamente. A cautela de parte a parte parece&amp;nbsp;vir sendo a atitude preferencial, a despeito da retórica.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;Assim, em que ponto estamos? A China, como todas as grandes potências atuais, tem&amp;nbsp;uma política externa multifacetada, que abarca todas as regiões do planeta.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;Creio que a prioridade número um seja o relacionamento com o Japão e as duas&amp;nbsp;Coreias. A China é forte, sim, mas o seria muito mais caso fizesse parte de uma&amp;nbsp;confederação do nordeste asiático.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;China e Japão precisam um do outro, primeiro como parceiros econômicos e segundo&amp;nbsp;para garantir que não haja confronto militar entre eles. A despeito de ocasionais&amp;nbsp;desentendimentos causados por sentimentos nacionalistas, os dois países vêm&amp;nbsp;avançando nessa direção.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;Para a Coreia do Sul, a China serve como elemento crucial na contenção dos nortecoreanos.&amp;nbsp;No caso da China, instabilidade na Coreia do Norte poderia significar&amp;nbsp;ameaça imediata à sua fronteira.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;Quanto à percepção americana desses desdobramentos, não seria razoável supor que&amp;nbsp;o país está tentando aceitar uma confederação do nordeste asiático enquanto esta se&amp;nbsp;desenvolve? Seria possível analisar a presença militar dos EUA no nordeste, no&amp;nbsp;sudeste e no sul da Ásia não como postura militar séria, e sim como manobra de&amp;nbsp;negociação no jogo geopolítico que se desenrolará ao longo dos próximos dez anos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arimo; font-size: 15px; line-height: 21px;"&gt;China e Estados Unidos são rivais? Sim, em certa medida. Já são inimigos? Não, não&amp;nbsp;são inimigos. São colaboradores? Já colaboram em grau maior do que admitem e o&amp;nbsp;farão em escala muito maior à medida que a década avança.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-5826825364455258117?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/5826825364455258117/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/estados-unidos-e-china-sao-rivais-mas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/5826825364455258117'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/5826825364455258117'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/estados-unidos-e-china-sao-rivais-mas.html' title='Estados Unidos e China são rivais, mas se tornam cada vez mais colaboradores'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-1340776050709998158</id><published>2012-01-27T11:45:00.000-08:00</published><updated>2012-01-27T11:45:11.769-08:00</updated><title type='text'>Umberto Eco - Do mosteiro ao picadeiro</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div id="articleDate" style="color: #cc3300; font: normal normal bold 10px/normal verdana, helvetica, sans-serif; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 20px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: black; font-family: Verdana, Helvetica, sans-serif; font-size: 12px; font-weight: normal; line-height: 17px;"&gt;&lt;b&gt;FRANCESCA ANGIOLILLO&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div id="articleBy" style="font: normal normal normal 12px/normal Verdana, Helvetica, sans-serif; line-height: 17px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;ENVIADA ESPECIAL A MILÃO&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;FSP, 22/01/2012&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Todas as perguntas possíveis já me foram feitas", diz Umberto Eco, após terminar o café, afundado numa poltrona da sala de visitas de sua casa, em Milão. A cigarrilha apagada, hábito de ex-fumante, pende de um lado da boca. "Só não me perguntam, sei lá, quais são os sete anões. Eu responderia que, quando tento me lembrar, sempre são seis."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Ao fundo, atrás de sua calva, vê-se, de um lado, uma coleção de conchas do mar, escrupulosamente organizadas; de outro, em atris, livros ilustrados do fim do século 19. São alguns dos originais de onde saíram as ilustrações de seu mais recente romance, "O Cemitério de Praga" [Record, trad. Joana Angélica D'Avila Melo, 480 págs, R$ 49,90].&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;O "Cemitério" foi recebido como a volta de um mestre ao gênero que o consagrou (após um romance nostálgico e de fundo autobiográfico, "A Misteriosa Chama da Rainha Loana"): uma trama de mistério, com crimes sangrentos e um protagonista que chega a ser comovente em sua pusilanimidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;A entrevista tem por mote o lançamento do livro no Brasil mas também os 80 anos do escritor, nascido em 5 de janeiro de 1932, na piemontesa Alessandria, cuja fama vem dele e dos chapéus Borsalino. Em várias fotos para a imprensa, ele ostenta, com elegância algo zombeteira, um modelo negro da marca.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;b&gt;ROMANCE&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Eco, o romancista, nasceu em 1980, após sobrevir-lhe o desejo de envenenar um monge: assim o escritor define o motor inicial de seu "O Nome da Rosa", best-seller de cifras milionárias, levado ao cinema em 1986 por Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery e Christian Slater.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Àquela altura, o nome do professor italiano era já conhecido: foram muitos ensaios e títulos de teoria, da poética do escritor irlandês James Joyce ("Sou joyciano, não proustiano", diz, e exibe uma estante forrada de primeiras edições de "Ulysses" em diferentes idiomas) a análises da comunicação de massa (seu primeiro emprego pós-doutoramento em filosofia, em 1954, foi como editor de cultura num dos canais da rede televisiva RAI).&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;O manual "Como se Faz uma Tese" (Perspectiva), de 1977, ainda hoje é referência em cursos de ciências humanas. Mas o currículo de Eco faz com que ele frequente as bibliografias de muitas disciplinas que não só as de metodologia.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Umberto Eco navegou nas principais ondas que atravessaram os estudos da linguagem na segunda metade do século 20, do estruturalismo à teoria da recepção e à narratologia, parando às margens do pós-estruturalismo; cobriu da filosofia às tirinhas do Snoopy.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Cunhou expressões que se tornaram muletas do discurso universitário: atire a primeira pedra quem nunca disse que toda obra é "uma obra aberta" ou aquele que não juntou numa frase, dita à mesa do bar, "apocalípticos" e "integrados".&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Foi a ficção, porém, que levou seu nome aos píncaros da cultura de massa.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;No Brasil, "O Nome da Rosa" saiu em 1984 pela Nova Fronteira. A diretora editorial da casa, Leila Name, qualifica o livro como "uma bomba de sucesso" cujo efeito se multiplicou com o filme. Pelos registros da Nova Fronteira, a primeira investida de Eco na ficção teve no Brasil mais de 45 reimpressões e vendas acima de 600 mil exemplares.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Hoje, sua obra ficcional está toda na Record, que também lança alguns de seus livros de ensaios, como "A História da Beleza" e "A História da Feiura", almanaques eruditos de popularização da história cultural. Somados, seus títulos na casa venderam cerca de 550 mil exemplares ""91 mil deles de "O Cemitério de Praga".&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Sergio Machado, presidente do Grupo Editorial Record, lembra a aquisição de "O Pêndulo de Foucault", segundo romance de Eco, em um leilão """via fax, telex""" comandado por seu pai, Alfredo Machado nos idos de 1988. A quantia acertada pelos direitos do segundo romance de Eco era uma cifra "inédita", US$ 130 mil (cerca de US$ 237 mil, em números corrigidos, o equivalente a R$ 420 mil).&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Na época, US$ 20 mil eram um absurdo", situa Machado. O editor se esquiva de fornecer valores atuais, mas diz que a soma paga por um livro de Eco "não anda para trás" e "vem subindo de forma consistente".&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Dali em diante, tudo o que Eco escreveu atingiu números superlativos --inclusive o que menos vendeu na Record, "A Misteriosa Chama da Rainha Loana", com "apenas" 48 mil exemplares. "Este foi um pelo qual a gente pagou mais do que devia", diz o editor. "As pessoas querem mais do mesmo."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Eco não discorda. "Todos falam que escrevo romances eruditos, difíceis", diz o escritor. "Quando escrevi um fácil, que todo mundo entende, 'A Misteriosa Chama da Rainha Loana', foi o que menos vendeu. Dá para ver que sou um autor para masoquistas."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;b&gt;DAN BROWN&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Muitos intelectuais, porém, não engolem a combinação de sucesso comercial e erudição de Eco, tachando-o de uma espécie de Dan Brown mais cultivado. O raciocínio é um velho conhecido no Brasil, onde serve para desqualificar, por exemplo, os romances de Chico Buarque: se o autor vende bem e é pop, mau sinal --só pode ser um picareta.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Ter Umberto Eco nas estantes da sala é, para muitos, inclusive os que jamais leram uma linha desses livros, uma questão de 'status cult'", diz a professora Lucia Santaella, da PUC-SP, colega em semiótica de Eco, a quem tece "críticas até mesmo bastante severas". Para ela, o italiano é uma espécie de grife, que "compõe bem a pose dos pseudointelectuais que brilham nas grandes praças dos lançamentos do 'big show business'".&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Um de seus detratores contumazes na Itália, o romano Alfonso Berardinelli, estrela da crítica italiana atual, diz --citando Kafka-- que Eco está no centro do mundo, onde se acumula toda a sua imundície, "a prodigiosa escória".&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Escrevi pelo menos quatro ou cinco artigos e ensaios contra Eco", rememora à Folha. "Não posso dizer nada de novo; Eco me aborrece faz tempo, e o que eu tinha a dizer já disse há 20 ou 30 anos. Fico maravilhado em ver como agrada", afirma o autor de "Da Poesia à Prosa" (Cosac Naify).&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Parece engraçado e brilhante, mas na realidade é um professor que não cessa de mesclar erudição e piadas com veia estudantil. E sem fazer rir. É quase uma ofensa à literatura italiana que ele seja seu autor mais notável."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Berardinelli diz ainda não conhecer nenhum escritor --"nem na Itália, nem fora"-- que goste mesmo de Eco. "Sua fama é puramente comercial. É um fenômeno de circo, um autor que impressiona professores de escola."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;b&gt;PICADEIRO&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;No meio do picadeiro pós-lançamento, Eco segue imperturbável: profere pausadamente um discurso que soa familiar, pois volta e meia as palavras se repetem em manifestações públicas e entrevistas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Pudera: a vida literária muitas vezes rivaliza com a de um roqueiro, com cansativas turnês de lançamentos ("Voltei dos EUA com o ombro arruinado, depois de autografar 3.000 livros", conta) e solicitações para opinar publicamente sobre todo e qualquer fato relevante (menos sobre os sete anões).&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Seu apartamento é uma grande biblioteca --são 30 mil volumes; outros 20 mil, estima, estão em sua casa de campo--, mas nada de labirintos compartimentados, apesar de o edifício ser um antigo hotel. À entrada, mapas antigos recebem o visitante; a sala é luminosa e ordenada, com móveis discretos e claros; nas paredes, arte contemporânea; pela janela vê-se a torre do castelo Sforzesco, famoso marco turístico milanês.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;A antiga residência dos duques de Milão remonta à Idade Média, período dileto de Eco, que se doutorou pela Universidade de Turim em 1954 com uma tese sobre a questão estética em São Tomás de Aquino. Mas da fortaleza que foi, após múltiplos ataques e sucessivas reconstruções, praticamente nada de original resta.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Os turistas vêm aqui ver o castelo, onde é tudo falso, e não vão a Brera, onde tem Rafaello, o Cristo de Mantegna, Piero Della Francesca", lamenta o escritor.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;b&gt;FALSÁRIO&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;O falso e o verdadeiro são um tópico da obra de Eco. Simone Simonini, o protagonista de "O Cemitério de Praga", é um falsário. Ou melhor, "o" falsário: Eco atribuiu a ele os grandes crimes contra a verdade que marcariam a virada para o século 20 e, mais que todos, os apócrifos "Protocolos dos Sábios de Sião", conjunto de escritos antissemitas que teriam servido a Hitler para a fundamentação do nazismo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Havendo-me ocupado de problemas de linguagem e comunicação desde 1975, escrevi que o que caracteriza toda forma de signo e de linguagem humana é a possibilidade de mentir. Um cão não mente jamais. Quando late, é porque tem alguém lá fora: nunca aconteceu de um cão latir para que se pense que há alguém lá fora, sem que haja --o homem sim."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"O problema da mentira implica o problema da falsificação. Entre as falsificações mais trágicas, eis os 'Protocolos dos Sábios de Sião', aos quais dediquei vários escritos. Acho que fiz também algumas descobertas ""como a de que trata o romance, que uma das fontes era 'Joseph Balsamo', o livro de Dumas."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;O romance de Alexandre Dumas, pai, de 1849, se inicia com uma cena em que maçons entronizam o protagonista em sua seita secreta. A descrição teria inspirado a conspiração de rabinos dos "Protocolos", forjada no cemitério judaico da capital tcheca, que se teriam congregado para tramar a dominação do mundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;O "documento" (que difama os semitas "num patchwork contraditório que não se poderia levar a sério, mas que foi muito levado a sério") justificaria o ódio aos judeus e seu extermínio preventivo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Ninguém sabe como surgem os 'Protocolos': como nasceram, quem os fez, em quantas fases. Por isso fiquei livre para atribuir tudo a Simonini", diz. E explica que Simonini é o único personagem fictício no romance, um "feuilleton" oitocentista.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;Ele frisa, porém que, Simonini, apesar de inventado, "é mais verdadeiro que os demais".&lt;br /&gt;"Eu estava sempre pensando em pessoas que conhecemos, falsários, jornalistas vendidos, que sabemos quem são, até o nome e o sobrenome. Minha ambição seria que os leitores usassem o livro como um guia para visitar o mundo dizendo 'lá vai um Simonini'."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;Eco arrisca uma leitura psicológica das motivações para a obsessão central de Simonini, que é o ódio aos judeus fomentado nele pelo avô desde a infância.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Descobri que algumas pessoas acabam odiando alguém porque lhe fizeram mal ""veja bem, não odeio alguém porque alguém me fez mal, mas porque eu lhe fiz mal e depois o odeio. Mas por quê? Porque tento esquecer que eu sou o culpado e tento me convencer de que ele merecia meu ódio."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;E garante: "Aconteceu comigo também: gente que aprontou comigo depois escreveu artigos contra mim. Mas entendi que tinham sido desrespeitosos comigo e depois precisavam se justificar".&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Como reza o título da mais recente coletânea de ensaios de Eco --o ainda inédito em português "Costruire il Nemico" (2011), no qual se reconhecem temas e aspectos de "O Cemitério de Praga": é preciso construir o inimigo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;b&gt;CRÍTICA&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Eco diz "desconfiar muito da chamada crítica militante, a que se faz nos jornais, em comparação com a crítica acadêmica".&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Antes, quando saía um livro, o diretor do jornal dava seis meses ao crítico para ler; não havia necessidade de falar dele no dia seguinte. Hoje o crítico lê sempre numa situação de pressa e fica sujeito à estação, à dor de cabeça, ao que comeu na noite anterior. Se tivesse tido seis meses, comendo cada dia algo diferente, a sua leitura seria mais equilibrada."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;E, como que a precaver-se de um ataque, emenda: "Note-se que eu acho desequilibradas não só as críticas que falam mal de meus livros mas também as que falam bem; elas às vezes me irritam porque falam bem pelos motivos errados."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Ele se irrita, também, quando inquirido se existem de fato "motivos errados". Parece condenado a relembrar que a obra é aberta, sim, mas que a interpretação tem limites: "A minha posição é muito clara: não sou um desconstrutivista que acha que um texto pode ter qualquer significado e que cada um pode ler como quiser. A liberdade da leitura é sempre determinada pelo objeto que está lá."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;b&gt;SEMIÓTICA&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Se a semiótica foi devorada por outros estudos e devolvida sob outros avatares acadêmicos, a culpa é em parte de Eco.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Com rara clareza numa ciência em que a obscuridade volta e meia era confundida com argúcia, o italiano aplicou conceitos da ciência dos signos em estudos amplamente difundidos e citados (mesmo que muitas vezes de orelhada) fora do âmbito dos semioticistas, alastrando-os para campos mais diversos e talvez menos cerebrais.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Sempre evocada quando se pensa em semiótica, sua produção, porém, não empolga seus pares. Para Lucia Santaella, o pensamento que ele produziu é "miscigenado": "Ele mistura indiscriminadamente correntes, autores, teorias, criando uma salada complexa e difícil de entender."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;A professora não nega a Eco o papel de "intelectual engajado", que, "alerta, marca sua posição acerca dos eventos", "como um jornalista bem dotado".&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Ele é escritor prolífico. Nos inúmeros congressos de que participei em que ele estava presente, comentava-se que ele escrevia até nos táxis. De fato, ele tem a veia dos gênios. Sua genialidade é a do discurso", concede Santaella.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;b&gt;PARÓDIA&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;O discurso de Eco tem um aspecto brincalhão que parece atiçar parte da crítica contra ele e marca, por exemplo, seus dois "Diários Mínimos", divertidas coletâneas de paródias e pastiches intelectuais, que em maio ganham nova edição [Record, trad. Joana Angélica D'Avila Melo e Sergio Duarte, 560 págs., R$ 62,90; leia trecho de "Nonita" à pág. 10].&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;A despeito do lado gracioso, Eco tem para sua literatura pretensões nada triviais. Seus diversos ensaios sobre a leitura, como "O Papel do Leitor", e livros sobre o tema, como "A Obra Aberta" e "Lector in Fabula", talvez sejam o retrato do que o Eco ensaísta esperava do Eco romancista: a forja, no mundo real, de um leitor modelo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Que leitor modelo eu queria quando estava escrevendo?", inquire retoricamente Eco em seu "Pós-escrito a 'O Nome da Rosa'" (Nova Fronteira, 1985). "Um cúmplice, claro, que entrasse no meu jogo. Eu queria tornar-me completamente medieval e viver na Idade Média como se esta fosse minha época (e vice-versa)", escreve.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Mas, ao mesmo tempo, eu queria, com todas as minhas forças, que se desenhasse uma figura de leitor que, superada a iniciação, se tornasse meu prisioneiro, ou melhor, prisioneiro do texto e pensasse não querer nada mais do que aquilo que o texto lhe oferecia."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Questionado se o teórico transparece no romancista, ele nega. Diz que, se é que se encontram reflexos de sua teoria na sua ficção, é "porque evidentemente eu não sou esquizofrênico": "Até os ginecologistas se apaixonam. Sustento que você pode ter a teoria que for, mas, quando lê, se aquilo o cativa, ao menos numa primeira fase da leitura esquece a teoria."&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Berardinelli, seu crítico mais feroz, faz uma descrição tão ácida quanto acertada do que é tentar definir a produção de Eco.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Assim diz, no texto "Umberto Eco e Seu Pêndulo", publicado aqui em edição da revista "Remate de Males" organizada pela professora Maria Betânia Amoroso no primeiro semestre de 2005:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;"Toda vez que se cai na armadilha de seguir enumerativamente a vertiginosa pluralidade da mente de Eco, se acaba por ter que desistir derrotado: estamos frente ao inesgotável [...]. Se eu também me pusesse a enumerar tudo aquilo que ele enumera não faria nada mais do que lhe fazer eco."&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div id="articleEnd" style="clear: both; font-family: verdana, helvetica, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-1340776050709998158?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/1340776050709998158/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/umberto-eco-do-mosteiro-ao-picadeiro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1340776050709998158'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1340776050709998158'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/umberto-eco-do-mosteiro-ao-picadeiro.html' title='Umberto Eco - Do mosteiro ao picadeiro'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-26956091275004873</id><published>2012-01-27T11:30:00.000-08:00</published><updated>2012-01-27T11:30:34.819-08:00</updated><title type='text'>Pouca roupa me lavavas</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;h3 class="post-title entry-title" style="color: #666666; font-family: 'Trebuchet MS', Trebuchet, sans-serif; font-size: 13px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 20px; position: relative;"&gt;&amp;nbsp;MARCELO COELHO -&amp;nbsp;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-weight: normal;"&gt;&lt;b&gt;FOLHA DE SP - 28/12/11&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/h3&gt;&lt;div class="post-body entry-content" id="post-body-2349570706538326753" style="color: #666666; font-family: 'Trebuchet MS', Trebuchet, sans-serif; font-size: 13px; line-height: 1.4; position: relative; width: 760px;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;Com arte, os argentinos fingem uma indiferença que, de nossa parte, temos como segunda natureza&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das regras da boa literatura é não dizer tudo de uma vez. Importa que o leitor entenda por si mesmo o que se deixou apenas sugerido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A razão para isso não está apenas na vontade de dificultar as coisas. É que sentidos ocultos podem ser imaginados, além daquele mais óbvio que o escritor poderia transmitir. Os argentinos parecem ter especial predileção pela forma indireta de dizer as coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final de um conto de Jorge Luís Borges, só sabemos que houve um assassinato porque o narrador, sem mover um músculo, diz ter examinado o seu próprio punhal, "e nele não tinha ficado o menor rastro de sangue". Não quis confessar que havia matado seu inimigo a facadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos pensar que estivesse apenas evitando ser incriminado. Mas é também uma questão de modéstia; não quer se gabar do feito. Ou, quem sabe, não matou ninguém, mas quis dar a impressão de ser perigoso.&lt;br /&gt;Num espírito diferente, um grupo de humoristas portenhos, Les Luthiers, tem um disco (são ótimos instrumentistas também) com paródias de vários gêneros musicais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compuseram um tango no qual, em vez de lamentar a infidelidade da mulher, o cantor extravasa as mágoas que tem da própria mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Por que fuistes, mamá?" põe em cena um típico malandro, que, como sempre, se considera impecável em seu comportamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe dele não tinha motivos para abandonar o lar. Afinal, sua vida era boa. "Pouca roupa me lavavas", diz o malandro. De modo indireto, muita coisa é dita nesse verso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro, que a mãe cuidava, naturalmente, das tarefas de casa. Depois, que ela não podia reclamar tanto assim do trabalho; não tinha de lavar muita roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez porque, sendo pobre, nosso herói não tivesse mesmo muitas roupas. Ou porque seus hábitos de higiene não fossem muito rigorosos. Quem sabe exista uma acusação implícita: a mãe era mais desleixada do que seria de desejar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Note-se, por fim, que o rapaz abandonado não diz que dava presentes à mãe, que era carinhoso com ela. Sua falta de consideração é tão grande que ele só se lembra de não ter dado trabalho demais à pobre senhora. Na queixa do abandonado, percebe-se assim um bocado de ingratidão. Quanto mais o pilantra diz ter sido injusta a atitude da mãe, mais percebemos que era insuportável conviver com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas figuras da retórica clássica resumem esse jeito indireto de falar. Podemos pensar na elipse (uma palavra que se omite) ou na lítotes, quando se afirma uma coisa negando o seu contrário. Em vez de dizer, por exemplo, que fulano é um ladrão, limito-me a observar que fulano não é a pessoa mais honesta do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevo essas coisas porque estou lendo um livro de contos do argentino Rodolfo Walsh (1927-1977), publicada há algum tempo pela Editora 34.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Essa Mulher", o conto que dá título à coletânea, usa com brilho essa técnica do subentendido. O nome da mulher em questão nunca é pronunciado pelos protagonistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebe-se, entretanto, que se trata de Evita Perón (1919-1952), ou melhor, do seu cadáver, roubado misteriosamente depois de um golpe de direita. "Essa mulher é minha", diz o militar do conto -e uma obscura relação entre desejo sexual, necrofilia, vontade de poder político e impulso repressivo se sugere.&lt;br /&gt;Em outros contos, a violência e a canalhice são antes indicadas do que explícitas. Não por uma questão de pudor, mas porque estão de tal modo entranhadas no cotidiano dos personagens que seria irrealista se o narrador se espantasse com o acontecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma lição a ser adotada pelos escritores brasileiros que, a começar por Rubem Fonseca, acham-se especialmente corajosos quando denunciam a criminalidade da periferia. Muitas vezes parecem querer chocar o leitor, mas eles próprios não disfarçam o olhar arregalado diante do que narram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso num motivo para as elipses e os eufemismos argentinos. Terror, política, mágoas de amor se vivem, por lá, com uma dose de paixão e seriedade que não possuímos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A voltagem é tão intensa que filtros e isolamentos se tornam imprescindíveis. Por aqui, talvez tenhamos de carregar o texto apenas para compensar certa frieza, certa mornidão interior. Com arte, os argentinos fingem uma indiferença que, de nossa parte, temos como segunda natureza -e a sanguinolenta literatura do Brasil de hoje luta, na verdade, contra essa deficiência essencial.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-26956091275004873?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/26956091275004873/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/pouca-roupa-me-lavavas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/26956091275004873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/26956091275004873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/pouca-roupa-me-lavavas.html' title='Pouca roupa me lavavas'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-1407432379392515371</id><published>2012-01-27T10:09:00.000-08:00</published><updated>2012-01-27T11:13:01.356-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Hélio Schwarstman'/><title type='text'>Fracasso irredutível</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div class="kicker blue" style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px; color: navy; font-size: 18px; font-weight: bold; text-transform: uppercase;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: black; font-size: small; font-weight: normal; text-transform: none;"&gt;&lt;i&gt;Hélio Schwartsman para Folha de Sao Paulo, 24.12.2011&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Já que Delfim Netto levantou o problema das previsões erradas dos economistas, acho que podemos tratar deste segredinho sujo que afeta em maior ou menor grau todas as ciências sociais.&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Quem demonstrou cabalmente a precariedade dos prognósticos de economistas e cientistas políticos foi Philip Tetlock. Ele coletou, ao longo de 20 anos, 28 mil previsões feitas por 284 experts. A conclusão do estudo, publicado em 2005, é que eles se saíram ligeiramente melhores que o acaso. Um macaco lançando uma moeda obteria resultados parecidos.&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Como é possível que tanta gente inteligente e estudiosa, que dedicou a vida a um ramo do saber, não consiga superar o macaco? A explicação é de ordem física. Nós nos habituamos a ver a ciência prevendo com enorme precisão fenômenos como eclipses e marés. Só que estes são sistemas não complexos. Aqui, para efeitos práticos, o todo não difere da soma das partes, o que permite montar equações relativamente simples que resultam em predições acuradas. Embora um bom número de fenômenos naturais siga esse padrão, há muitos que não o fazem.&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Em sistemas complexos, que incluem quase todas as atividades humanas, o todo é mais que a soma das partes. É como um avião: nenhuma das peças que o compõem é capaz de voar, mas o conjunto, sim.&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Prognósticos sobre sistemas complexos, quando possíveis, ficam à mercê de pequenas perturbações que podem alterar de forma dramática os resultados, em especial se o prazo é dilatado. É o efeito borboleta.&lt;/div&gt;&lt;div style="-webkit-border-horizontal-spacing: 2px; -webkit-border-vertical-spacing: 2px;"&gt;Isso significa que devemos desistir dos modelos econométricos? Calma lá. Apesar de suas limitações, eles nos ajudam a entender melhor os fenômenos e, ao menos em teoria, podem ser aperfeiçoados. O que podemos fazer é tentar recalibrar nossas mentes, para interpretar os vaticínios menos como um oráculo e mais como o resultado de um exercício intelectual irredutivelmente falho.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-1407432379392515371?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/1407432379392515371/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/fracasso-irredutivel.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1407432379392515371'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1407432379392515371'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/fracasso-irredutivel.html' title='Fracasso irredutível'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-36782489770608874</id><published>2012-01-09T11:11:00.000-08:00</published><updated>2012-01-09T11:11:02.078-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ateismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Eliane Brum'/><title type='text'>A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico</title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: arial, helvetica, freesans, sans-serif; font-size: 12px; line-height: 12px;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Eliane Brum&lt;br /&gt;&lt;a href="http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/11/dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada-vez-mais-evangelico.html"&gt;http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/11/dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada-vez-mais-evangelico.html&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista naúltima sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em SãoPaulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, comoela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz.Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosae às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois,outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar”emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro dejaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou oque ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar omeu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estoulendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”,ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que euquero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direitoa seguir com travessões.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;- Você é evangélico?– ela perguntou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;- Sou! – elerespondeu, animado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;- De que igreja?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;- Tenho ido naNovidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já limatérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. Devez em quando eu vou lá.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Legal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- De que religião você é?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Eu não tenho religião. Sou ateia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Deus me livre!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você nãorespeita a minha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- (riso nervoso).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas comrespeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugarmelhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Por que as boas ações não salvam.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Não?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Mas eu não quero ser salva.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Deus me livre!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia damelhor forma possível.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Acho que você é espírita.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Não, já disse a você. Sou ateia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar.Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queiratirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por serevangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico.Não era Jesus que pregava a tolerância?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O taxista estava confuso. A passageira era ateia, masparecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado paraacreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse?(Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diaboassumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dápara ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver umembate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falavasobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Chegaram ao destino depois de mais algumas conversascorriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bomfim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria aporta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes defechá-la.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateuspoderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez maisneopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que maiscrescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém umarelação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que épossível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar aigreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nemcondena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo estádisseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influenciainclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou aconvivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmerasigrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinasdas grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, ocaso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica oua dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser –assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porçãocada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo dese relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Por que os ateus são uma ameaça às novas denominaçõesevangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – sãoconstituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Porisso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. Épossível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, comoum consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelobrilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir aigreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa demercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. Épreciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portasabertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para seremconsumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé,com as vantagens e as desvantagens que isso implica.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;É também por essa razão que a Igreja Católica, que emperíodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para océu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relaçõescapitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneirabastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido podere influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão demercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, quecontém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer aintegridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como MarceloRossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir asangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem maisagressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos nopaís.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vezmais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não hánada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado porconvicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer umcatólico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem maisdifícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita naexistência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como umtravesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, nãotem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitadose apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Porenquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que ocerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar umpunhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, nosinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”.Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igrejanova.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, paraos íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade deVida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me depareicom uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre asfamílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o quenão venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios deestimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, omal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus melivre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendoinvestigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para aprofundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. Astransformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possaparecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não nosentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentidoatribuído pelo senso comum.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e,portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendosolapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI,ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva,uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheresvirgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na“Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditarnele.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-36782489770608874?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/36782489770608874/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/36782489770608874'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/36782489770608874'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada.html' title='A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-9099770480303954622</id><published>2012-01-09T11:04:00.000-08:00</published><updated>2012-01-09T11:11:21.122-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='depressao'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Eliane Brum'/><title type='text'>Você consegue viver sem drogas legais?</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Eliane Brum&amp;nbsp;- 05/12/2011 - Epoca&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Pedro – o nome é fictício porque ele não quer seridentificado – é um cara por volta dos 40 anos que adora o seu trabalho e éreconhecido pelo que faz. É casado com uma mulher que ama e admira, com quemtem afinidade e longas conversas. Juntando os fundos de garantia e algumaseconomias os dois compraram um apartamento anos atrás e o quitaram em menos deum ano. Este é o segundo casamento dele, e a convivência com os dois filhos doprimeiro é constante e marcada pelo afeto. Ao contrário da regra nesses casos,a relação com a ex-mulher é amigável. Pedro tem vários bons amigos, o que émais do que um homem pode desejar, acha ele, porque encontrar um ou dois bonsamigos na vida já seria o bastante, e ele encontrou pelo menos uns dez com quemsabe que pode contar na hora do aperto. A vida para Pedro faz todo sentidoporque ele criou um sentido para ela. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ótimo. Ele poderia ser personagem de uma daquelas matériassobre sucesso, felicidade e bem-estar. Mas há algo estranho acontecendo. Algoque pelo menos Pedro estranha. Há dois anos, Pedro toma Lexapro (umantidepressivo), Rivotril (um ansiolítico, tranquilizante) e Stilnox (umhipnótico, indutor de sono). Dou os nomes dos remédios porque os psicofármacosandam tão populares que se fala deles como de marcas de geleia ou tipos de pão.E o fato de nomes tão esquisitos estarem na boca de todos quer dizer algumacoisa sobre o nosso tempo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Pedro conta que a primeira vez que tomou antidepressivo,anos atrás, foi ao perder uma pessoa da família. A dor da perda o paralisou.Ele não conseguia mais trabalhar. Queria ficar quieto, em casa, de preferênciasem falar com ninguém. Nem com a sua mulher e com os filhos ele queriaconversar. Pedro só queria ficar “para dentro”. E, quando saía de casa, sentiaum medo irracional de que algo poderia acontecer com ele, como um acidente decarro ou um assalto ou ser atingido por uma bala perdida. Ele mesmo pediuindicação de um bom psiquiatra a uma amiga que trabalha na área. Pedro sentiaque estava afundando, mas temia cair na mão de algum charlatão do tipo quereceita psicofármacos como se fossem aspirinas e acredita que tudo que é dohumano é uma mera disfunção química do cérebro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;O psiquiatra erasério e competente. Ele disse a Pedro não acreditar que ele fosse um depressivoou que tivesse síndrome do pânico, apenas estava em um momento de luto.Precisava de tempo para sofrer, elaborar a perda e dar um lugar a ela. Receitouum antidepressivo a Pedro para ajudá-lo a sair da paralisia porque o pacienterepetia que precisava trabalhar. A licença em caso de luto – dois (!!!!) dias,segundo a legislação trabalhista – já tinha sido estendida por um chefecompreensivo. Por Pedro ser muito bom no que faz recebera o privilégio de duassemanas de folga para se recuperar da perda de uma das pessoas mais importantesda vida dele. Pedro não queria “fracassar” nessa volta. E não “fracassou”. Coma ajuda do antidepressivo, depois de algumas semanas ele voltou a produzir coma mesma qualidade de antes. Três meses depois da morte de quem amava, ele jávoltara a ser o profissional brilhante.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Pedro tomou o antidepressivo por cerca de um ano, com acompanhamentorigoroso e consultas mensais. Como não agradava nem a ele nem era o estilo dopsiquiatra que escolheu, pediu para parar de tomar o remédio. O psiquiatraconcordou, e Pedro foi diminuindo a dose da medicação até cessar por completo.Tocou a vida por mais ou menos um ano e meio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Neste intercurso, ele se tornou ainda mais criativo.Aumentou o número de horas de trabalho, que já eram muitas, porque se sentiamuito potente. Pedro multiplicou o seu sucesso, que sempre foi medido por elenão pela quantidade de dinheiro, mas de paixão. E achava que tudo estavamaravilhoso até começar a ter insônia. Pedro dormia e acordava, sobressaltado.Sem conseguir voltar a dormir, pensamentos terríveis passavam pela sua cabeça.Pedro pensava que perderia todo o seu sucesso, a sua possibilidade de fazer ascoisas que acreditava e às vezes temia morrer de repente. As noites de Pedropassaram a ser povoadas por catástrofes imaginárias, mas bem reais para ele. E,toda vez que saía de casa pela manhã, voltara a ter medo de ser atingido poralguma fatalidade, por algo que estaria sempre fora do seu controle.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;Algumas semanasdepois do início da insônia, Pedro paralisou de novo. Não conseguia trabalhar –e este, para Pedro, era o maior dos pesadelos reais. Voltou ao consultóriopsiquiátrico e há dois anos toma os três remédios citados. Pedro, que sempretinha olhado com desconfiança para a prateleira de psicofármacos, começou aachar natural precisar deles para enfrentar os dias e também as noites. “Quemal tem tomar uma pílula para dormir?”, dizia para a mulher, quando ela oquestionava. “Ou tomar umas gotas de tranquilizante para não travar o maxilarde tensão? Ou 15 mg de antidepressivo para vencer a vontade de se atirar nosofá e ficar apenas olhando para dentro?” Sua mulher conta que ele parecia oCapitão Nascimento, em “Tropa de Elite”, tomando comprimidos no banheiro edizendo à esposa: “Isso aqui não tem problema nenhum. Todo mundo faz isso. Nãotem problema nenhum”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Em 2011, Pedro teve momentos em que achou que tudo estavamuito bem mesmo. E, se para tudo ficar tão bem era preciso tomar algumaspílulas, não tinha mesmo problema nenhum. Pedro talvez nunca tenha produzidotanto como neste ano e, por conta disso, até ganhou um aumento de salário semprecisar pedir. Mas, às vezes, não com muita frequência, ele se surpreendiapensando que algumas dimensões da sua vida tinham se perdido. Pedro não tinhamais o mesmo desejo pela sua mulher, e o sexo passou a ser algo secundário nasua vida. Não tinha mais tanto desejo pela sua mulher nem desejo por mulheralguma.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Efeito colateral do&amp;nbsp;Antidepressivo.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Pedro trabalhava tanto que tinha reduzido às idas ao cinema,os encontros com os amigos e a pilha de livros ao lado da cama continuava nomesmo lugar. Ele também tinha perdido o interesse por viagens de lazer com afamília, porque estava ocupado demais com seus projetos profissionais. Pedroconstatou que os momentos de subjetividade eram cada vez mais escassos na suavida. E, embora o trabalho lhe desse muita satisfação, ele tinha eliminado umacoleção de pequenos prazeres do seu cotidiano. Por volta do mês de setembro,Pedro começou a sentir uma difusa saudade dele mesmo que já não conseguiaignorar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;“Devagar eu comecei a perceber que tinha criado uma vida quenão podia sustentar sem medicação. E tinha aceitado isso. Como, acho, boa partedas pessoas que conheço e que tomam esse tipo de remédio”, conta. “Eu sóconsigo fazer tudo o que faço porque tenho essa espécie de anabolizante. Sou umbombado psíquico. Vivo muitas experiências todo dia e não tenho nenhum tempopara elaborar essas experiências, como não tive tempo para elaborar o meu luto.É uma vida vertiginosa, mas é uma vida não sentida. Às vezes tenho experiênciasmaravilhosas, mas, na semana seguinte, ou na mesma semana, já não me lembrodelas, porque outras experiências se sobrepuseram àquela. E sei que só durmoporque engulo pílulas, só acordo porque engulo pílulas. Só suporto esse ritmoporque engulo pílulas. Até pouco tempo atrás eu achava que tudo bem, então euficaria tomando pílulas pelo resto da vida. Em vez de mudar meu cotidiano paraque ele se tornasse possível, eu passei a esticar meus limites porque sabia quepodia contar com os medicamentos e, se voltasse a cair, me iludia que bastariaaumentar a dose. Eu me tornei uma equação: Pedro + medicamentos. Aos poucos,porém, comecei a perceber que não é essa vida que eu quero para mim. Tem algoerrado quando a vida que você inventou para você só é possível porque você tomatrês comprimidos diferentes para poder vivê-la. E, talvez, daqui a pouco, euesteja tomando Viagra para ter desejo pela mulher que amo. Isso aos 40 anos. E,com o tempo, os efeitos colaterais desses remédios vão causar, peloprolongamento do uso, doenças em outras partes do meu corpo. Eu sei que muitagente, como eu, já se habituou a achar que é normal viver à custa de pílulas.Mas, se você parar para pensar, isso é uma loucura. Isso, sim, é doença. E osmédicos estão nos mantendo doentes, mas produtivos, usando os remédios paraajustar a máquina a um ritmo que a máquina só vai aguentar por um certo tempo.De repente, percebi que eu era uma máquina humana. E que eu estava usandoremédios legais como se fossem cocaína e outras drogas criminalizadas. E o maismaluco é que todo mundo acha que tenho uma vida invejável e que está tudo ótimocomigo. Por serem drogas legais, por causa da popularização de coisas comodepressão e síndrome do pânico, todo mundo acha normal eu tomar pílula para tercoragem de sair da cama de manhã e pílula para conseguir dormir sem ter medo demorrer no meio da noite. De repente, me caiu a ficha, e eu comecei a enxergarque estamos todos loucos, a começar por mim. Loucos por achar que isso énormal.” &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Com a autorização de Pedro, procurei o psiquiatra dele parauma conversa. É um profissional inteligente e sério. E foi de uma honestidaderara. Perguntei a ele porque receitava psicofármacos para gente como Pedro.“Porque vivemos num mundo em que as pessoas não têm tempo para elaborar o que édo humano. Muitas vezes eu me deparo com essa situação no consultório. Vejo umapessoa ali me pedindo antidepressivo porque não consegue mais trabalhar, nãoconsegue mais tocar a vida. Eu sei que ela não consegue mais trabalhar nemtocar a vida porque é a sua vida que se tornou impossível, porque precisa de umtempo que não tem para elaborar o vivido. É óbvio que não é possível, porexemplo, elaborar um luto ou uma separação em uma semana e seguir em frentecomo se nada tivesse acontecido. Assim como não é possível viver sem dúvidas,sem tristezas, sem frustrações. Tudo isso é matéria do humano, mas o ritmo danossa vida eliminou os tempos de elaboração. Essa pessoa não é doente – é avida dela que está doente por não existir espaço para vivenciar e elaborar oque é do humano. Só que esse cara precisa trabalhar no dia seguinte e produzirbem ou vai perder o emprego. Então eu dou o antidepressivo e faço umacompanhamento sério, com psicoterapia, para que esse cara possa dar um jeitona vida e parar de tomar remédios. É um dilema e não tem sido fácil lidar com ele,mas é neste mundo que eu exerço a profissão de psiquiatra. Porque no tratamentoda depressão, de verdade, a doença, de fato, é muito difícil obter resultados,mesmo com os medicamentos atuais. Assim como outras doenças psíquicas, quandosão doenças mesmo. Os resultados são muito mais lentos – e às vezes não háresultado nenhum. A maioria das pessoas que estamos medicando hoje não édoente. E por isso o resultado é rápido e parece altamente satisfatório. Estaspessoas só precisam dar conta de uma vida que um humano não pode dar conta.” &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Pedro, que nunca foi adepto das famosas resoluções deAno-Novo, desta vez se colocou uma que talvez seja a empreitada mais difícilque já enfrentou. “Estou reduzindo progressivamente a dose dos medicamentos evou parar até março. Minha meta, em 2012, e talvez leve muitos réveillons paraconseguir alcançar isso, é criar uma vida possível para mim. Uma vida e umarotina que meu corpo e minha mente possam dar conta, uma vida em que sejapossível aceitar os limites e lidar com eles, uma vida em que eu tenha tempopara sofrer e elaborar o sofrimento, e tempo para usufruir das alegrias e dospequenos prazeres e da companhia dos que eu amo. Sei que vai ter um custo, seique vou perder coisas e talvez tenha até de mudar de emprego, mas acho que vaivaler a pena. Não quero mais uma mente bombada, nem ser uma máquina bemsucedida. Quero só uma vida humana.” Torço por Pedro, torço por nós.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-9099770480303954622?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/9099770480303954622/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/voce-consegue-viver-sem-drogas-legais.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/9099770480303954622'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/9099770480303954622'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/voce-consegue-viver-sem-drogas-legais.html' title='Você consegue viver sem drogas legais?'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-6548733129255393814</id><published>2012-01-09T10:59:00.000-08:00</published><updated>2012-01-09T10:59:12.259-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Eliane Brum'/><title type='text'>O que aprendi com o pior jornalista do mundo</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; 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Um repórter de um jornal europeu me procurou, por intermédio de umacolega, porque viria ao Brasil e queria fazer uma reportagem sobre prostituiçãoinfantil. Expliquei a ele que, para fazer algo que valesse a pena nessa área,ele precisaria de tempo e bastante trabalho. Por considerar a pauta relevante euma repercussão no exterior importante, abri todas as minhas fontes e fizcontatos com outros jornalistas que trabalhavam com o tema em capitaisnordestinas. Fiz, praticamente, uma pré-produção para que ele pudesse fazer areportagem quando chegasse ao país. Mas ele não a fez. Passou uma semana entreSão Paulo e Rio de Janeiro e, para meu espanto, publicou em seu jornal umareportagem sobre meninas leiloadas em jogos no centro-oeste do Brasil, ondejamais havia colocado os pés. Não precisei investigar. O próprio jornalista mecontou que havia copiado um texto publicado anos antes em um jornal do interiordaquela região como se fosse seu. Segundo ele, com a anuência do autor.Publicou como se fosse o retrato do momento e como se tivesse estado lá.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Eu sabia que coisas assim aconteciam mesmo na melhor – e àsvezes entojada – imprensa europeia. Mas jamais testemunhara. Até então eu e ojornalista nunca tínhamos nos visto. Fiquei tão indignada que marquei umencontro para dizer o que pensava olhando na sua cara. Quando cheguei ao bar,ele já estava lá, no longo balcão. Tinha em torno de 50 anos, talvez menos, umfísico de mercenário e os olhos mais azuis que eu já tinha visto. Pedi uma taçade vinho e fiz de imediato o que tinha ido fazer. Disse que gente como elefazia mal não só ao jornalismo, mas ao mundo. E que conhecê-lo tinha sido umdesprazer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O jornalista me ouviu como se eu estivesse contando o enredode uma comédia romântica. Me provocou, com um sorriso de Humphrey Bogart:“Então, você sempre faz o que é certo?”. Em seguida, me contou que na guerra doGolfo foi tirado do banho do hotel, em Paris, para dar um boletim ao vivo narádio – e deu, descrevendo a violência que não transcorria diante dos seusolhos. Enquanto o vinho encolhia na garrafa, ele foi desfiando uma longa listade pecados jornalísticos. Acho que no início queria apenas me chocar, por meconsiderar uma espécie de virgem da imprensa dos trópicos. Aos poucos, porém,foi trocando a ironia pela amargura. E começou a parecer um homem perigoso deoutras maneiras.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Nesta altura, algum leitor pode estar se perguntando por queeu permaneci lá, sentada ao seu lado. É uma boa pergunta. Acho que fiqueiporque aquele personagem me fascinava. Ele parecia saído da literatura – e erada vida. E manipulava a vida real que deveria contar. Em certo momento, volteia habitar o meu corpo e disse que sentia um profundo desprezo por pessoas comoele e que o mundo seria melhor se ele mudasse de profissão. E que, sim, estavana hora de eu ir embora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ele então me olhou com aqueles olhos quase transparentes edisse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Vou te fazer uma proposta. Só por um dia, eu vou fazer obem desde o momento em que acordar até a hora de dormir. Em troca, você vaifazer o mal em todas as oportunidades. Amanhã, um dia apenas, viveremos estepacto. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;saiba mais&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;(Pare de ler por ummomento, agora, e pense por pelo menos um minuto nessa proposta, como se elafosse feita a você. Pense com a mente aberta e com a honestidade que só temoscom nós mesmos, na sala privada, trancada à chave, de nossas reflexõessecretas.)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Disfarçando meu desconcerto, respondi que ele soava como umpéssimo Mefistófeles e que seria um ator ainda pior do que era jornalista.Pagamos a conta, e o vi desaparecer na escuridão da rua. Naquele momento, aovê-lo meio curvado e atormentado sobre o próprio corpo, ele parecia mais oMister Hyde, de Stevenson, do que o personagem imortalizado por Goethe. Pegueium táxi e fui para casa. Naquela época eu morava sozinha e passei a noite deolhos estalados sobre a cama feita. Ele tinha me perturbado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Enquanto atravessava a madrugada em uma espécie de transe,eu imaginava como seria levantar no dia seguinte e escolher fazer o mal. Nadamuito complexo e com muitas nuances, apenas o mal mais trivial. O que talvezpudéssemos chamar de pequeno mal, amplamente praticado e pouco confessado.Chutar em vez de acariciar o gato, apontar o bigode que a colega de trabalhodescoloria no esforço de que ninguém o descobrisse ou a calvície que um amigose esforçava por disfarçar, humilhar os que estavam abaixo na hierarquia,disseminar comentários cruéis sempre que tivesse oportunidade. Por escolha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Era como se embriagar de liberdade. É claro que, como todomundo, eu já havia praticado pequenos atos de maldade. Mas raramente como opçãoconsciente. Em geral meu histórico de maldades, maior na infância e najuventude, contém deslizes e omissões – seguidas por um sentimento de culpa queme impingia bolas de ferro no espírito ao perceber o que havia feito. Pensarque eu podia escolher fazer o mal era algo perturbadoramente sedutor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;No dia seguinte, entorpecida de sono, eu já sabia queseguiria tentando ser a melhor versão de mim mesma. Mas jamais me esqueci destahistória – e da inquietação com que ela me assinalou. “Olhos Azuis” – é assimque eu chamo esse enigmático personagem que assaltou meu sossego numa noite daprimavera de 2000 – me fez enxergar algo sobre mim. Não algo como tema de umdebate filosófico, onde as palavras nem sempre se sujam com as tripas, mas algocomo uma possibilidade encarnada na vida. Suas palavras deformadas me deram umvislumbre da liberdade. E eu corri dela o mais rápido que pude.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Eu soube ali que não poderia escolher praticar o mal. Eu sópoderia escolher praticar o bem – o que implica descobrir a cada passo o queisso significa. Se eu não sou livre para escolher praticar o mal, então euseria livre para escolher praticar o bem? Não. Ou há escolha – ou não háescolha. Não pode haver escolha só para um lado. Desde então, marco esta noitecomo aquela em que eu perdi a ilusão da liberdade graças a um dos pioresjornalistas de todos os tempos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Penso que nossa liberdade é limitada e que, como diziaNietzsche, o livre arbítrio não existe. Explico, do meu jeito. Temos arbítrio,mas ele está longe de ser totalmente livre. Cada escolha nossa é não só baseadaem prós e contras, mas também em influências externas e internas. No lado defora, a cultura e os valores da época em quem vivemos, o meio onde nascemos eonde nos fizemos adultos, os desafios materiais que a sobrevivência nos impõe.No interior, nosso vasto inconsciente nebuloso, nossas pulsões, o dentro queestá além do nosso controle.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Nosso estar no mundo– e em nós mesmos – elimina a possibilidade do livre arbítrio. Mas aimperfeição desta liberdade não nos absolve do arbítrio. Se, ao contrário,caíssemos no outro extremo, o de que nossas escolhas são totalmentedeterminadas pela cultura ou pela genética ou pelas nossas necessidades de finsque permitem todos os meios, nos colocaríamos além de qualquerresponsabilização. Seríamos como marionetes de uma guerra de desrazão por almasque não temos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Como aquelas pessoas que bochecham a boca com o discurso daliberdade de prateleira e, sempre que possível, responsabilizam o chefe pelomal que fazem, com a justificativa de que estão cumprindo ordens. Delegam aresponsabilidade pelos seus atos, quando mesmo o mais cativo entre nós aindatem uma estreita margem de escolha. Nossa vizinhança está cheia de gente comoAdolf Eichmann, o oficial nazista responsável pela logística do extermínio dosjudeus. Em seu julgamento, o nazista surpreendeu o mundo porque, em vez de ummonstro sanguinário, se revelou um humano medíocre e mais semelhante do quediferente daqueles que o assistiam. O episódio foi analisado com brilhantismopor Hannah Arendt em “Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade domal” (Companhia das Letras).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Penso que a resposta não está nos extremos. Se a liberdade étão fugidia que nos escapa a cada momento, maior deve ser a nossa ânsia debuscá-la. Desde que Olhos Azuis tentou me provar que eu tinha tão pouca escolhade fazer o bem quanto ele de praticar o mal, ainda que nossos imperativosfossem opostos, passei a perseguir com muito mais empenho um jeito de viver quetornasse minhas escolhas mais minhas, mesmo sabendo que jamais serão totalmenteminhas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Quando tratamos a liberdade como um bem adquirido ou umdireito consolidado, penso que corremos o risco de perdê-la lá onde elaefetivamente está: nas bordas. Se a aceitamos como mercadoria – como uma velhacalça azul e desbotada, ainda que novíssima, com rasgões de fábrica e com umaetiqueta que lhe multiplica o preço – nos perdemos dela porque deixamos deprocurá-la. Quanto mais fácil e dada a liberdade está, mais nos afastamos dela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;A liberdade é uma coisa séria – e muito mais séria é porquejamais a teremos por completo. Ao contrário do que Olhos Azuis insinuou, aliberdade não se torna algo menor porque inalcançável – mas maior e mais vitalporque nos escapa. A liberdade exige – e cobra – nossos melhores esforços.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Penso que a melhor forma de tornar nossas escolhas maisnossas é também a mais difícil: duvidar o tempo todo de nossas certezas.Duvidar de nossos porquês mais óbvios. De nossa rotina estabelecida, de nossosvelhos hábitos, de afirmações como “eu sou assim” ou “fulano nunca vai mudar”.Duvidar de que a vida tenha de ser de uma determinada maneira ou de outra.Duvidar de nossas crenças mais profundas, duvidar de nossas necessidades deconsumo. Duvidar de que não exista um outro jeito de viver nem um outro mundomelhor que este a ser construído. Duvidar de gente que diz que está fazendoalgo para o nosso bem. E mais ainda se essas pessoas estão em lugar de poder.Duvidar quando a gente diz que está fazendo algo para o bem do outro. Assimcomo a liberdade, o bem não tem respostas óbvias.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Duvidar não é um exercício fácil. É um ato de resistênciainternamente tão exaustivo – e tão perigoso – quanto atravessar o Atlântico numbarco a remo. Escolher duvidar como caminho para alargar nosso estreito espaçode liberdade é uma boa meta para 2012. Só os escravos de espírito têm certezasde concreto armado. Quem anseia pela liberdade, ainda que imperfeita, escolhetornar-se um colecionador de dúvidas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Com o passar dos anos, Olhos Azuis foi perdendo sua aura depersonagem clássico da literatura em minha memória. Bem aos poucos, eletornou-se uma figura triste, quase patética. Que, como muitas figuras tristes,quase patéticas, tinha um bom emprego e o pequeno poder de mentir em largaescala. Nunca mais ouvi falar no seu nome. Mas sou grata a ele por ter mearrancado algumas certezas. Ao escolher duvidar dele e de mim, simultaneamente,acessei uma experiência mais profunda. Escolher o que fazer com nossaslembranças é um flerte com a liberdade. É arbítrio, quase livre. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-6548733129255393814?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/6548733129255393814/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/o-que-aprendi-com-o-pior-jornalista-do.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6548733129255393814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6548733129255393814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/o-que-aprendi-com-o-pior-jornalista-do.html' title='O que aprendi com o pior jornalista do mundo'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-4601725797945741198</id><published>2012-01-09T10:53:00.000-08:00</published><updated>2012-01-09T10:53:50.941-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='depressao'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Eliane Brum'/><title type='text'>Os robôs não nos invejam mais</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; 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Em algum momento, às vezes por uma falha no sistema,eles passavam a desejar. E desejar algo que lhes era negado: subjetividade.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Condenados às respostas previsíveis, revoltavam-se contra a sua natureza deautômato. Humanizar-se, sua aspiração maior, significava sentir angústia,tristeza, amor, raiva, alegria, dúvida e confusão. Os robôs da modernidadequeriam, portanto, a vida – com suas misérias e contradições. Ao entrar emconflito e ao desejar, os robôs já não eram mais robôs, mas um algo em busca deser. Um ser humano, portanto. A partir desta premissa, grandes clássicos daficção científica da modernidade foram construídos, como O Homem Bicentenário,de Isaac Asimov, que depois virou o filme estrelado por Robin Williams. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Hoje, a pós-modernidade nos encontra em uma situaçãocuriosa: os humanos querem se tornar robôs. Cada vez um número maior de pessoasse oferece em sacrifício, imolando sua vida humana, ao deixar-se encaixar emalguma patologia vaga do manual das doenças mentais e medicalizar o seucotidiano para se enquadrar em uma pretensa normalidade. E assim dar asrespostas “certas”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Para quê? Ou para quem?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Basta olhar ao redor com alguma atenção para perceber que,nas mais variadas esferas do nosso cotidiano, esperam-se respostas automáticase objetivas. Seja na área amorosa e no “desempenho” sexual, seja nocomportamento profissional. Até mesmo dos bebês espera-se que atendam àsclassificações previstas nos muitos compêndios sobre o que esperar de umfilhote humano a cada fase. Vivemos no mundo dos manuais de todos os tipos,difundidos pelo mercado editorial e reproduzidos e amplificados pela mídia, quenos ensinariam um “modo de nos usar”, com o objetivo de alcançar um tipoespecífico e previamente anunciado de resultado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Dar respostas automáticas e objetivas diante de situaçõesdeterminadas nos daria um lugar no mundo dos “normais”. E dos bem-sucedidos, jáque hoje a normalidade é determinada por um tipo particular de sucesso.Tornar-se robô na vã tentativa de apagar a subjetividade humana é, portanto, oque uma parte da humanidade ocidental tem desejado para si – e se esforçadopara impor aos filhos. E nisso tem a ajuda decisiva da indústria farmacêutica,que possivelmente nunca tenha ganhado tanto dinheiro com psicofármacos comohoje, e de um certo tipo de profissional da medicina que manipula o “ManualDiagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (Diagnostic and StatisticalManual of Mental Disorders - DSM-IV)” como uma Bíblia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;A tese acima é o ponto de partida de um livro muitointeressante lançado há pouco, chamado “O Livro Negro da PsicopatologiaContemporânea” (Via Lettera). A obra é organizada por Alfredo Jerusalinsy eSilvia Fendrik, dois dos mais brilhantes psicanalistas da atualidade. Mas,entre os nove autores brasileiros, nove argentinos, um mexicano e um francês,não há apenas psicanalistas, mas também psiquiatras, neurologistas epesquisadores da área da neurociência. Em alguns capítulos a linguagem é árida,e a obra se beneficiaria de uma edição mais rigorosa e cuidada. Ainda assim, otema é irresistível e a leitura abre muitas janelas de reflexão. Em certamedida, o livro responde às provocações de outra obra, “O Livro Negro daPsicanálise” (Civilização Brasileira), em que a psicanálise é violentamente atacadacomo “charlatanismo”. Mas, como os autores anunciam – e cumprem – “O LivroNegro da Psicopatologia Contemporânea” não é um mero contra-ataque, o queserviria apenas para empobrecer um dos debates mais relevantes da nossa época.E sim uma excelente oportunidade para discutir com inteligência e profundidadealgo que diz respeito a todos nós.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Afinal, não é o caso de demonizar a indústria farmacêutica ea psiquiatria, como se tivessem o poder superior de nos fazer acreditar que ossentimentos e as contradições inerentes à condição humana constituíssem umestorvo dos quais fosse preciso se livrar com a maior rapidez possível.Tampouco radicalizar afirmando que os medicamentos não têm função alguma nempossam representar uma conquista em determinadas situações. É importanteassinalar: existem casos em que os remédios são benéficos e podem ajudar apessoa a sair de um estado de paralisia. E há bons profissionais que sãoparcimoniosos e responsáveis no seu uso, em geral por tempo determinado e comrigoroso acompanhamento, para que os efeitos colaterais das drogas não setornem mais nocivos do que o problema que motivou o seu uso. Infelizmente, arealidade nos mostra que esta não tem sido a regra.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Vivemos hoje uma patologização da vida humana e um usoindiscriminado, abusivo e cada vez mais precoce de psicofármacos. A importânciadeste livro é nos ajudar a compreender o que isso diz sobre a forma comoestamos vivendo as nossas vidas, sobre a qualidade do nosso desejo e sobre alógica socioeconômica que tem movido nosso mundo. Para isso, de nada valeriatrocar um dogma por outro. E o livro tem o mérito de não fazê-lo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Se muitas vezes a ciência é colocada no lugar de divindade edamos aos médicos o poder de determinar como vamos viver – e como vamos morrer–, é porque nós permitimos que isso aconteça. Porque é mais fácil transferir aum outro a responsabilidade por escolhas que deveriam ser nossas. Ainda queseja difícil escapar das engrenagens do mundo, especialmente quando elasenriquecem as grandes corporações, em alguma medida é justo pensar que temos,se não liberdade, pelo menos uma paleta de alternativas. Com todos os riscosque implica escolher contra a lógica dominante.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Por exemplo. Quando os pais levam uma criança que não estádando as respostas “adequadas”, seja em casa ou na escola, a um psiquiatra ou aum pediatra ou a um neurologista ou a qualquer outra especialidade e saem de lácom um diagnóstico e uma receita de psicofármaco, não me parece que estão sendoenganados. Acredito que a ética do médico pode ser questionada. Mas acreditotambém que os pais, assim como cada um de nós, procuram – e encontram – oprofissional que vai dizer aquilo que gostariam de ouvir.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Hoje parece mais fácil para os pais lidar com um diagnósticode transtorno psiquiátrico e tentar calar seus filhos com medicamentos do queempreender uma travessia que seguramente será mais espinhosa, exigirá tempo ededicação maiores e poderá levar a respostas impossíveis de prever – quando nãoa novas perguntas. Da forma como hoje é colocado, o “transtorno” mental aparececomo algo que está convenientemente fora, não tem nada a ver nem com opaciente, nem com o funcionamento da família. Sem contar que parte dos paisadora delegar a difícil tarefa de serem pais – e parte dos médicos adoraassumir a prazerosa tarefa de ser Deus.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;No capítulo intitulado “Gotinhas e comprimidos para criançassem história. Uma psicopatologia pós-moderna para a infância”, AlfredoJerusalinsky afirma: “Nos últimos trinta anos, tem havido um deslocamento dascategorias nosográficas (de descrição das doenças) para o terreno dos dados.Não se questiona o que quer dizer este ponto, esta palavra ou este gesto forado lugar. (...) Na trajetória que estamos descrevendo, foi se apagando esseesforço por ver e escutar um sujeito, com todas as dificuldades que eletivesse, no que tivesse para dizer, e foi-se substituindo o dado ordenadosegundo uma nosografia (descrição das doenças) que apaga o sujeito. (...) Éassim que os problemas deixam de ser problemas para serem transtorno. É umatransformação epistemológica importante, e não uma mera transformaçãoterminológica. Um problema é algo para ser decifrado, interpretado, resolvido;um transtorno é algo a ser eliminado, suprimido porque molesta. Os nomes dascategorias não são inocentes”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;E, mais adiante: “De nossa parte, continuamos sustentandouma psicopatologia interpretativa, o que quer dizer não nosográfica, porque nãodepende de dados, não depende de sintomas, mas de deciframento. (...) Colocamna cabeça dos pais que eles não têm nada para ver nem entender e, então, elesse comportam como se não tivessem nada para ver nem entender; consequentementea criança fica condenada aos automatismos mentais. Mas, claro, para eles sóexistem os automatismos mentais, então o que é preciso é trocá-los por outros”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Quando as crianças apresentam um comportamento não esperado(esperado por quem e para quê?), a resposta predominante de pais, médicos eprofessores têm sido não escutar, mas transformar expressões em transtornosporque o que a criança diz, por palavras, gestos ou ações, pode transtornar ospais. E por isso precisa ser calado o mais cedo e o mais rápido possível. Emnome desta lógica, esquece-se de que somos seres dotados de inteligência e sãopoucos os que se questionam: se nunca houve tantos diagnósticos psíquicos (e,portanto, tantas patologias), se nunca existiram tantos medicamentosdisponíveis para tratar essas doenças ou distúrbios, por que o número de casosnão para de crescer e estaríamos vivendo verdadeiras epidemias de doençasmentais, transtornos de comportamento ou como queiram chamar essas síndromesque têm se multiplicado como coelhos? Não seria legítimo questionar: então, osremédios não curam?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Se aceitarmos como verdade única que o problema se resume auma disfunção química no nosso cérebro, alheia ao viver, algo da ordem dosmecanismos fisiológicos, como o desarranjo de um sistema robótico, não bastaria“corrigir” com drogas para ser “curado”? Pelas estatísticas, tão valorizadas edifundidas pela própria indústria, sabemos que não é isso o que estáacontecendo. O número de “depressivos”, “bipolares” e doentes do “pânico”, nomundo dos adultos, assim como o número de crianças com “transtorno dehiperatividade e déficit de atenção” e até mesmo com “autismo” não para decrescer. Se os remédios são tão eficazes e os diagnósticos tão fáceis de fazercomo aqueles testes que a imprensa costuma publicar, do tipo “descubra se vocêé depressivo”, os doentes não deveriam diminuir em vez de aumentar? Afinal,sempre que a ciência descobriu a cura ou uma vacina para as doenças,iniciava-se um processo de redução no número de casos até a total erradicação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Sobre este aspecto, os organizadores levantam uma questãointeressante na apresentação da obra: “A ligeireza (e imprecisão) com que aspessoas são transformadas em anormais é diretamente proporcional à velocidadecom que a psicofarmacologia e a psiquiatria contemporânea expandiram seumercado. Não deixa de ser surpreendente que o que foi apresentado como avançona capacidade de curar tenha levado a ampliar em uma progressão geométrica aquantidade de ‘doentes mentais’”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Para complementar essa ideia, vale a pena ler a ótimaentrevista feita pela jornalista Cláudia Collucci na Folha de S. Paulo de 18 deoutubro. Sob o sugestivo título “Estamos dando veneno para as crianças”, MarciaAngell, professora titular do departamento de Medicina Social da Escola Médicade Harvard, critica a indústria farmacêutica por estimular o uso demedicamentos psiquiátricos em pacientes infantis. E também em adultos. Angelldiz: “As pessoas creem que as drogas sejam mágicas. Para todas as doenças, paratoda infelicidade, existe uma droga. A pessoa vai ao médico e o médico diz:‘Você precisa perder peso, fazer mais exercícios’. E a pessoa diz: ‘Eu prefiroo remédio’. E os médicos andam tão ocupados, as consultas são tão rápidas, queele faz a prescrição. Os pacientes acham o médico sério, confiável, quando elefaz isso. Pacientes têm de ser educados para o fato de que não existem soluçõesmágicas para os seus problemas. Drogas têm efeitos colaterais que, muitasvezes, são piores do que o problema de base”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O que vale a pena perceber é que ninguém é normal, mesmo.Basicamente porque não há como saber o que seja isso. O que não é razão parasermos todos tratados como portadores de algum transtorno mental desde bebê.Como afirmam Alfredo Jerusalinsky e Silvia Fendrik: “A generalização emultiplicação dos signos psicopatológicos preparam o território para a expansãoindustrial na fabricação de psicofármacos, que passam a ser consumidos emmassa. Nasce assim uma hipocondria dos estados de humor, dos afetos, dasdúvidas, dos desejos, das tristezas. As variações mentais e as singularidadespessoais são comparadas com uma média estatística que cria uma medida comuminexistente na realidade. Esse ‘boneco padrão’ subjacente descreve uma‘normalidade’ definida pela uniformidade. Comparados com ele, viramos todos‘doentes mentais’”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;A tentativa de classificar toda singularidade comoanormalidade pode se tornar uma grande comédia. Em 1992, o psicólogo clínicobritânico Richard Bentall propôs em um artigo para o “Journal of MedicalEthics” o seguinte: classificar a felicidade como distúrbio psiquiátrico eincluí-la no manual dos transtornos mentais (DSM-IV). Richard escreveu comgrande rigor acadêmico e citou 32 artigos de importantes revistas científicasbritânicas. Passo a passo, ele prova que a felicidade é um estadoestatisticamente anormal, acompanhado por sintomas como disfunção cognitiva emarcado por uma percepção distorcida da realidade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Os pacientes afetados por esse distúrbio apresentam umquadro de euforia, sem contrapartida real, podendo resultar em desvantagemadaptativa. Sem contar que há uma relação significativa da felicidade comobesidade e ingestão de álcool. Richard propõe que os psiquiatras busquemtratamento para a felicidade e sugere até um nome para classificá-la comodoença mental: “major affective, pleasant type”. A história é deliciosa porqueRichard percebeu que, para evidenciar o absurdo que estava – e continua – sendopraticado, só mesmo assumindo o discurso psiquiátrico, mas pelo avesso. Se atristeza é tratada como uma anomalia que pode e precisa ser curada, por que nãoa felicidade?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ao olhar hoje para nós, com seus olhos artificiais, com oque um robô se depararia? Acho que uma das respostas pode ser encontrada em“Wall-e”, a bela animação da Pixar. Aliás, fica uma dica das mais agradáveis:pegue na locadora estes dois filmes sobre robôs, mas de épocas diferentes, “OHomem Bicentenário”, inspirado no texto de Isaac Asimov publicado na década de70, e “Wall-e”, que recebeu o Oscar de melhor animação em 2009. “Wall-e” é umfilme brilhante, “O Homem Bicentenário” deixa a desejar, mas juntos podem serum ponto de partida interessante para pensar – sozinho, com os amigos ou com afamília – sobre as mudanças ocorridas nas últimas décadas na forma de enxergara nós mesmos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;“O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea” afirma que oideal pós-moderno é o pensamento simplificado: memória reduzida + seleção derespostas corretas. Dizem Alfredo e Silvia: “Enquanto a cibernética eletrônicaprocura engenhosamente capacitar seus robôs para responder a questões cada vezmais aleatórias, e até para formular perguntas, nós humanos somos levados a uma‘padronização’ do controle da ‘mente’. Amparados em padrões diagnósticos cadavez mais amplos – depressão, TOC, Asperger etc –, incluem-se os maisheterogêneos conjuntos de sintomas justificando deste modo a utilização dosmesmos psicofármacos. (...) Em um mundo em que o sujeito se desvanece ao redorda promessa de ter respostas para tudo, curiosamente surgem e proliferam as‘patologias’ (...). O modelo atualmente proposto substitui o saber pelainformação, a falta pela completude, a busca pela resposta ‘já’, asingularidade da diferença pela repetição do idêntico, o enigma do passado e dofuturo pela pretensa certeza garantida do presente. O ideal seria queadaptássemos nossa experiência àquilo que, com toda a propriedade, poderia sechamar: Homo Automaticus?”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Um dos traços marcantes da modernidade é a descoberta de quenossa consciência é apenas uma pequena parte do que somos. Há um vasto mundoinconsciente ou pré-consciente que nos constitui. Assim, não deixa de sercurioso, ainda que bastante lógico, que a partir da descoberta transformadorade que a consciência nem nos governa nem é nosso “eu” total, de repentedesejamos nos robotizar para escapar da aventura ao mesmo tempo extraordinária eassustadora que é criar uma vida. Será que o melhor acordo que podemos fazercom nós mesmos é engolir pilulinhas na tentativa de manter um ilusório controlesobre nossa mente e sobre o outro, quando se trata de nossos filhos? Pílulapara comer ou para não comer, pílula para dormir ou para ficar acordado, pílulapara ter desejo sexual ou para diminuir o desejo sexual, pílula para se acalmarou para estimular... Como se a condição humana, com todas as suas ambiguidades,pudesse ser reduzida ao mero ajuste de um corpo-máquina.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O crescimento dos distúrbios mentais na mesma proporção dassupostas pílulas da felicidade e de outros “ajustadores” da mente mostra que háalgo que não fecha nessa conta. Enquanto puder, a indústria farmacêutica vaicontinuar ganhando com a transformação de qualquer sofrimento em patologia ecom a consequente medicalização da vida. E, quando (e se) algo mudar, vãoganhar com outra coisa. Mas nós, nós e nossos filhos, só temos uma vida paraviver da forma mais ampla e rica possível. Convém não perdê-la na tentativa deanular a singularidade que nos pertence.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Como dizem Alfredo Jerusalinsky e Silvia Fendrik, osorganizadores de “O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea”: “Os robôs nãoprecisam se preocupar, já que hoje em dia parecem ser eles os que encarnam oideal: sem desejos, sem envelhecimento, sem falhas, com automatismos garantidospara cada situação específica, sem vacilação, tudo positivado em um pensamento‘positivo’. No entanto, devemos sublinhar que, enquanto aqueles robôs dos anos1930 representavam em sua rebelião os ideais de um modernismo romântico, osatuais ‘transtornos’, sob suas formas toxicomaníacas, bulímicas, anoréxicas, depadrões sociais de sucesso ou de quimiopsiquiatria, representam a obediênciarecoberta por um falso manto de liberdade”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Por mais que tudo nos empurre para a patologização e amedicalização da vida na busca de uma normalidade inexistente, acredito que háalgo do humano que resiste, que não é calado e que grita, ainda que dopado. Épor isso que a conta não fecha. Porque, por mais que se divulgue a crença – e éneste momento que a ciência se coloca no lugar da religião – de que é possívelcontrolar o sofrimento e garantir a felicidade, a humanidade que mora em nósdesmascara essa ilusão dia após dia. E por isso é preciso encontrar uma novapanaceia para dar conta de cada novo “transtorno”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Se a dor é inerente à vida, ela necessariamente não é algoruim, mas algo que nos impele a buscar um jeito de viver que faça mais sentidopara nós. Se a confusão pode ser infernal no cotidiano, com todas as dúvidasque ela traz, não há como achar algo ou a si mesmo sem ela, para em seguida nosperdermos de novo, porque é assim que alcançamos outros mundos também dentro denós. A angústia não deve ser silenciada, mas ouvida, porque está nos dizendoalgo que nos diz respeito. E, se você for pai ou mãe, é sua a responsabilidadede lidar com as questões trazidas por seus filhos, sejam em forma de palavras,de gestos ou de comportamento. É sua – e não dos médicos – desde que vocêescolheu ser pai ou mãe – e até que suas crianças progressivamente assumam aresponsabilidade pelos rumos da própria vida. E, acredite, a melhor forma delidar ainda começa por escutar. Escutar de verdade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;É na incompletude, que não se fecha com nenhuma pílula, quetalvez possamos, individual e coletivamente, empreender uma busca sem nenhumagarantia, como são todas as buscas, que nos leve a criar uma vida que aindapossa fazer um robô aspirar a uma existência humana.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-4601725797945741198?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/4601725797945741198/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/os-robos-nao-nos-invejam-mais.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/4601725797945741198'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/4601725797945741198'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/os-robos-nao-nos-invejam-mais.html' title='Os robôs não nos invejam mais'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-1883528004816681149</id><published>2012-01-09T08:48:00.000-08:00</published><updated>2012-01-09T10:54:18.371-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Eliane Brum'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Educacao'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cidadania'/><title type='text'>A língua que somos, a língua que podemos ser</title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: arial, helvetica, freesans, sans-serif; font-size: 12px; line-height: 12px;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;&lt;em style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; font-family: inherit; font-size: 14px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Eliane Brum, Revista Época, 09.01.2012&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; font-family: inherit; font-size: 14px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/01/lingua-que-somos-lingua-que-podemos-ser.html&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; font-family: inherit; font-size: 14px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A alemã Anja Saile é agente literária de autores de língua portuguesa há mais de uma década. Não é um trabalho muito fácil. Com vários brasileiros no catálogo, ela depara-se com frequência com a mesma resposta de editores europeus, variando apenas na forma. O discurso da negativa poderia ser resumido nesta frase: “O livro é bom, mas não é suficientemente brasileiro”. O que seria “suficientemente brasileiro”?&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;&amp;nbsp;Anja (pronuncia-se “Ânia”) aprendeu a falar a língua durante os anos em que viveu em Portugal (e é impressionante como fala bem e escreve com correção). Quando vem ao Brasil, acaba caminhando demais porque o tamanho de São Paulo sempre a surpreende e ela suspira de saudades da bicicleta que a espera em Berlim. Anja assim interpreta a demanda: “O Brasil é interessante quando corresponde aos clichês europeus. É a Europa que define como a cultura dos outros países deve ser para ser interessante para ela. É muito irritante. As editoras europeias nunca teriam essas exigências em relação aos autores americanos, nunca”.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Anja refere-se ao fato de que os escritores americanos conquistaram o direito de ser universais para a velha Europa e seu ranço colonizador – já dos brasileiros exige-se uma espécie de selo de autenticidade que seria dado pela “temática brasileira”. Como se sabe, não estamos sós nessa xaropada. O desabafo de Anja, que nos vê de fora e de dentro, ao mesmo tempo, me remeteu a uma intervenção sobre a língua feita pelo escritor moçambicano Mia Couto, na Conferência Internacional de Literatura, em Estocolmo, na Suécia. Ele disse:&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;- A África tem sido sujeita a sucessivos processos de essencialização e folclorização, e muito daquilo que se proclama como autenticamente africano resulta de invenções feitas fora do continente. Os escritores africanos sofreram durante décadas a chamada prova de autenticidade: pedia-se que seus textos traduzissem aquilo que se entendia como sua verdadeira etnicidade. Os jovens autores africanos estão se libertando da “africanidade”. Eles são o que são sem que se necessite de proclamação. Os escritores africanos desejam ser tão universais como qualquer outro escritor do mundo. (...) Há tantas Áfricas quanto escritores, e todos eles estão reinventando continentes dentro de si mesmos.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Esta conferência de Mia Couto faz parte de um livro de ensaios belíssimo chamado “E se Obama fosse africano?” (Companhia das Letras). Indico com vários pontos de exclamação. Os ensaios de Mia Couto são tão inspiradores quanto seus romances. E o que ele diz sobre a África talvez pudesse ser dito sobre o Brasil, este país que é também um continente. E sobre todo um pedaço do planeta do qual se espera que seja de uma determinada forma.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Se ler um livro é ousar se abrir para o outro, exigir que o outro seja como você o imagina é o avesso da experiência literária. Se os editores europeus esperam que sejamos os outros que querem que sejamos, já não somos os outros, mas o estrangeiro domesticado que mora dentro deles. E assim, com um estrangeiro de estimação habitando o seu imaginário, já não precisam nos estranhar. E com isso perdemos todos. Os leitores europeus – que como nós nada têm de homogêneo e contêm tantas diferenças quanto possível – porque abrem mão de estranhar. E nós porque perdemos a chance sempre rica de que nos estranhem.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Nos Estados Unidos, apenas 3% de todas as obras publicadas foram escritas em outras línguas que não o inglês. Esta ínfima parcela abarca todos os outros idiomas e todos os gêneros, de livros técnicos à ficção. Se formos pensar apenas em literatura e poesia, o porcentual baixa para 0,7%. Não sei se existem estatísticas sobre qual é a fatia da língua portuguesa neste quase nada, mas parece evidente que é insignificante. Na tentativa de reverter o que chama de “shame” (vergonha), a Universidade de Rochester criou, em 2007, um site chamado&amp;nbsp;&lt;a href="http://www.rochester.edu/College/translation/threepercent/index.php?s=about" style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #db2626; font-family: inherit; font-size: 14px; font-weight: bold; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px; text-decoration: none;" target="_blank"&gt;Three Percent&lt;/a&gt;&amp;nbsp;, para debater e divulgar todos esses universos literários que têm quase tanta dificuldade de ultrapassar as fronteiras dos Estados Unidos quanto os imigrantes ilegais. E, mesmo quando superam as barreiras, pouco ou nenhum espaço encontram na imprensa americana.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Uma língua não é apenas um amontoado de palavras que serve para se comunicar, mas um jeito de ser e de estar, de compreender o mundo e a si mesmo, o fora e o dentro. Em cada língua há um universo inteiro, e cada falante a recria a partir de sua experiência. É por isso que a língua é viva e mutante. Se o português falado no Brasil tivesse permanecido o mesmo de cem anos atrás é porque já estaríamos todos mortos. Como disse Fernando Pessoa, nós não habitamos um país, mas uma língua. E aqueles que são os últimos falantes de uma língua morta, porque para ser viva é preciso de um outro que também more nela, tem de renascer em outro idioma para que a vida seja possível. Ninguém vive para além das fronteiras da linguagem.&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #212121; font-family: arial, helvetica, freesans, sans-serif; font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;Saber que apenas 3% dos livros publicados nasceram em imaginários outros diz mais dos Estados Unidos do que de todos aqueles que não são vistos por eles. Na grande potência mundial – ainda que em crise – não se trata apenas de uma exigência de estereótipos, como na Europa, já que não há nem mesmo o interesse pelo clichê do outro. No caso dos Estados Unidos, não é necessário fingir estranhamento, já que parecem desconhecer que estranhar é preciso. A experiência de se abrir para a experiência do outro é ignorada. Ignorada como um não saber que há algo ali que vale a pena. Mesmo que faça todo o sentido por qualquer ângulo que se olhe, de Hollywood à política externa americana, ainda assim me parece espantoso que a língua que se impõe sobre o mundo seja também aquela que é fechada para o mundo de (quase) todos os outros. E isso, com certeza, explica muita coisa.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #212121; font-family: arial, helvetica, freesans, sans-serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: 14px; line-height: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: arial, helvetica, freesans, sans-serif; font-size: 12px; line-height: 12px;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Não saberia dizer o que é menos pior: se a exigência de um clichê de Brasil também na literatura – o “suficientemente brasileiro” com que Anja Saile se depara no contato com os editores europeus – ou a indiferença até mesmo pelo clichê. Acho que a segunda realidade é mais nefasta, porque ao buscar o outro, ainda que seja pelo lugar comum, existe ao menos o risco de encontrar algo que subverta as expectativas e vire os mundos de ponta-cabeça.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;E aqui, mais um pouco de Mia Couto:&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;- O mesmo processo que empobreceu o meu continente está, afinal, castrando a nossa condição comum e universal de contadores de histórias. (...) O que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência, mas a nossa capacidade de produzir diversidade. Essa diversidade está sendo negada nos dias de hoje por um sistema que escolhe apenas por razões de lucro e facilidade de sucesso. Os autores africanos que não escrevem em inglês – e em especial os que escrevem em língua portuguesa – moram na periferia da periferia, lá onde a palavra tem de lutar para não ser silêncio.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Quem já viajou à Europa e aos Estados Unidos sabe que é quase impossível encontrar um guia de cidade, museu ou local histórico em português. É preciso se virar com o espanhol, se não souber inglês. No final de 2011, a imprensa deu destaque ao fato de que os brasileiros gastam o dobro do que os outros turistas em Nova York, e muitas lojas já mantêm um vendedor que fala português para facilitar a venda a clientes tão promissores. A economia está colocando a nossa língua pelo menos na boca de garçons e balconistas pelos circuitos turísticos do mundo rico em tempos de crise.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Será que o lugar de potência emergente conquistado pelo Brasil vai aumentar o interesse pela nossa literatura ou pelo nosso modo de ser? A nova posição do país no cenário internacional já começa a produzir novos clichês não só do mundo sobre o Brasil – mas do Brasil sobre si mesmo. O marketing e a propaganda estão aí para provar como se transforma imagem em verdade. Acredito que o estudo dos novos clichês que estão sendo produzidos fora e dentro do Brasil, sobre o Brasil, seja um caminho bem fascinante para compreendermos o momento vivido.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Isso me faz virar o olhar pelo avesso para que possamos enxergar melhor. Como qualquer um sabe, não somos apenas um Brasil, mas muitos. Só de Amazônias temos dezenas, talvez centenas e até milhares. Não há um semiárido, mas uma profusão deles. Assim como são muitos e diversos os Rios de Janeiro e é necessário mais de uma vida para alcançar todas as São Paulo só para descobrir que elas mudaram. Me parece que o Brasil se mantém unido pela sua diversidade – e pela forma de olhar para a sua diversidade. Neste percurso, a música foi bem mais importante do que a literatura.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Me preocupa, porém, a forma com que temos olhado para os outros de nós em um momento com tantas decisões em curso. Em geral, a partir do próprio umbigo e com as fronteiras eletrificadas. Uma parte significativa do que chamamos de brasileiros parece misturar o olhar europeu e o olhar americano, aqui explicitados pela literatura, ao se relacionar com tudo o que compreendemos como o outro. Sejam os miseráveis do Bolsa Família, classificados por uma categoria de renda que anularia suas diferenças; sejam os índios, que são vistos como se fossem todos iguais e, em geral, como um “entrave ao progresso”.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Talvez os indígenas sejam a melhor forma de ilustrar essa miopia, forjada às vezes por ignorância, em outras por interesses econômicos localizados em suas terras. Parte da população e, o que é mais chocante, dos governantes, espera que os indígenas – todos eles – se comportem como aquilo que acredita ser um índio. Portanto, com todos os clichês do gênero. Neste caso, para muitos os índios não seriam “suficientemente índios” para merecer um lugar e para serem escutados como alguém que tem algo a dizer.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Outra parte, que também inclui gente que está no poder em todas as instâncias, do executivo ao judiciário, finge que os indígenas não existem. Finge tanto que quase acredita. Como não conhecem e, pior que isso, nem mesmo percebem que é preciso conhecer, porque para isso seria necessário não só honestidade como inteligência, a extinção progressiva só confirmaria uma ausência que já construíram dentro de si.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;O modelo de desenvolvimento com que vamos alcançar o futuro depende de como olhamos para os outros de nós e de que lugar ocuparão os outros de nós. Se não acolhermos a diversidade e a usarmos para sermos um Brasil mais igualitário – onde todos sejam igualmente diferentes – não acredito que exista muito futuro para nós, mesmo que o presente pareça promissor. O “Milagre Econômico” da ditadura militar também parecia muito promissor à parcela da sociedade brasileira que dele se beneficiou – e sabemos muito bem como isso terminou.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Para sermos grandes – com um conceito de grandeza que não se mede apenas em cifras – será vital inaugurarmos um jeito de olhar diferente tanto para o nosso próprio continente – onde começamos a nos impor como uma espécie de “Estados Unidos da América do Sul”, como ouço com tristeza cada vez que coloco os pés nos países vizinhos – como na forma como olhamos para dentro de nossas fronteiras. Inaugurar não um olhar condescendente – mas um olhar de quem sabe que tem algo a aprender com o outro.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;O que seremos, me parece, será definido pela resposta que daremos a três impasses:&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;1) Se vamos conseguir construir um modelo de desenvolvimento baseado no século XXI – e não no século XX, como me parece que é o atual;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;2) Se vamos acolher os conflitos e dialogar com as culturas dos vários Brasis que nos compõem ou vamos exterminá-los à força, ainda que seja pela força da manipulação da lei;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;3) Se vamos conseguir vencer o desafio da educação, mas não só isso: se a inclusão pela escrita será capaz de abarcar a riqueza da nossa oralidade em lugar de silenciá-la.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;O que o Brasil será vai depender da sua capacidade – ou não – de incluir todos os outros de si.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;No desafio que nos espera, é preciso lembrar que nós não temos língua – somos língua.&lt;br /&gt;Como disse Mia Couto, de forma magistral, na conferência já citada:&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;- O que advogo é um homem plural, munido de um idioma plural. Ao lado de uma língua que nos faça ser mundo, deve coexistir uma outra que nos faça sair do mundo. De um lado, um idioma que nos crie raiz e lugar. De outro, um idioma que nos faça ser asa e viagem.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Para “ser asa e viagem” é preciso acolher todos os outros de si. Não tolerar o outro, mas ser o outro.&lt;/div&gt;&lt;div style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: transparent; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; color: #212121; font-family: inherit; font-size: 14px; letter-spacing: 0px; line-height: 18px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; padding-bottom: 18px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px;"&gt;Veremos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-1883528004816681149?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/1883528004816681149/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/lingua-que-somos-lingua-que-podemos-ser.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1883528004816681149'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1883528004816681149'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/lingua-que-somos-lingua-que-podemos-ser.html' title='A língua que somos, a língua que podemos ser'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-8338641397339080006</id><published>2012-01-07T06:04:00.000-08:00</published><updated>2012-01-09T11:11:33.508-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Joao Pereira Coutinho'/><title type='text'>Joao Pereira Coutinho (extracts)</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;Nós, humanos, seres temporais por excelência, vivemos aprisionados à ideia do nosso próprio fim. E, como se não bastasse essa terrível condenação, somos também incapazes de habitar cada momento inteiramente. O presente, em nós, está sempre carregado de passado e de futuro: do que fomos, das memórias que temos, do caminho e das escolhas que fizemos; e daquilo que gostaríamos de ser, ou ter, ou fazer. O presente, para nós, não é um lugar para estar. É uma breve passagem a caminho de outra breve passagem. Sempre e sempre e sempre até a despedida final.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;Impossibilidade? Precisamente. A modernidade ofereceu-se aos Homens como projeto de construção secular. Por meio da Razão, seria possível conquistar a "sorte" que tanto afligia os gregos e realizar na Terra o que a cristandade medieval apenas prometia para o Reino dos Céus. A felicidade seria uma construção individual e progressiva rumo a um fim determinado. Paradoxalmente, essa ideia libertadora apenas trouxe o seu reverso: se a felicidade era responsabilidade nossa, a infelicidade também. E, adicionalmente, se a felicidade era convertida em projeto, ela seria igualmente convertida em insatisfação interminável: jamais estaremos onde queremos estar; jamais seremos o que queremos ser; jamais teremos o que queremos ter. A felicidade moderna converteu-se numa vigília permanente: a vigília de Homens insatisfeitos; de Homens esmagados pelos seus próprios ideais de felicidade e perfeição. (...) Nós vivemos mergulhados no tempo e nas nossas próprias teleologias pessoais. E a forma como desejamos sempre momentos que são posteriores ao momento presente impede-nos de viver qualquer momento de forma real e total. A infelicidade humana não nasce da nossa ignorância ou da nossa imperfeição. Muito menos da ignorância ou da imperfeição das nossas sociedades. A infelicidade humana é um produto da nossa específica temporalidade. Resta uma questão final: serão os Homens superiores aos animais? A resposta de Rowlands talvez seja a mais honesta: depende do que entendemos por "superioridade". Sim, um lobo jamais pintaria o teto da Capela Sistina. Mas será a Capela Sistina uma necessidade para um lobo? Ou, pelo contrário, será antes uma necessidade para nós? Uma forma de completarmos a parte que nos falta das várias partes que nos faltam?&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;(&lt;i&gt;João Pereira Coutinho – Folha de São Paulo, 31.03.2009&lt;/i&gt;)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-8338641397339080006?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/8338641397339080006/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/joao-pereira-coutinho-extracts.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/8338641397339080006'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/8338641397339080006'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/joao-pereira-coutinho-extracts.html' title='Joao Pereira Coutinho (extracts)'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-6347579286703897080</id><published>2012-01-07T05:21:00.000-08:00</published><updated>2012-01-09T11:12:05.319-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ateismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cidadania'/><title type='text'>O que significa o crescimento evangélico no Brasil?</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;table border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" id="content" style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-color: white; background-image: initial; background-origin: initial; border-collapse: collapse; color: #4c4e4c; font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: 1em; margin-bottom: 0px; margin-left: auto; margin-right: auto; margin-top: 0px; padding-bottom: 30px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; width: 990px;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td valign="top"&gt;&lt;div id="main" style="display: block; margin-right: 10px; padding-left: 10px; width: 740px;"&gt;&lt;div class="content_top"&gt;&lt;div class="sep-block"&gt;&lt;div class="sep-block"&gt;&lt;div class="main-content" style="padding-left: 15px; padding-right: 30px;"&gt;&lt;div id="blog-luisnassif" style="margin-top: 50px;"&gt;&lt;div class="node" style="border-bottom-color: rgb(225, 225, 225); border-bottom-style: dotted; border-bottom-width: 1px; margin-bottom: 3em; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0.5em; padding-right: 10px;"&gt;&lt;div class="content" style="color: #222222; font-size: 12px; line-height: 1.6em; margin-bottom: 0.5em; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0.5em; padding-left: 5px; text-align: justify;"&gt;Ronaldo de Almeida&lt;/div&gt;&lt;div class="content" style="color: #222222; font-size: 12px; line-height: 1.6em; margin-bottom: 0.5em; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0.5em; padding-left: 5px; text-align: justify;"&gt;http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-ai-jesus-do-movimento-evangelico-brasileiro&lt;/div&gt;&lt;div class="content" style="color: #222222; font-size: 12px; line-height: 1.6em; margin-bottom: 0.5em; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0.5em; padding-left: 5px; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="content" style="color: #222222; font-size: 12px; line-height: 1.6em; margin-bottom: 0.5em; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0.5em; padding-left: 5px; text-align: justify;"&gt;Cerca de três décadas essa pergunta domina o debate público sobre as mudanças religiosas recentes no país, e se desdobra em outras. Quais são as causas da expansão evangélica e suas implicações? Trata-se de um segmento conservador de matriz fundamentalista? Como lidar com a presença crescente desses religiosos na mídia, ora sendo notícia, ora na posição de proprietários do veículo de comunicação, ou ambos ao mesmo tempo? Como conviver com a moralidade pessoal e os valores públicos dos evangélicos? E a lista de questões não termina...&lt;br /&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Não é simples definir a partir de quando os evangélicos começaram a ocupar o debate público, mas a eleição de 1986, que elegeu o Congresso Nacional Constituinte, pode ser considerada um marco. Nela, os pentecostais saltaram de dois deputados federais para dezoito, enquanto os protestantes históricos elegeram dezesseis, dando origem ao termo Bancada Evangélica, embora nem todos participassem dela, como atualmente nem todos participam. Já em 2010, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), foram eleitos 63 deputados federais e três senadores que se declararam evangélicos.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;A compra da decadente Rede Record pela Igreja Universal, em 1989, também foi outro acontecimento que coroou décadas de investimento dos evangélicos nos meios de comunicação. Atualmente, ela é a segunda maior rede de televisão do país, rivalizando por vezes com a Rede Globo. Em resumo, os evangélicos não só crescem numericamente como também ampliam seu alcance para o mercado, a política e a mídia, que se retroalimentam.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Como consequência dessas investidas, existe uma preocupação disseminada na opinião pública, que se expressa na desconfiança sobre os interesses e o sentido dessa expansão religiosa. Seriam esses interesses comerciais? Ao que parece, essa é a crítica mais frequente.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;A imagem dos evangélicos, sobretudo a dos pentecostais, bastante difundida na sociedade brasileira, é a de um segmento formado por pessoas na maioria das vezes honestas e confiáveis nas relações pessoais, mas pouco tolerantes com religiões e morais alheias. Suas lideranças costumam ser percebidas com desconfiança, sendo algumas consideradas ambiciosas e arrivistas. Em que medida tal avaliação procede?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;&lt;strong&gt;Diversidade e flexibilidade&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Os dados do Censo 2010 sobre filiação religiosa, assim como outros, ainda não foram divulgados. Entretanto, pelo que vêm demonstrando várias pesquisas de menor alcance demográfico, algumas tendências apontadas nos dois últimos Censos (1991 e 2000) devem permanecer: o declínio de pessoas que se identificam como católicas e o aumento daquelas que se declaram evangélicas ou sem religião. A dúvida é quais foram as taxas dessas tendências na última década.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;A primeira consideração a ser feita é sobre a diversidade daquilo que genericamente se chama protestante histórico, pentecostal tradicional e neo-pentecostal. Mesmo ciente de que alguns desses religiosos não aceitariam ser classificados como evangélicos, adoto esse termo por ser de uso mais corrente e abranger todos os outros, que, por vezes, podem ser nomeados também como “crentes”. Entretanto, é prudente precaver que boa parte das minhas considerações refere-se mais propriamente ao pentecostalismo (o tradicional e o neo).&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;O campo evangélico é variado, e a onda do crescimento tem quebrado em várias direções e com intensidades diferentes. A diversidade engloba da posição moral mais conservadora à crescente flexibilização dos costumes e comportamentos. Em relação a esse segundo caso, cada vez menos “virar crente” significa ruptura ampla e profunda com seu modo de vida. Cada vez mais a diversidade aumenta a oferta de estilos de vida evangélicos. A onda gospel, não só como gênero musical, mas também como estética, prática cultural e comportamento juvenil, é um bom exemplo de uma vida menos “careta” e em sintonia com os tempos atuais.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Em boa medida, essa flexibilização decorre da circulação de uma parcela dos evangélicos entre as diversas igrejas. Assim, o crescimento evangélico, sobretudo da vertente pentecostal, é bem peculiar: multiplicam-se os nomes das igrejas, mas as pessoas são menos fiéis a uma delas especificamente. Uma parte significativa dos fiéis circula entre as igrejas “calibrando” sua religiosidade: com mais ou menos reflexão teológica, mais ou menos exigências comportamentais, mais ou menos emocionalismo, mais ou menos milagres, e por aí vai. Esse trânsito religioso proporcionou aos indivíduos maior autonomia, que se reflete na desinstitucionalização da prática religiosa. A vida religiosa parece cada vez mais privatizada ao mesmo tempo que de massa, logo, menos sujeita aos ditames morais de uma comunidade de “irmãos de fé”.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Isso é visível na paisagem urbana brasileira, na qual vemos igrejas neopentecostais com as portas abertas permanentemente e com cultos em vários horários do dia, os quais se frequenta sem estabelecer vínculos comunitários e pessoais densos. Vários desses templos estão próximos aos principais terminais de transporte público das grandes cidades brasileiras, configurando uma religiosidade de passagem, bem adequada à lógica e aos fluxos urbanos. Trata-se de uma religiosidade muito mais centrada na pregação do pastor (também vista individualmente em casa, pela televisão) do que no fortalecimento das relações horizontais entre os frequentadores dos cultos.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Muitos evangélicos falam da experiência religiosa como uma espécie de autoconhecimento, um voltar-se para si. Não por acaso, a pregação aproxima-se dos discursos de autoajuda e de empreendedorismo, tão recorrentes no mundo atual. Em suma, uma religiosidade muito direcionada para as demandas cotidianas materiais, afetivas e subjetivas, e menos voltada para a vida eterna, o pós-morte ou a especulação teológica, por exemplo.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;&lt;strong&gt;Para não dizer que não falei dos católicos&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Até onde vai esse crescimento evangélico, sobretudo dos pentecostais? Estes serão maioria no Brasil? Permitindo-me um exercício de futurologia, minha resposta é não, pelo menos não na velocidade que parece preocupar boa parte da opinião pública atual. Especulo que a tendência de crescimento das pessoas declaradas pentecostais, em particular, “baterá no teto”; não sei qual, mas o suficiente para não se constituírem como maioria demográfica no país.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Em boa medida, embaso meu argumento citando a expansão-reação do catolicismo carismático. Padre Marcelo, Renovação Carismática, Canção Nova são alguns dos polos da revitalização católica, principalmente entre jovens e nas áreas urbanas. Assim, se uma das tendências demográficas no país é a do declínio das pessoas que se declaram católicas, é fato também que a expansão do carismatismo entre os católicos os tem tornado mais convictos de sua identidade religiosa, à semelhança dos evangélicos.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Como consequência, a autodeclaração “católico não praticante”, tão popular no Brasil, tem cedido espaço à declaração “sem religião”. Isso pode ser considerado um feito do pluralismo religioso no Brasil: com a disputa por adeptos, a religião hegemônica (no caso, o catolicismo) é forçada à competição, colocando-se como uma alternativa, e não como a religião dos brasileiros. Resultado: se o número de católicos declina, ao mesmo tempo o catolicismo se robustece.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Entretanto, parte desse sucesso católico deve-se exatamente à semelhança dos carismáticos com os evangélicos na doutrina da conversão, na dinâmica dos ritos, na experiência emocional, nos valores morais, nas práticas sociais, nas relações comunitárias e nas estratégias de crescimento. Assim, a expansão da religiosidade evangélica não se dá somente na atração de católicos, mas também por dentro do catolicismo. A religiosidade de muitos brasileiros tem adquirido cada vez mais tonalidades evangélicas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;&lt;strong&gt;Política, moral e interesses&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Se o crescimento dos evangélicos dá-se em várias direções, o mesmo pode ser dito da participação na política institucional. Ela varia de práticas orientadas por interesses de grupos específicos a ações pautadas por temas mais estruturais da sociedade brasileira. Ressalta-se, contudo, que as primeiras são em maior número, espelhando a própria representação política do país.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Entre as várias Comissões Permanentes do Congresso Nacional, é comum encontrarmos evangélicos naquelas que tratam dos meios de comunicação, dos programas sociais, da formação de Conselhos Públicos. Por um lado, visam à propaganda religiosa, por outro, atuam como mediadores dos serviços oferecidos pelo Estado.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Além desses interesses, os temas de ordem moral e de fé religiosa são mobilizados com a finalidade de gerar identidade política entre os fiéis. A recente eleição para a Presidência da República, em 2010, forneceu um bom cenário para pensarmos a movimentação política dos evangélicos.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;De forma geral, a então candidata Marina Silva, do Partido Verde (PV), atraiu parte do eleitorado evangélico sem se valer excessivamente dessa identidade, pois já fazia parte de sua imagem pública. Seu problema foi o mesmo de Anthony Garotinho na campanha presidencial de 2002: não deixar a imagem evangélica provocar resistências no restante do eleitorado. No caso de Marina, uma declaração de que acreditava que o deus judaico-cristão havia criado o mundo lhe rendeu inúmeros questionamentos, sendo classificada por muitos como criacionista. Marina respondeu que a grande maioria da população brasileira acredita em Deus e que ele havia criado o mundo; além disso, ela não defendeu, pelo menos não publicamente, que o criacionismo fizesse parte do currículo escolar público.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Em relação à sempre polêmica questão do aborto, a candidata Dilma Rousseff (PT) foi a que mais perdeu pontos com esse debate. Graças ao marketing político de seu principal adversário, José Serra (PSDB), a posição pró-aborto foi mais associada a Dilma, o que gerou resistência de muitos religiosos, principalmente dos evangélicos. Marina respondia a essa questão propondo um plebiscito, pois estava ciente de que as sondagens estatísticas indicavam que a maior parte da população votaria contra a legalização do aborto.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Por fim, Serra assumiu a bandeira contra o aborto, assustando, e mesmo constrangendo, setores mais escolarizados e moralmente liberais nos quais tem forte base eleitoral. Mas Serra não é visto como alguém com perfil religioso, no sentido de reivindicar uma identidade, fosse ela católica, evangélica, espírita, entre outras possíveis. Seu programa eleitoral deixou o discurso contra-aborto para o pastor da Assembleia de Deus, Silas Malafaia, que tem se configurado como contraponto ao bispo Macedo e à Igreja Universal do Reino de Deus, apoiadores dos governos Lula e Dilma.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;O início desse apoio aos candidatos do PT deu-se somente na campanha presidencial de 2002, graças à aliança com o então nanico Partido Republicano (PR), que além de fornecer o vice de Lula, José Alencar, tinha metade de seus deputados federais pertencentes à Igreja Universal. Cabe relembrar, contudo, que durante as eleições presidenciais de 1989 as pregações e os jornais da Igreja Universal declaravam que Lula era o candidato do diabo.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;&lt;strong&gt;Plasticidade e enraizamento&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;A Igreja Universal não apenas refez seu discurso anti-Lula e anti-PT, em 2002, como assumiu uma posição pouco fundamentalista em relação à reprodução humana, em 2009. Quando se intensificou no país o debate público (na verdade, mais restrito às camadas escolarizadas) em torno das pesquisas com células-tronco embrionárias e, a reboque naquele momento, a legalização do aborto em casos específicos, a Igreja Universal declarou-se a favor dos dois pleitos. Além dela, manifestaram-se a favor setores mais liberais do protestantismo histórico, como a Igreja Metodista e a Igreja Presbiteriana do Brasil.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Como bem sabemos, a posição religiosa mais contundente e eficaz em termos políticos contra os dois temas é a da Igreja Católica, mas – convém sempre dizer – bem menos dos fiéis católicos. Ser a favor dos dois pleitos foi uma forma de a Igreja Universal se colocar na discussão em contraposição à Igreja Católica, com quem costuma rivalizar e de quem deseja o lugar na sociedade brasileira. Porém, tais posicionamentos permitiram a repercussão da pregação de Silas Malafaia como portador do discurso evangélico conservador, logo, contrário ao aborto.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;O mesmo conservadorismo tem sido direcionado contra a criminalização da homofobia. Por considerarem a homossexualidade curável moral e espiritualmente, os evangélicos veem a criminalização como limitadora de sua pregação religiosa. Nesse assunto, bispo Macedo e Silas Malafaia estão do mesmo lado.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Por outro lado, em decorrência da crescente flexibilização dos costumes e comportamentos, foram criadas recentemente as “igrejas inclusivas” de perfil evangélico, que não condenam a homossexualidade. O número das igrejas inclusivas é insignificante perante a posição conservadora, mas o importante é perceber como a onda evangélica tem quebrado para vários lados, diferenciando-se conforme outras mudanças sociais no país.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Em que medida, então, procedem a preocupação e a desconfiança da opinião pública em relação ao crescimento evangélico, como indagado inicialmente? A avaliação continua cabendo ao leitor. Os argumentos aqui apresentados, contudo, visaram demonstrar como as questões de fé imbricam-se em outras dinâmicas e mudanças políticas e sociais mais amplas do contexto brasileiro, que podem ser resumidas em uma tautologia sociológica: quanto mais o Brasil se torna evangélico, mais os evangélicos, principalmente os pentecostais, tornam-se como o Brasil.&lt;/div&gt;&lt;div class="textoTimes12Autor" style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Ronaldo de Almeida&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0.9em; margin-top: 0.5em;"&gt;Professor de Antropologia da Unicamp, pesquisador do Cebrap e autor de A igreja Universal e seus demônios, Terceiro Nome, 2009.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-6347579286703897080?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/6347579286703897080/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/o-que-significa-o-crescimento.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6347579286703897080'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6347579286703897080'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/o-que-significa-o-crescimento.html' title='O que significa o crescimento evangélico no Brasil?'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-3551598082251585678</id><published>2012-01-06T07:39:00.000-08:00</published><updated>2012-01-06T07:39:25.946-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sexualidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contardo Calligaris'/><title type='text'>Sentidos do fundamentalismo</title><content type='html'>CONTARDO CALLIGARIS - FSP&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fundamentalista não consegue praticar normas que ele prega e sente inveja de quem não as respeita&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis uma (pequena) contribuição ao debate sobre fundamentalismo que se deu, recentemente, na Folha (artigos de Ives Gandra da Silva Martins, 24/11, e Daniel Sottomaior, 8/12; cartas dos leitores Antônio Ilário Felici e Francisco Guimarães, 9/12; coluna de Hélio Schwartsman, 10/12).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fundamentalista é, antes de mais nada, quem leva a sério sua convicção e segue à risca os preceitos que derivam dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se você for católico, não se divorciará nem comerá carne na Sexta da Paixão; se for judeu, no sábado, evitará ligar a luz elétrica; se for muçulmano, não tomará álcool e, caso seja mulher, circulará de véu fora de casa; se for ateu, não invocará a misericórdia divina, nem mesmo em momentos de extremo perigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai era convencido de que existem mistérios para os quais qualquer resposta seria desonesta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse seu agnosticismo, ele era fundamentalista no sentido que acabo de definir. Um dia, quando meu irmão e eu éramos já adultos, ele quis que prometêssemos que, se ele, na agonia, pedisse a assistência de um padre, nós lhe negaríamos esse recurso, considerando que sua sanidade mental teria se perdido no aperto acovardado da última hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prometemos. Por sorte, ele morreu sem pedir conforto religioso algum. Se ele tivesse pedido, não sei se eu teria mantido minha promessa; à diferença dele, eu não sou fundamentalista: decido e escolho segundo as circunstâncias e não por princípio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim, tenho respeito, se não simpatia, por esse tipo de fundamentalismo. E acho que todos deveriam poder levar (e viver) suas convicções a sério, se assim quiserem -claro, nos limites básicos impostos pelos códigos Penal e Civil, que regem a convivência social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tenho pressa de chegar ao outro sentido, pelo qual fundamentalista é quem exige que os preceitos que derivam de suas convicções ou de sua fé sejam observados por todos -ou mesmo que eles se transformem em lei da sociedade inteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse tipo de fundamentalista, seja qual for sua convicção, religiosa ou ateia, é animado pela necessidade de converter os outros, a qualquer custo. Em geral, ele acha que a violência de seu espírito "missionário" é um corolário de sua fé e uma prova de sua generosidade: "Forçando o outro a se converter, eu só quero seu bem, mesmo que seja contra a vontade dele".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com esse tipo de fundamentalista, eu implico, por duas razões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro, detesto que alguém esconda sua violência atrás de pretensas boas intenções e não gosto da ideia de que um outro imagine saber o que é "bom" para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo, não acredito que alguém possa querer converter os outros à força por generosidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há duas razões pelas quais, em regra, alguém quer impor as normas de suas convicções aos outros, e ambas são péssimas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1) Ele precisa que ao menos os outros respeitem essas normas, que ele preza, mas não consegue impor a si mesmo -ou seja, incapaz de obedecer a seus próprios princípios, ele quer validá-los pela obediência forçada dos outros;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2) Ele quer se livrar da inveja que ele sente da vida dos que não respeitam essas mesmas normas (para assinalar a componente de inveja, presente nos moralistas, Alfred Kinsey, o grande sociólogo e sexólogo, dizia que "ninfômana" e "tarado" são os que conseguem ter uma vida sexual mais intensa do que a da gente).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em suma, os motores de muitos fundamentalismos missionários são a incapacidade de viver à altura dos preceitos pregados e a inveja de quem não respeita esses preceitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, no debate (ou na gritaria) entre homossexuais e evangélicos, por exemplo, nem preciso decidir se gosto mais de Oscar Wilde ou do apóstolo Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, bem antes e independentemente disso, a oposição relevante é a seguinte: os homossexuais não pretendem que os evangélicos passem todos a transar com parceiros do mesmo sexo ou a frequentar baladas gays, enquanto os evangélicos pretendem que os homossexuais se convertam e renunciem a seu desejo (transformado em "pecado") -ou, no mínimo, que eles sejam impedidos de viver segundo suas próprias disposições e convicções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seja, para se situar nessa oposição, não é preciso escolher entre as ideias e as práticas das partes, mas entre os que querem regrar a vida de todos segundo seus preceitos e os que preferem que, nos limites da lei, todos possam pensar e agir como quiserem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim sendo, como se diz na roleta, "façam suas apostas".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-3551598082251585678?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/3551598082251585678/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/sentidos-do-fundamentalismo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3551598082251585678'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3551598082251585678'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/sentidos-do-fundamentalismo.html' title='Sentidos do fundamentalismo'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-8401250197141768420</id><published>2012-01-03T11:27:00.000-08:00</published><updated>2012-01-03T11:27:02.570-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ateismo'/><title type='text'>Entrevista: Christopher Hitchens (1949-2011), Jornalista</title><content type='html'>Em sua última entrevista, Hitchens debate com Richard Dawkins temas que ocuparam sua trajetória, como a relação entre igreja e estado, o ensino da religião e os riscos do totalitarismo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da “New statesman”: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu inimigo é o absoluto, aquele que quer o controle da sua mente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como estudioso de George Orwell, você deve ter uma visão particular da Coreia do Norte, de Josef Stálin e da União Soviética e se irritar com o refrão constante: "Stálin foi um ateu".&lt;br /&gt;Não sabemos se foi. Hitler, com certeza, não foi. De qualquer modo, o ateísmo não supõe nenhuma espécie particular de posição política.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas que fizeram o trabalho sujo de Hitler foram quase todas religiosas.&lt;br /&gt;Lamento dizer que a relação da SS com a Igreja Católica é algo que a igreja ainda precisa enfrentar.&lt;br /&gt;Se você está escrevendo sobre a história dos anos 1930 e a ascensão do totalitarismo, pode, se quiser, tirar a palavra "fascista" em relação à Itália, Portugal, Espanha, Tchecoslováquia e Áustria e substituí-la por "partido católico de extrema direita".&lt;br /&gt;Quase todos os regimes foram instalados com a ajuda do Vaticano. Isso não é negado. Em muitos casos os entendimentos com a Santa Sé persistiram após o fim da Segunda Guerra e se estenderam a regimes comparáveis na Argentina e outros países.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas houve sacerdotes que fizeram coisas boas.&lt;br /&gt;Não muitos, ou saberíamos seus nomes. Do mesmo modo como os nazistas pensavam ser uma raça separada, queriam sua religião própria.&lt;br /&gt;Eles desencavaram os deuses nórdicos, mitos e lendas extraordinários de todo tipo saídos das sagas antigas. Queriam controlar as igrejas. Estavam dispostos a fechar um acordo com elas.&lt;br /&gt;A Igreja concordou em dissolver seu partido político, e Hitler ganhou o controle da educação alemã; foi um ótimo acordo. As comemorações do aniversário dele eram ordenadas desde o púlpito.&lt;br /&gt;Não há dúvida, os nazistas queriam o controle -e estavam dispostos a entrar em choque com as igrejas para conseguir isso.&lt;br /&gt;As pessoas juravam por Deus que jamais desrespeitariam o juramento feito ao Führer. Isso não é nem secular, o que dirá ateu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agradecia-se a Hitler nas orações antes das refeições.&lt;br /&gt;Creio que sim.&lt;br /&gt;Você mencionou a Coreia do Norte. Ela é um Estado teocrático, em todos os sentidos. É quase sobrenatural, na medida em que os nascimentos na família (governista) Kim são vistos como sendo misteriosos e acompanhados por acontecimentos fora do comum. É uma "necrocracia" ou uma "mausoleucracia", mas não seria possível dizer que seja um Estado secular, o que dirá um Estado ateu.&lt;br /&gt;As tentativas de fundar religiões novas deveriam atrair nosso desdém, tanto quanto o atraem as alianças com as religiões velhas.&lt;br /&gt;Tudo o que se afirma é que não é possível dizer Hitler tenha sido nitidamente cristão: "Talvez, se ele tivesse continuado, teria se descristianizado um pouco mais". Isso é tudo baboseira absoluta. É falho como história e é falho como propaganda política.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é falho como lógica, porque não existe conexão entre ateísmo e atos hediondos; por outro lado, essa ligação pode facilmente ser traçada no caso da religião, como vemos com o islã moderno.&lt;br /&gt;Na medida em que a adoração a Stálin e o "Kim Il-sungismo" são novas religiões, nós, como todos os ateus, as repudiamos absolutamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acusam você de ser do contra, que é uma descrição que vocês mesmo já fez de si.&lt;br /&gt;Na realidade, não fiz. Eu a rejeitei. Mas a penduraram em meu pescoço e não tenho como me livrar dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre desconfiei da dimensão política esquerda-direita.&lt;br /&gt;Para mim ela já se rompeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas é espantoso como o contínuo esquerda-direita ainda exerce influência. Se você sabe o que alguém pensa sobre a pena de morte ou o aborto, sabe o que ela pensa sobre tudo. Você é uma exceção à regra.&lt;br /&gt;Tenho uma coerência, que é ser contra o totalitário -o de esquerda e o de direita. O totalitário é o inimigo: aquele que é absoluto, que quer o controle do que acontece na sua cabeça, não apenas sobre suas ações e os impostos que você paga. E as origens disso são teocráticas, obviamente.&lt;br /&gt;O começo disso é a ideia de que existe um líder supremo, ou papa infalível, ou rabino-chefe capaz de receber e expressar o pensamento divino e então nos dizer o que fazer.&lt;br /&gt;Há formas seculares disso, com gurus e ditadores; essencialmente, é a mesma coisa.&lt;br /&gt;Alguns pensadores -acima de todos, Orwell - compreenderam que, infelizmente, os humanos possuem uma forte tendência inata a adorarem, a se tornarem abjetos.&lt;br /&gt;Portanto não estamos apenas combatendo ditadores. Estamos criticando os outros humanos por tentarem usar atalhos, simplificar suas vidas, rendendo-se e dizendo: "Se você me oferecer a felicidade suprema, é claro que abrirei mão de parte de minha liberdade mental em troca disso". Afirmamos que essa é uma barganha falsa: você não receberá nada, tolo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Madre Teresa acreditava que não&lt;br /&gt;se devia dar às mulheres o controle&lt;br /&gt;sobre o ciclo reprodutivo. Ela passou a vida militando&lt;br /&gt; para que a única cura da pobreza&lt;br /&gt;que sabemos confiável não fosse implementada"&lt;br /&gt;A parte de você que foi, ou é, da esquerda radical sempre é contra ditadores totalitários.&lt;br /&gt;Sim. Fui trotskista; para nós, o movimento socialista só poderia ser reavivado se fosse purgado do stalinismo. Considerávamos o stalinismo uma teocracia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das minhas principais queixas quanto à religião é o modo como rotulam uma criança como "católica" ou "muçulmana". De tanto reclamar disso, estou até chato.&lt;br /&gt;Nunca tenha medo de ser acusado de chato, ou de excessivamente rigoroso. Não há mal no excesso de rigor. O rigor é o mínimo que você deve em pregar como arma. Se você continuar a insistir em algo, o pior que podem dizer é que você é tedioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje mesmo recebi um texto de conselhos, de um site do governo britânico, intitulado "As Responsabilidades dos Pais" ou algo assim. Uma das responsabilidades era "determinar a religião do filho". Literalmente, determinar. Mas quando me queixo a esse respeito me dizem que ninguém rotula as crianças.&lt;br /&gt;O governo, sim. A meu ver, isso vem de uma política imperial britânica, que, por sua vez, veio de impérios otomanos e anteriores: você classifica seus novos súditos segundo a fé deles.&lt;br /&gt;Você pode ser um cidadão otomano, mas é um cidadão otomano judeu ou cristão armênio. E algumas dessas religiões dizem às crianças que as crianças de outras religiões vão para o inferno. Acho que não podemos proibir isso, nem podemos descrevê-lo como "discurso de ódio" -embora eu tenha minhas dúvidas-mas deveria causar alguma desaprovação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu chamaria isso é abuso infantil mental.&lt;br /&gt;Como libertário, não tenho como dizer que as pessoas não deveriam educar seus filhos segundo seus direitos, por exemplo. Mas a criança possui direitos, e a sociedade, também. Não permitimos a mutilação genital feminina, e acho que não deveríamos tolerar a masculina.&lt;br /&gt;Mas seria muito difícil afirmar que você não tem o direito de dizer a seu filho que ele tem sorte e que ingressou para a única fé verdadeira. Não vejo como deter isso. Acho apenas que o resto da sociedade deveria olhar para isso com um pouco de desaprovação, coisa que não acontece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma tendência entre liberais de achar que a religião deveria estar fora de discussão.&lt;br /&gt;Ou até mesmo de achar que existe um racismo antirreligioso, algo que, a meu ver, é uma limitação terrível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você acha que os EUA correm o risco de virar uma teocracia?&lt;br /&gt;Não. As pessoas em quem pensamos quando falamos disso -os evangélicos protestantes extremos, que querem realmente uma América comandada por Deus e acreditam que ela foi fundada segundo princípios fundamentalistas protestantes- talvez sejam a ameaça mais superestimada no país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que bom.&lt;br /&gt;Eles já foram derrotados em toda parte. Por que isso?&lt;br /&gt;Na década de 1920, tiveram uma sequência de vitórias. Proibiram a venda, manufatura, distribuição e consumo de álcool. Incluíram isso na Constituição. Mais ou menos conseguiram proibir a imigração vinda de países de maioria não branca, não protestante. Eles nunca se recuperaram dessas vitórias.&lt;br /&gt;Nunca se recuperarão do fracasso da Lei Seca. Ou do julgamento Scopes [de 1925, envolvendo o ensino da teoria da evolução nas escolas]. Cada vez que tentaram introduzir o ensino do criacionismo, os conselhos de ensino, pais ou tribunais derrotaram as tentativas, e na maioria dos casos graças ao trabalho de pessoas como você, que mostraram que é bobagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso é muito animador.&lt;br /&gt;O que me preocupa um pouco mais é a natureza reacionária e extrema do papado neste momento. Por outro lado, parece que o papa não consegue muita fidelidade junto à congregação americana, que desobedece à Igreja abertamente com relação aos anticoncepcionais, o divórcio, o casamento gay, em grau extraordinário e que eu não teria previsto.&lt;br /&gt;Ela está até mesmo se mantendo firme com relação ao aborto, que, em minha opinião, é uma questão moral muito forte e não deveria ser decidida levianamente.&lt;br /&gt;A única ameaça religiosa real nos EUA é a mesma que, lamento dizer, existe em muitos outros países: uma ameaça externa. É o jihadismo, parcialmente cultivado no próprio país; mas em parte o jihadismo americano é fraco e se desacredita sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega a preocupar você a ideia de que, se vencermos e destruirmos o cristianismo, por assim dizer, o vazio poderia ser preenchido pelo islã?&lt;br /&gt;Não. É engraçado, mas não me preocupo com a possibilidade de vencermos. O único que podemos fazer é nos assegurarmos de que as pessoas saibam que existe uma alternativa muito mais maravilhosa, interessante e bela. Não, não acredito que a Europa se encheria de muçulmanos à medida que se esvaziasse de cristãos. O cristianismo derrotou a si mesmo na medida em que se tornou uma coisa cultural. Não há realmente cristãos crentes, como havia gerações atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Europa isso é verdade, certamente. Mas e nos EUA?&lt;br /&gt;Acho que há uma tendência que vem de longa data, no mundo desenvolvido e em grandes áreas fora dele, de as pessoas enxergarem as virtudes da separação entre igreja e Estado, porque já experimentaram a alternativa.&lt;br /&gt;A cada vez que algo como uma jihad ou movimento de sharia tomou conta de qualquer país -é verdade que isso só foi possível em casos muito primitivos-, o país é uma ruína ainda em brasa, com produtividade zero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Analisando a religiosidade nos países do mundo e nos diferentes Estados dos EUA, constata-se que a religiosidade tende a estar correlacionada à pobreza e a vários outros índices de carência social.&lt;br /&gt;Sim, é também disso que ela se alimenta. Mas não quero ser condescendente em relação a isso. Conheço muitas pessoas altamente instruídas, muito prósperas e muito reflexivas que creem. Não é inédito que pessoas tenham a ilusão de serem Deus ou o Filho sagrado. É uma ilusão comum, mas, novamente, acho que não precisamos condescender.&lt;br /&gt;Rick Perry [pré-candidato republicano à Presidência dos EUA] declarou certa vez: "Não apenas creio que Jesus seja meu salvador pessoal, como creio que os que não acreditam nele vão para o castigo eterno". Ele foi contestado em relação a essa última parte e respondeu: "Não tenho o direito de modificar a doutrina. Não posso dizer que ela vale para mim, e não para outros."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frequentemente me perguntam por que os EUA, uma nação de base secular, é tão mais religiosa que países europeus ocidentais que têm uma religião oficial, como os da Escandinávia ou o Reino Unido.&lt;br /&gt;[Alexis] de Tocqueville acertou na mosca. Se você quer uma igreja nos EUA, tem de erguê-la com o suor de sua fronte, e muitos já o fizeram. É por isso que são tão ligados a elas. Os judeus -mas não todos-, surpreendentemente, abandonaram sua religião pouco tempo depois de chegar do Leste Europeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Hoje a coisa ficou tão insípida em partes&lt;br /&gt;dos EUA que muitas crianças são criadas&lt;br /&gt;sem conhecimento de qualquer religião.&lt;br /&gt; Os pais deixam esse conhecimento&lt;br /&gt;a cargo das escolas, e as escolas têm medo&lt;br /&gt;de mexer com isso"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então a maioria dos judeus abandonou sua religião?&lt;br /&gt;Nos Estados Unidos, cada vez mais. Quando as pessoas vieram para escapar da perseguição religiosa e não quiseram reproduzir a perseguição, essa era uma memória muito forte.&lt;br /&gt;Os judeus se secularizaram muito rapidamente quando vieram. Os judeus americanos, como coletivo, devem constituir a força mais secular do planeta, hoje. Isto é, se considerarmos que formam um coletivo, o que não parece ser realmente o caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora não sejam religiosos, muitas vezes ainda observam o shabat e esse tipo de coisa.&lt;br /&gt;Isso só pode ser algo cultural. Eu celebro o Pessach todo ano. Às vezes até faço um seder [jantar em comemoração à páscoa judaica], porque quero que minha filha saiba que vem de outra tradição, de modo muito distante.&lt;br /&gt;Se ela encontrasse seu bisavô, isso explicaria, porque ele fala iídiche. É cultural, mas o seder do Pessach é também o fórum socrático. É dialético. É acompanhado por vinho. Tem todos os elementos de uma discussão muito boa. E há o destino manifesto.&lt;br /&gt;As pessoas sentem que os EUA são um lugar de sorte. É um país que fica entre dois oceanos, repleto de minerais, de beleza, de riqueza. Para muitas pessoas, realmente parece providencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terra prometida.&lt;br /&gt;Tudo isso e mais o desejo de outro jardim do Éden. Alguns utópicos seculares vieram para cá com a mesma ideia. Thomas Paine e outros todos pensaram na América como o maravilhoso recomeço para a espécie.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Me preocupa um pouco a natureza reacionária&lt;br /&gt;e extrema do papado neste momento.&lt;br /&gt;Por outro lado, a congregação americana&lt;br /&gt;desobedece a Igreja com relação a anticoncepcionais,&lt;br /&gt;ao divórcio e ao casamento gay,&lt;br /&gt;em grau extraordinário"&lt;br /&gt;Mas isso tudo foi secular.&lt;br /&gt;Muito foi, mas é impossível fugir da liturgia: ela é poderosa demais. Você acaba dizendo coisas como "terra prometida", e isso pode ser usado para fins sinistros.&lt;br /&gt;Mas, em muitos casos, é uma crença benigna. Trata-se só de dizer: "Devemos compartilhar nossa boa sorte". A razão pela qual a maioria de meus amigos não é crente não tem a ver especialmente com terem participado de discussões como as que você e eu temos tido, mas com o fato de que a religião obrigatória na escola os tornou indiferentes à religião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficaram entediados.&lt;br /&gt;Ficaram fartos. Eles pegavam da religião, de vez em quando, aquilo de que precisavam: se precisassem se casar, sabiam aonde ir. É claro que alguns deles são religiosos, outros gostam da música, mas, de modo geral, os britânicos são benignamente indiferentes à religião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o fato de haver uma igreja estabelecida aumenta esse efeito. As igrejas não deveriam ser isentas de impostos, como são. Não automaticamente, de todo modo.&lt;br /&gt;Com certeza, não deveriam. Se a Igreja pede que seja dado tempo igual a especulações criacionistas ou pseudocriacionistas... Qualquer igreja que ensina isso em sua escola e recebe dinheiro federal da iniciativa religiosa deveria, por lei, também ensinar o darwinismo e conhecimentos alternativos, para que se ensine o debate. Acho que elas não querem isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A religião comparativa seria uma das melhores armas, desconfio.&lt;br /&gt;Hoje a coisa ficou tão insípida em partes dos Estados Unidos que muitas crianças crescem sem qualquer conhecimento de qualquer religião de qualquer tipo. Isso porque seus pais não lhes transmitem esse conhecimento; eles deixam a cargo das escolas, e as escolas têm medo de mexer com isso. Eu gostaria que as crianças soubessem de que trata a religião, senão algum guru ou alguma seita pode fazer a cabeça delas.&lt;br /&gt;"...mas, de modo geral, os britânicos&lt;br /&gt;são benignamente indiferentes&lt;br /&gt; à religião."&lt;br /&gt;Elas são vulneráveis. Eu também gostaria que elas conhecessem a Bíblia, por razões literárias.&lt;br /&gt;Precisamente. Uma parte enorme da literatura inglesa seria de difícil compreensão se as pessoas não conhecessem a Bíblia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você teria algo a dizer sobre o Natal?&lt;br /&gt;Sim. Não poderia deixar de haver um feriado no solstício do inverno. A religião dominante não poderia deixar de tomar conta dessa festa, e isso teria acontecido mesmo sem Charles Dickens e todos os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A árvore de Natal vem do príncipe Albert [consorte da rainha Vitória da Inglaterra]; os pastores e os três reis magos são todos invenções.&lt;br /&gt;Cirênio não era governador da Síria, tudo isso. Cada vez mais, o Natal vem se secularizando. E essa mania de desejar "boas festas" é algo de que também não gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É horrível, não? "Boas festas"&lt;br /&gt;Prefiro nossas frases sobre o cosmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raio-X Hitchens&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NASCIMENTO&lt;br /&gt;13/4/1949, Portsmouth (Inglaterra) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MORTE&lt;br /&gt;15/12/2010, Houston (EUA) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FORMAÇÃO&lt;br /&gt;Jornalista e crítico literário &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ATUAÇÃO&lt;br /&gt;Defensor do ateísmo, ficou conhecido por sua admiração por George Orwell e Thomas Jefferson, e por ataques a Bill Clinton, Henry Kissinger e Madre Teresa de Calcutá &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRINCIPAIS OBRAS&lt;br /&gt;"O Julgamento de Kissinger" (2001)&lt;br /&gt;"Cartas a um Jovem Contestador" (2001)&lt;br /&gt;"A Vitória de George Orwell" (2002)&lt;br /&gt;"Amor, Pobreza e Guerra" (2004)&lt;br /&gt;"Os Direitos do Homem de Thomas Payne" (2006)&lt;br /&gt;"Deus Não É Grande" (2007)&lt;br /&gt;"Hitch-22" (2010) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;------------------------------------&lt;br /&gt;Tradução de CLARA ALLAIN&lt;br /&gt;Fonte: Folha on line, 31/12/2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-8401250197141768420?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/8401250197141768420/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/entrevista-christopher-hitchens-1949.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/8401250197141768420'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/8401250197141768420'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/entrevista-christopher-hitchens-1949.html' title='Entrevista: Christopher Hitchens (1949-2011), Jornalista'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-4060348578004964423</id><published>2012-01-03T11:10:00.000-08:00</published><updated>2012-01-03T11:10:17.197-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cultura'/><title type='text'>Vivemos no melhor dos tempos</title><content type='html'>O canadense Steve Pinker, de 57 anos, professor de psicologia de Harvard, é autor de treze livros que fizeram dele uma celebridade intelectual planetária. Seu sucesso se deu sem que ele fosse forçado a banalizar suas concepções científicas. Em seu novo livro, The Better Angels of Our Nature – Why eiolence Has Declined (Os anjos Bons Dentro de Nós – Por que a Violência declinou), Pinker demonstra com estatísticas que a humanidade passou por seu mais pacífico período histórico. Nessa visão, o terrorismo islâmico, os massacres em escolas e locais públicos e a criminalidade urbana empalidecem diante da brutalidade sem limites das eras anteriores, Pinker diz que o anjo civilizatório, enfim, aprisionou a maldade inata do homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que os ataques de 11 de setembro de 2001 ou o massacre de quase uma centena de inocentes na Noruega em julho passado não desmentem sua tese?&lt;br /&gt;As estatísticas são imprescindíveis para justificar qualquer argumento científico. Elas são um método válido e seguro de avaliação. É o que torna a minha tese ligítima. Nenhum cientista sério poderia afirmar que vivemos o período mais pacífico da humanidade só com base em impressões que ele próprio ou os outros têm sobre determinados eventos. A mente humana é vulnerável a enganos e ilusões. Nossas impressões sobre quão violento e cruel é um determinado episódio devem-se à nossa memória, que sempre é contaminada pelas emoções que sentimos quando presenciamos ou algo. Hoje em dia, grande parte da elite intelectual, principalmente na sociologia, psicologia e antropologia, menospreza a estatística e o raciocínio lógico. Esse preconceito só contribui para proliferação de uma pseudociência e suas análises mal fundamentadas. O fato é que,desde 1945, o número de mortos em guerras ou de vítimas de assassinatos e estupros é menor dos últimos 5000 anos, quando se leva em conta a relação com o total da população.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem tem um parente morto de forma violenta, as estatísticas não valem muita coisa, certo?&lt;br /&gt;Desde o lançamento do livro, fui surpreendido por reações inesperadas. Algumas pessoas duvidaram do meu trabalho, outras puseram em xeque minha idoneidade. Houve quem se enfureceu e considerou minha tese obscena. Muitos acadêmicos se revoltaram. Por isso, é sempre bom esclarecer alguns pontos. Em nenhum momento eu disse que a violência desapareceu. Quando esta entrevista for publicada, tragédias e crimes estarão na primeira página dos jornais. Também não quis minimizar eventos trágicos recentes, como a guerra do Iraque ou o massacre de Darfur, nem as grandes guerras ou as atrocidades cometidas por ditadores e genocidas. Tudo isso é condenável e doloroso. Mas não invalida a constatação de que o mundo já foi muito pior do que é agora. Grandes pensadores teorizam sobre como teria sido a vida dos homens no estado natural antes do advento das leis e das formas mais rudimentares de governo. Com ajuda da alta tecnologia podemos agora não apenas teorizar sobre o grau de barbárie da pré-história, mas estimar com precisão o número altíssimo de pessoas que morriam massacradas por inimigos. Nada autoriza a ideia tão disseminada de que o passado humano foi bucólico, pastoril e pacífico. Há poucos séculos matavam-se pessoas com base em superstições avalizadas pela hierarquia religiosa, a escravidão era oficial e apenas discorda da opinião vigente podia equivaler a uma sentença de morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns cientistas acreditam que o declínio da violência se deve a uma mudança na própria natureza humana. O senhor acha isso possível?&lt;br /&gt;É improvável. A reação violenta foi um traço incorporado à humanidade durante o processo evolutivo. Ser violento foi determinante para a sobrevivência da espécie na defesa contra as feras, na caça e, claro, na disputa por uma mulher no acasalamento. Até os dois anos as crianças são extremamente violentas. Só não matam umas às outras porque não damos a elas revólveres ou facas e porque estamos presentes para ensiná-las a se comportar. Elas se valem da violência para disputar espaço com os irmãos e a atenção dos pais. As mães ficam furiosas quando leem isso, mas a neurociência comprovou que as pessoas aprendem a ser menos violentas com a maturidade. Isso coincide com o desenvolvimento do lóbulo frontal, a região do cérebro responsável pela linguagem, pelo domínio motor, mas principalmente pela personalidade, a consciência de si mesmo e da existência do outro. O prazer com a violência é uma realidade. As pessoas são coibidas de praticá-la nos moldes da pré-história ou da Idade Média, mas dão vazão a ela em games, assistindo a filmes de Mel Gibson ou a lutas de vale-tudo. As pesquisas mostram que de 70% a 90% dos homens já se imaginaram matando alguém. Entre as mulheres esse número varia de 40% a 60%.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que o mundo se tornou mais pacífico?&lt;br /&gt;Meu livro mostra que uma sucessão de eventos históricos fez com que o lado bom do homem sobressaísse ao violento e animalesco. Todos temos demônios e anjos dentro de nós. O processo civilizatório, com o advento do estado, a institucionalização da Justiça, a difusão e o aprimoramento da cultura, permitiu que os anjos derrotassem os demônios. Foi o que livrou a espécie humana da barbárie. No século XVII, o filósofo Thomas Hobbes enunciou no seu Leviatã que, na ausência de regras de convivência sob leis e imposições da sociedade, a vida humana era “solitária, miserável, repugnante, brutal e curta”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A constatação de que o “estado natural do homem é a violência encerra a discussão sobre o que influi mais no comportamento humano, a natureza ou o aprendizado?&lt;br /&gt;Estamos longe de pôr um ponto final na questão sobre o que pesa mais, a genética ou o que aprendemos no decorrer da vida. Mas, no estado natural, quem tem razão é Hobbes, e não o suíço Jean-Jacques Rousseau, cujo argumento era que o ser humano nasce bom e é, posteriormente, corrompido pela sociedade. Durante toda a minha carreira, tentei derrubar essa falácia de que a mente é uma tabula rasa e de que qualquer traço humano é fruto do meio em que ele vive ou é moldado pelas instituições sociais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor despertou fúria ao afirmar que o Holocausto não foi o primeiro genocídio da história...&lt;br /&gt;Eu sou judeu também e sou sensível a essa questão. O Holocausto tem características únicas, terríveis, que o tornam um ato de horror incomparável. Os nazistas estavam tão empenhados em matar os judeus e em varrê-los do mapa que os buscavam a milhares de quilômetros de distância para serem mortos em câmara de gás. O extermínio dos judeus não foi o primeiro genocídio da história, ma foi o mais cruel. Há um outro ponto em relação à II Guerra. Sem dúvida, foi o evento no qual mais se mataram pessoas desde o surgimento da espécie humana. Mas não está claro se, em porcentagem de população, morreram naquela guerra mais pessoas do que em outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A que se deve a emergência do nazismo na Europa na plenitude da civilização do século XX?&lt;br /&gt;O declínio da violência através dos séculos deu-se de forma cíclica. Aos picos de violência, como as grandes guerras do século passado, sempre se seguiu o retorno ao estado pacífico. As estatísticas comprovam que, com o passar dos séculos, aos picos de violência se sucedem períodos cada vez mais duradouros de paz. No caso da Alemanha, é preciso observar que, por baixo da fina camada de verniz civilizatório da República de Weimar, o curto período democrático depois da I Guerra, fervia o nacionalismo retrógrado baseado na ideia da superioridade racial teutônica que descambaria no nazismo. Foi algo tão forte que apagou a noção do bem e do mal. Muitos dos carrascos nazistas se consideravam bons soldados e cidadãos que apenas cumpriam seu dever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que situações as pessoas se tornam cegas a ponto de compactuar com atrocidades como as cometidas pelos nazistas?&lt;br /&gt;A filósofa alemã Hannah Arendt foi uma das primeiras a tentar explicar esse fenômeno, que ela definiu como “a banalização do mal”. Em seu trabalho, de 1963, ela defendeu a tese de que as maiores atrocidades da história não foram de responsabilidade de sociopatas ou fanáticos, mas de pessoas comuns que se deixaram levar por lideres carismáticos. Essas pessoas cometeram as maiores atrocidades sem se dar conta do grau de maldade de suas ações. Hoje as ideologias fazem o papel dos líderes carismáticos nesse processo de arrastar pessoas normais para a prática de atos insanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda fica de pé a ideia de que o bem e o mal são definidos culturalmente?&lt;br /&gt;Em geral, as pessoas entendem que o mal está em produzir sofrimento nos outros por meio de atos premeditados e sem uma razão muito forte. O mais interessante, no entanto, é que a maioria dos indivíduos que cometem atos perversos não acha que agiu com maldade. O cérebro humano evoluiu de forma a sempre advogar a favor de si próprio. Somos os mais devotos defensores de nós mesmos. A primeira reação aos sermos confrontados com o fato de termos feito algo ruim é tentar nos convencer e aos outros de que aquilo não foi tão grave. A segunda é transferir a responsabilidade. Nosso cérebro quer sempre nos fazer acreditar que se agimos mal foi porque fomos provocados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O neurocientista americano Sam Harris defende a ideia de que existe uma “ciência da moral”, ou seja, que o bem e o mal podem ser definidos com rigor metodológico. O senhor concorda?&lt;br /&gt;Entendo o argumento de Sam Harris. A suposição de Harris se baseia no fato de que a moral é tradicionalmente definida pela religião ou pela filosofia. Nessas duas cátedras, as definições de bem e de mal estão dissociadas de algo imprescindível, a questão do sofrimento humano. No conceito de ciência da moralidade. Sempre que há sofrimento o mal está presente. Quando há felicidade, o bem prevaleceu. De fato, se tomamos o fenômeno por essas características de apuração simples, é possível obter uma resposta objetiva e mais científica do que sejam o bem e o mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sua visão, quais foram as razões que levaram ao fracasso os sistemas políticos movidos pela ideia de estabelecer a igualdade entre os homens?&lt;br /&gt;O comunismo é outros governos fundados sobre utopias encorajaram as pessoas a ser violentas quanso as convocaram para lutar por um sonho. Pelo sonho vale tudo. Aqueles sistemas políticos levaram as pessoas a acreditar que fora da utopia não existe o bem. Por essa razão, tanto o comunismo como o nazismo e o fascismo degeneraram no assassinato coletivo de enormes proporções. A lição aqui é que a violência inata do homem está sempre à espreita e que os governos democráticos são a forma mais eficaz de impedir que ela se manifeste na sua pior forma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o senhor avalia o impacto dos avanços tecnológicos e da internet na violência?&lt;br /&gt;A suposição de que o maior acesso a armas mais potentes aumenta a violência é equivocada. Ao ler notícias como a do massacre na Noruega, muita gente pode ter a impressão de que a tecnologia contribuiu para que um só indivíduo matasse quase uma centena de pessoa. Episódios desse tipo distorcem a percepção da realidade. Depois de Hiroshima e Nagasaki, nunca mais um país ousou acionar seu arsenal nuclear – não por questões técnicas, mas pela imposição moral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor é um otimista incurável?&lt;br /&gt;Sou pessimista e otimista ao mesmo tempo. Acredito que a violência deva aumentar no futuro próximo. A história mostra que a mudanças culturais e sociais, crises econômicas, novas ideologias e tecnologias podem incitar guerras, conflitos, rebeliões e enfurecer determinados grupos sociais. Mas sou otimista em relação ao fortalecimento dos períodos de paz depois de surtos de violência extrema. Os períodos de paz tendem a ser cada vez mais longos e duradouros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-----------------------&lt;br /&gt;Reportagem por GABRIELA CARELLI&lt;br /&gt;Fonte: Revista VEJA impressa-  Ed. 2250 –nº 1 – 04/01/2012&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-4060348578004964423?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/4060348578004964423/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/vivemos-no-melhor-dos-tempos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/4060348578004964423'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/4060348578004964423'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/vivemos-no-melhor-dos-tempos.html' title='Vivemos no melhor dos tempos'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-373646210036967766</id><published>2012-01-01T15:31:00.001-08:00</published><updated>2012-01-01T15:31:59.688-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Educacao'/><title type='text'>A Escola do Cinema</title><content type='html'>Fonte: http://veja.abril.com.br/080709/escola-cinema-p-146.shtml&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprendemos nos locais mais improváveis. Estava recentemente em consultório médico e, enquanto aguardava minha consulta, peguei uma revista antiga, de 2009, e comecei a folhear apenas para passar o tempo, sem maiores expectativas. Mas eis que o imponderável surgiu, e na coluna de livros, vi matéria que me encantou, da experiência entre pai e filho, envolvendo o cinema (imagem acima), que tornou-se o livro O CLUBE DO FILME. Uma grande lição de vida para ambos. Imaginem só, filho que não quer mais estudar e pai aceita isso, desde que ele concorde em assistir a uma série de filmes juntos. Resultado disso: filho retorna aos estudos e ainda torna-se cineasta. Simplesmente fantástico e uma grande lição para educadores entenderam o mundo do alunado, tentando outras formas de interação ao ato de educar, não tão formal, mas mais casual, buscando novas metodologias para sua didática.&lt;br /&gt;Sempre digo aos cursistas e colegas que muitas vezes temos que atravessar fronteiras. Trazer os alunos para "Em algum lugar do passado", e também dar oportunidades para que eles nos conduzam "De volta para o futuro".&lt;br /&gt;Educar é dialogar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veja abaixo a íntegra da experiência que uniu pai e filho, e que serve de motivação para outros pais e educadores interagirem com filhos e alunos. Os destaques em negrito, foram feitos por mim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vide artigo abaixo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ESCOLA DO CINEMA, por Isabela Boscov, para Revista Veja (edição 2120, de 08/07/2009):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O "CLUBE" ACABOU, A UNIÃO RESISTE&lt;br /&gt;Gilmour e Jesse, que voltou a estudar e tenta ser cineasta: uma saída desesperada que virou uma porta de entrada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escritor David Gilmour deixou seu filho largar os estudos quando&lt;br /&gt;ele tinha 15 anos. Com uma condição: ver os filmes que o pai&lt;br /&gt;escolhesse. Foi de fato um aprendizado - para ambos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando seu filho Jesse tinha 15 anos, o escritor canadense David Gilmour fez o que poucos pais arriscariam fazer: em face da infelicidade do menino com a vida escolar, permitiu que ele deixasse os estudos. Mas impôs uma condição. Toda semana, Jesse deveria assistir a três filmes que seu pai escolhesse. Os Incompreendidos, de François Truffaut, inaugurou a seleção. A juventude do cineasta havia sido árdua: mal-amado pelos pais, ele fora delinquente até encontrar no cinema, primeiro como crítico e depois como diretor, uma vocação. Na última cena de Os Incompreendidos, seu protagonista - e alter ego - foge do reformatório, vaga até uma praia deserta e então olha para a câmera, que congela a imagem. Jesse não chegou a vibrar (Instinto Selvagem, mostrado a seguir, despertou mais entusiasmo), mas gostou o suficiente para o pai cutucá-lo: o que significava aquele desfecho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jesse formulou uma interpretação: o personagem estava se dando conta de que se livrar das coisas que lhe desagradavam fora fácil. Agora vinha a parte difícil - encontrar um rumo. Não é simples para um adolescente articular sua perplexidade. Os Incompreendidos, porém, além de ser um grande filme, deu a Jesse uma imagem de sua confusão e uma deixa para desabafar. Episódios como esse são o fio condutor de O Clube do Filme (Intrínseca; tradução de Luciano Trigo; 240 páginas; 24,90 reais), sobre os três anos de cinefilia compartilhados por pai e filho (...). O relato evoca não apenas as dores por que passam pais e filhos, mas também aquele fenômeno meio mágico que às vezes se dá numa sala escura, diante de uma tela: uma descoberta e uma comunhão que, exatamente por prescindirem de palavras, ultrapassam o que se pode dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trocar a instrução formal pelo cinema foi uma proposta surgida do desespero. Gilmour a adotou porque o ódio à escola estava envenenando o filho e porque ver filmes lhe pareceu ser o meio mais seguro de garantir que eles tivessem uma proximidade franca e frutífera. "Mas perdi a conta de quantas vezes acordei de madrugada com o pavor de destruir o futuro do meu filho", disse ele a VEJA. O medo de que nem a alternativa da educação pelo cinema funcionasse inspirou uma série de precauções. Para que as sessões não ganhassem ar de obrigação nem terminassem por fazer de Jesse um esnobe, Gilmour tomou uma decisão brilhante: repudiou qualquer método. Filmes célebres ou obscuros, bons ou ruins, recentes ou antigos, americanos ou de qualquer outra procedência se sucederam no aparelho de DVD conforme o pai, crítico de cinema bissexto, se lembrava deles, ou conforme o humor do adolescente o determinasse. Quando Jesse caiu em tristeza profunda por causa de uma namorada, fez-se um pequeno ciclo de terror: nada como uma emoção forte para ajudar a esquecer outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra medida lúcida foi a de evitar preleções. O pai dava algumas dicas sobre o que se iria ver e cerrava os dentes para não falar além da conta. Os filmes é que deveriam falar por si mesmos, e então seria a vez de Jesse falar - ou não - sobre eles. De alguns dos títulos, ele tirou lições diretas (veja o quadro); outros o inspiraram de maneiras sutis. Jesse, hoje com 23 anos, retornou de livre vontade aos estudos, já rodou um curta-metragem, no qual também atuou, e prepara o roteiro de um longa. Sua inspiração foi Woody Allen, o cineasta com quem mais se identificou durante o aprendizado e por meio do qual identificou em si o desejo de escrever bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A educação heterodoxa de Jesse nesses anos recupera um tipo de convivência que se tornou raro: aquele em que pessoas se reúnem em torno de um interesse. Dos tempos pré-históricos, em que os mitos eram transmitidos de geração para geração à volta da fogueira, até o início do século XX, em que pais e filhos se juntavam para ouvir um deles ler um romance ou acompanhar uma história pelo rádio, essa é uma forma primordial de lazer - além de uma necessidade evolutiva. Nesses momentos, os mais velhos ensinam o que podem aos mais jovens e aprendem algo novo com eles; os laços se estreitam e os horizontes, por sua vez, se expandem. A vida afobada de hoje tende a limitar tais oportunidades. Nesse sentido, O Clube do Filme é um grande lembrete: os filmes, sejam eles bons ou ruins, representam o acúmulo da experiência humana da mesma forma que a literatura, a história ou a filosofia. Com a vantagem de que mesmo os adolescentes mais arredios (ou especialmente estes) adoram assistir a eles. Alguns gostam tanto que se dispõem até a conversar sobre eles. E outros ainda, como Jesse, descobrem nessa saída formulada por um pai que não sabe mais o que fazer exatamente aquilo que lhes faltava: uma porta de entrada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fonte: http://veja.abril.com.br/080709/escola-cinema-p-146.shtml&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revista Veja, Edição 2120 / 8 de julho de 2009.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Professor José Henrique Freitas: "Ocupe a sala de aula com a perspectiva de transformar essas pessoas em agente de mudanças. Corremos o risco de forjar belos números e muito pouca possibilidade de transformação. A história da educação, sobretudo no Brasil, demonstrou essa crueldade. Isso não é um privilégio da história mais distante da educação brasileira. Sob essa perspectiva, os caminhos propostos pela Educopédia apontam para essa direção, sobretudo pela possibilidade de produzir autonomia no caminho de "conhecer" dos nossos meninos e meninas. Não devemos ter muita pressa. É necessário "paciência histórica" e persistência nas ações e reflexões para que possamos "ESCOLHER" os melhores caminhos e, quem sabe, atalhos." #ocupeasaladeaula&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-373646210036967766?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/373646210036967766/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/escola-do-cinema.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/373646210036967766'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/373646210036967766'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2012/01/escola-do-cinema.html' title='A Escola do Cinema'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-6282326323747970117</id><published>2011-10-21T18:21:00.000-07:00</published><updated>2011-10-21T18:22:03.341-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='depressao'/><title type='text'>Melancolia corporativa</title><content type='html'>Revisão do documento que dita o diagnóstico e o tratamento da depressão acirra conflito entre psiquiatras e psicólogos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafael Garcia, para Caderno Mais da Folha de Sao Paulo (11.10.2009)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é de hoje que as ciências da mente são uma área turbulenta: psiquiatras, psicólogos, psicanalistas e suas subdivisões sempre se digladiaram no campo teórico e clínico. Houve ciclos de calmaria em algumas décadas, mas o debate sobre o entendimento de uma condição tão antiga quanto a humanidade -a depressão- parece estar levando essas classes de profissionais a um novo pico de agressividade agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro de dois anos, o comitê redator da chamada "bíblia" da psiquiatria, o DSM (Manual de Diagnósticos e Estatísticas), deve completar a quinta edição da obra. Pressões para que a depressão receba um tratamento diferente no texto partem de todo canto. O DSM, produzido pela Associação Americana de Psiquiatria, é a baliza de referência dos planos de saúde privados em vários outros países para decidir o que pagar ao paciente deprimido: drogas ou psicoterapia.&lt;br /&gt;Psicólogos clínicos, sobretudo, têm feito um ataque sistemático ao uso de antidepressivos no tratamento a essa condição, e sua posição está agora resumida em livros de dois pesquisadores britânicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Placebo turbinado&lt;br /&gt;Irving Kirsch, da Universidade de Hull, acaba de lançar "The Emperor's New Drugs" (As Novas Drogas do Imperador), relato no qual descreve como descobriu aquilo que chama de "mito dos antidepressivos". Declarando-se ex-apóstolo desses medicamentos psiquiátricos, Kirsch conta como foi o processo de pesquisa para a produção de uma análise que desmontou a estatística dos testes clínicos que validaram os remédios da mesma classe do popular Prozac.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A polêmica toda começou em 1998, quando o psicólogo publicou o primeiro resultado de seu trabalho, mostrando que a eficácia dessas drogas -os chamados inibidores de recaptação de serotonina- era toda ou quase toda atribuível ao infame efeito placebo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse é o termo que clínicos usam para definir quando um paciente melhora não porque o remédio foi eficaz, mas porque a crença na cura produziu alguma transformação mental e orgânica que a realizou. Testes clínicos em geral têm um controle para não se deixarem enganar pelo efeito placebo, mas Kirsch mostrou que a adoção de placebos 100% inertes, sem efeito colateral nenhum, sabotou a lógica das pesquisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pacientes voluntários conseguiam descobrir se estavam tomando drogas ou pílulas de farinha, e os resultados dos testes acabavam distorcidos. "Em vez de comparar placebos normais com drogas, estávamos comparando placebos "turbinados" com placebos normais", escreve o psicólogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhum médico questiona hoje a existência do efeito placebo, mas psiquiatras e a indústria farmacêutica negam que este seja o caso dos antidepressivos. Os primeiros ataques de Kirsch a esses medicamentos precipitaram uma enxurrada de artigos em revistas de psiquiatria, com médicos questionando as "metanálises", o método que o pesquisador usou para tirar suas conclusões. A técnica consiste em fazer ajustes estatísticos para poder juntar os resultados de vários testes clínicos diferentes em um único estudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A passagem de dez anos, porém, mostrou que o método é seguro, diz Kirsch. "Metanálises são apresentadas regularmente hoje nas principais revistas médicas do mundo", diz, lembrando que a interpretação estatística dos placebos não era o único problema dos testes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Segredinho sujo"&lt;br /&gt;Kirsch provocou um verdadeiro rebuliço na comunidade científica quando descobriu que os resultados de muitos testes do Prozac e de drogas similares não haviam sido divulgados ao público. Esses ensaios clínicos -o "segredinho sujo" dos laboratórios farmacêuticos, segundo o psicólogo- eram aqueles em que as drogas não haviam mostrado eficácia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trabalho de Kirsch serviu para suscitar um grande debate sobre o sistema de publicação de pesquisas médicas, mas não convenceu a todos que os antidepressivos sejam meros placebos. Muitos psiquiatras consideram o estudo de Kirsch um ataque corporativo dos psicólogos, que devolvem a acusação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em janeiro deste ano, o "British Journal of Psychiatry" publicou um editorial afirmando que uma possível falha dos testes clínicos se deveria ao fato de que os antidepressivos estavam sendo prescritos para muitos pacientes que não estavam realmente deprimidos. A fronteira que separa a depressão clínica de uma tristeza normal, porém tem mesmo de ser arbitrária, e já tem havido algum debate sobre como delimitá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"A diferença entre dar a uma pessoa que não está deprimida um antidepressivo ou placebo não pode mesmo ser grande", diz o psiquiatra (e psicanalista) Marco Antônio Alves Brasil, da UFRJ, integrante do conselho consultivo da Associação Brasileira de Psiquiatria. "Para os quadros de depressão leve, ainda não existe uma comprovação de que os antidepressivos seja superiores à psicoterapia."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O debate sobre como diferenciar a depressão "patológica" de uma reação normal de tristeza, diz Alves Brasil, pode levar a uma revisão desse ponto no DSM e na ICD (Classificação Internacional de Doenças), produzida pela Organização Mundial da Saúde. A ICD, a referência usada por médicos dos sistemas de saúde pública brasileiros, também deve ser reeditada em 2011.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para alguns psiquiatras, é preciso limitar a depressão patológica apenas aos casos em que a melancolia é anormal. "Se você está profundamente triste e não há uma razão para isso, você está doente", diz Alves Brasil. Muitos psicólogos, porém, questionam a existência da depressão orgânica e, junto com ela todas as estatísticas de prevalência (leia texto ao lado).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tristeza evolutiva &lt;br /&gt;Dupla defende que depressão é traço positivo moldado pela evolução. Aristóteles notou que grandes pensadores costumam ter índole depressiva &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos levantamentos epidemiológicos sob critérios da Associação Psiquiátrica Americana, tipicamente cerca de 17% das pessoas acabam sendo diagnosticadas com depressão em algum momento de suas vidas. O número é razoavelmente constante na maior parte dos EUA e onde quer que o método seja reproduzido. Para muitos cientistas, isso revela uma entre duas coisas: ou uma epidemia de tristeza, ou uma falha no sistema diagnóstico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um artigo na última edição da revista "Psychological Review", da Associação Psicológica Americana, uma dupla de cientistas elenca uma série de evidências em favor da segunda hipótese. J. Anderson Thomson e Paul Andrews, da Virginia Commonwealth University, adotam a perspectiva da psicologia evolutiva para investigar o que Darwin e a teoria da evolução teriam a dizer sobre episódios de depressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Acreditávamos que dificilmente um traço tão prevalente na população poderia ser considerado doença", disse Andrews à Folha. Apresentando um arsenal de referências a estudos de genética, neurociência e farmacologia (e literatura das psicologias cognitiva, comportamental e clínica), a dupla chega a uma conclusão: "a depressão é uma adaptação que evoluiu para analisar problemas complexos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrews explica que a literatura científica dá apoio à ideia de que a depressão induz pessoas a pensarem de maneira analítica e "ruminativa", o que as ajuda a solucionar problemas complexos. O benefício do sofrimento melancólico seria o aumento da capacidade de lidar com a desgraça que o causou. "Dilemas sociais são particularmente fortes em sua capacidade de induzir depressão."&lt;br /&gt;Não é uma ideia propriamente nova, reconhece Andrews, lembrando ela remonta à Grécia Antiga. "Aristóteles notou que grandes pensadores com frequência tinham uma personalidade de tendência depressiva", afirma. O psicólogo diz esperar que seu extraordinário corpo de evidência "biológica", porém, comova os psiquiatras mais do que os textos da Antiguidade Clássica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contra o diagnóstico&lt;br /&gt;Outro livro lançado neste mês que ataca o modo como psiquiatras têm lidado com a depressão é "Doctoring the Mind" (Medicando a Mente), de Richard Bentall, psicólogo clínico da Universidade de Bangor (Reino Unido).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O britânico, que diz não ser "contra drogas" por princípio, reconstrói uma história da psiquiatria apontando como a teoria vigente sobre depressão e seus protocolos de tratamento farmacológico foram moldados mais pelos fracassos do que pelos sucessos dessa disciplina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Questionado sobre se os psicólogos não deveriam construir seu próprio manual de diagnósticos como reação, Bentall dá de ombros. "Não precisamos de coisas como o DSM", diz. "Minha abordagem é pôr o foco em cada sintoma das pessoas, em vez de tentar dar um diagnóstico que abarque todos eles."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Convencer os planos de saúde privados disso, porém, é um problema, admite o psicólogo. E a pressão da indústria farmacêutica sempre vai existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ele, o grande desafio agora é transformar o debate corporativo em um científico. Segundo ele, há algum motivo para otimismo, já que o panorama acadêmico de "batalha" entre psiquiatras e psicólogos já não é tão real. "Conheço alguns psiquiatras que concordam com minhas ideias, e conheço alguns psicólogos que não." (RG)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;________________________________________&lt;br /&gt;LIVRO - Doctoring the Mind Richard Bentall; New York University Press; 384 págs. US$ 30 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LIVRO - The Emperor's New Drugs Irving Kirsch; Bodley Head; 230 págs. US$ 19&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;=========&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os novos dependentes &lt;br /&gt;Confusão entre os conceitos de depressão e melancolia pode tornar o indivíduo "escravo" do mercado farmacêutico &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JOEL BIRMAN, ESPECIAL PARA A FOLHA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O questionamento da formulação da psiquiatria biológica, no que se refere à depressão, começa a se realizar no campo das neurociências. Eu diria que esse questionamento chegou tarde, pois aquela se difundiu no espaço social como uma evidência insofismável, fazendo crer à população que a condição depressiva seria não apenas uma anomalia como também uma patologia psíquica, decorrente da desregulação dos neuro-hormônios no sistema nervoso central. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, a depressão seria o signo infalível de uma enfermidade nervosa, a ser devidamente submetida à intervenção psicofarmacológica. Em decorrência disso, a prescrição de antidepressivos se realizou em escala global, como uma nova panaceia para possibilitar a felicidade ampla, geral e irrestrita de todos os desesperados do planeta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao Brasil, o discurso psiquiátrico retomou midiaticamente o enunciado pertinente de Caetano Veloso -de que de perto ninguém é normal- para propor a otimização de antidepressivos para todos, pois a tristeza poderia se camuflar de maneira incipiente nas pequenas dobras do espírito e ser, assim, preventivamente debelada em estado nascente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nesse mesmo comprimento de onda discursiva que a Organização Mundial de Saúde (OMS) diagnosticou o aumento da incidência da depressão no mundo inteiro e fez ainda o prognóstico preocupante de que essa será uma das enfermidades mais frequentes no futuro próximo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sociedade performática &lt;br /&gt;Fala-se menos, nessas afirmações peremptórias e supostamente científicas, sobre os interesses da indústria farmacêutica que estão aqui envolvidos, à medida que foi na conjunção íntima com essa indústria que o discurso psiquiátrico passou a propor uma leitura neurocientífica da depressão e de outros males do espírito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que se pretende com isso é transformar esses males em doenças nervosas, enfim, de forma que a singularidade do desejo e da dor humanos seja reduzida à condição biológica do sujeito neuronal. &lt;br /&gt;Ao lado disso, é preciso evocar ainda que a disseminação na prescrição de antidepressivos e de outros psicofármacos se inscreve num projeto sociopolítico mais amplo, em que o incremento da performance das individualidades é a única coisa que interessa aos imperativos da sociedade moderna avançada (Guy Debord). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa perspectiva, as oscilações do humor, a angústia e as demais formas de sofrimento psíquico das individualidades perturbariam os imperativos performáticos dos agentes sociais, devendo assim ser regulados prontamente pela alquimia psicofarmacológica. O que o sujeito possa estar balbuciando com tais dores psíquicas não há nenhum interesse em saber e nenhum espaço dialógico é aberto pela psiquiatria para que aquele possa se anunciar. A demanda de subjetivação foi, assim, abolida da prática psiquiátrica, em conjugação com a suspensão do discurso do paciente. &lt;br /&gt;Como já dizia Platão nos tempos clássicos da pólis grega, tal modelo de prática médica, sem linguagem, seria voltado para os escravos, e não para os cidadãos livres. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto o que é mais inquietante nesse projeto psiquiátrico é a proposição axial de que todos os cidadãos do mundo pós-moderno seriam reduzidos à condição de escravidão, pois não poderiam mais ter acesso ao discurso e à subjetivação, nesse processo de medicalização ilimitado da dor humana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde "Luto e Melancolia" (1917), Freud enunciou uma leitura rigorosa da melancolia, articulando esta com a experiência da perda, na medida em que a perda se transforma para o sujeito num estado de luto patológico. Assim, se perder alguém ou algo deixa a todos tristes, isso não quer dizer que qualquer depressão se transforme necessariamente numa melancolia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo contrário, a tristeza incita o sujeito a um trabalho de elaboração psíquica sobre aquilo que foi perdido, conduzindo-o, pela fragilização em que foi lançado, à diminuição de sua impotência e consequentemente a seu enriquecimento simbólico. Vale dizer, não poderia existir nem subjetivação nem simbolização sem as perdas e as depressões correlatas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa leitura de Freud se baseou num ensaio prévio de seu discípulo Abraham, que em 1912 iniciou a investigação sistemática da psicose maníaco-depressiva, numa perspectiva psicanalítica. Posteriormente, o mesmo Abraham deu outros passos decisivos na elucidação dessa perturbação psíquica, estabelecendo em 1924 a relação existente entre essa experiência mental e a história libidinal do sujeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diferenciação &lt;br /&gt;Foi pela sua inscrição nessa tradição teórico-clínica que Melanie Klein (1882-1960) estabeleceu a importância crucial no psiquismo do que denominou "posição depressiva", em oposição à posição esquizoparanoide, para sustentar como a posição depressiva seria fundamental para a produção simbólica e para o engendramento dos processos de subjetivação no psiquismo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa perspectiva, é preciso diferenciar devida e rigorosamente as depressões -que a existência produz necessariamente em todos nós- da melancolia, na medida em que essa evidencia impasses importantes na elaboração da experiência da perda. Algo da ordem do narcisismo estaria aqui em pauta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Misturar essas diferentes cartas do jogo psíquico, com o nome de depressão, é nos destinar a todos à condição de escravidão no mercado da medicalização contemporânea. O que implica, é claro, possibilitar ao sujeito a invenção de novas ferramentas simbólicas, para que possa forjar outras modalidades de subjetivação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que não é possível é nos fazer crer que não exista experiência psíquica sem perdas e delinear assim a existência humana como estando sempre marcada pelo crivo do sujeito, como se este pudesse sempre ser performaticamente vencedor. Enfim, o que a psicanálise pode nos oferecer, no que tange a isso, é a possibilidade de transformar as perdas dos indivíduos em produção simbólica e novas formas de subjetivação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;JOEL BIRMAN é psicanalista e professor da UFRJ e da UERJ&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;=======&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um caso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GABRIELA CUPANI para Folha de Sao Paulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A advogada paulista Silvana Prado, 51, não esquece seu primeiro encontro com o pânico: estava com seus pais numa loja de material esportivo quando, sem nenhum motivo aparente, começou a sentir um medo terrível. Seu coração disparou. Tentava respirar e não conseguia, faltava-lhe o ar. Começou a suar frio e a sentir tonturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela já havia experimentado, com menos intensidade, alguns desses sintomas -sempre os atribuía ao cansaço. Da mesma forma súbita como começava, o desconforto desaparecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silvana saiu da loja para respirar e decidiu ir até o carro na tentativa de espantar a sensação ruim. Com os pais preocupados, foram todos embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez de diminuir, ao chegar em casa o medo se transformou em pavor. A advogada não conseguia conversar, sentia um aperto no peito. Deitada, a sensação piorou. Com as mãos geladas, a visão embaçada e os lábios dormentes, teve certeza de que estava morrendo. Deitou no chão e esperou pelo pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A agonia durou 20 minutos e, inexplicavelmente, desapareceu. A sensação tinha sido tão devastadora que, ao final, Silvana mal conseguia andar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passados 17 anos de seu encontro com o pânico, como diz, ela ainda é capaz de se lembrar dos detalhes daquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mãe de uma adolescente na época, Silvana tinha acabado de se mudar para os Estados Unidos em função de uma transferência de trabalho do marido. Além de viver o estresse da adaptação ao novo país, ela convivia com uma tragédia recente: em dois anos havia perdido dois filhos com poucos meses de vida, vítimas de uma doença congênita rara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silvana sobreviveu àquele ataque de pânico, mas vieram muitos outros. Era sempre a mesma coisa: de repente, sem motivo nenhum, o coração disparava, sentia-se sufocada pela falta de ar, a cabeça parecia estourar, sentia náuseas, achava que estava ficando louca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crises também aconteciam à noite. "Acordava com o coração disparado e as mãos dormentes." Chegou a ter três ataques desses por dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O terror era meu companheiro constante. Depois da primeira crise, ficou o pavor de ter outra", conta. "Quanto mais medo sentia, mais fraca ficava, mais alimentava o medo e mais poderosa a crise se tornava."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crises eram tão assustadoras que ela ficou três meses sem sair de casa, com receio de sofrer um ataque na rua e de se descontrolar. "Tinha medo de ter medo. Eu, que antes era capaz de dirigir até Toronto [no Canadá], não conseguia mais ir ao supermercado", diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como havia passado por um "check-up" pouco tempo antes, a advogada sabia que não tinha problemas cardíacos. Sua médica, então, lhe receitou remédios contra depressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, há quase 20 anos, a síndrome do pânico era um enigma até para os médicos. A doença não era tão estudada nem estava tão em evidência. Poucos especialistas sabiam como diagnosticá-la e tratá-la.&lt;br /&gt;O tempo passava e Silvana não sentia melhoras. Um dia, folheando uma revista que falava da síndrome do pânico, a foto de uma mulher lhe chamou a atenção. "Me identifiquei imediatamente com a expressão de pavor de seu rosto. Ali descobri qual era meu problema."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por conta própria&lt;br /&gt;Silvana resolveu, então, buscar respostas por conta própria. Largou os remédios para depressão e começou a frequentar bibliotecas e livrarias em busca dos artigos mais recentes sobre o tema.&lt;br /&gt;"Eu tinha ouvido dizer que pânico não tinha cura e pensei: "Bem, vou ser a primeira a me curar disso". Fui criando meu tratamento de maneira intuitiva. Li sobre os benefícios da atividade física e comecei a me exercitar. Li sobre os benefícios da meditação e comecei a meditar, a respirar corretamente. A partir daí minhas leituras e estudos nunca pararam. Li tudo o que havia nos Estados Unidos sobre pânico, fiz entrevistas com especialistas e vi que meus passos estavam corretos", diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silvana também usou técnicas da terapia cognitivo-comportamental. "Comecei a prestar atenção aos meus pensamentos, a analisar o que era verdadeiro ou não, usando pensamentos lógicos para corrigir as ideias distorcidas."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim, por conta própria, que Silvana aprendeu que a síndrome do pânico pode ser desencadeada por um evento estressante, que se trata de um transtorno de ansiedade e que as crises podem ser controladas com exercícios de relaxamento e mudanças de comportamento, além dos remédios.&lt;br /&gt;"A maioria dos pacientes precisa de medicamentos, mas ela parece ter descoberto, de maneira intuitiva, estratégias para mudar pensamentos e crenças", avalia o psiquiatra Acioly Lacerda, da Universidade Federal de São Paulo. "Além disso, por se tratar de um transtorno de ansiedade, medidas que diminuam os níveis de tensão servem como coadjuvantes."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A melhora foi surpreendente. Já na primeira semana as crises noturnas sumiram. Em seis meses, o problema estava sob controle. "Mas nem todo mundo melhora sem medicamentos", enfatiza ela.&lt;br /&gt;Em 1999, de volta ao Brasil, foi convidada a dar palestras contando sua experiência. Ao perceber o interesse de pessoas que não tinham a quem recorrer, montou um grupo de autoajuda, o Apoiar, numa sala emprestada pela igreja, em Franca, no interior paulista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na primeira reunião apareceram cerca de 50 pessoas, com males como pânico, depressão e ansiedade. "Logo estávamos atendendo 600 pessoas por mês. Uma equipe de voluntários, entre acupunturistas, professores de ioga e psicólogos, trabalhavam para dar apoio a essas pessoas, ensinando técnicas de relaxamento e respiração, entre outros."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse meio tempo, lançou um livro contando sua experiência e passou a editar um jornal sobre saúde mental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após quase dez anos de atividade, em outubro do ano passado o grupo encerrou os trabalhos por falta de recursos. Atualmente, Silvana está negociando um acordo com uma empresa que vai possibilitar a retomada do trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eu me curei e isso é possível se você está disposto a dar os passos necessários em direção à recuperação", diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(11.10.2009 - FSP)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-6282326323747970117?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/6282326323747970117/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/melancolia-corporativa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6282326323747970117'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6282326323747970117'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/melancolia-corporativa.html' title='Melancolia corporativa'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-6088087724411897200</id><published>2011-10-21T18:09:00.003-07:00</published><updated>2011-10-21T18:09:48.027-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='arte'/><title type='text'>Arte</title><content type='html'>A arte oferece a possibilidade de se expressar e, desse modo, dar vazão a impulsos e inibições que não encontraríamos outro modo de exercer e superar. Não há necessidade de expressar-se logicamente, como o exige a linguagem verbal. A linguagem pictórica, não-verbal, constituída de cores, linhas, símbolos visuais, dispensa o logos para se estruturar. Por essa razão, ao mesmo tempo que serve de vazão aos impasses emocionais, permite-nos construir uma totalidade simbólica plena, bela, que nos dá alegria e autoafirmação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-6088087724411897200?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/6088087724411897200/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/arte.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6088087724411897200'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6088087724411897200'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/arte.html' title='Arte'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-8452023596093059120</id><published>2011-10-21T18:09:00.001-07:00</published><updated>2011-10-21T18:09:11.685-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='arte'/><title type='text'>O rei dos "hipsters" (gente legal parte dois)</title><content type='html'>Ronaldo Lemos - ronaldolemos09@gmail.com&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É melhor eu ir pedindo desculpas desde agora. Vou falar do trabalho de um artista bizarro e quase incompreensível. Mas pode ter certeza de que vale a pena prestar atenção. Antes, preciso explicar a palavra "hipster" (quem anda bastante pela internet já deve ter esbarrado nela). O termo se refere à nova geração de moderninhos ligados a música, moda e arte. É fácil identificar um "hipster" pelas roupas não óbvias e pelos penteados complicados. E também pelos lugares que frequentam, como galerias de arte e shows de bandas praticamente desconhecidas. No Brasil, há exemplos de "hipsters" famosos em círculos específicos, como o artista plástico Rick Castro (bit.ly/WifIX), de São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que podia ser apenas uma cultura urbana passageira gerou um dos artistas mais radicais e interessantes do nosso tempo, o americano Ryan Trecartin. Ryan é "hipster" até não poder mais. Trafega pelos redutos mais "hipsters" do mundo (como o bairro de Williamsburg, em Nova York). É sexualmente ambíguo. E é uma criatura da moda, da arte e da internet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele consegue fazer algo muito difícil: representar como o caos trazido pela rede está mudando a própria ideia de identidade, principalmente entre os jovens. O que ele faz são vídeos bizarríssimos, todos disponíveis on-line (um pedaço do vídeo chamado "I-Be Area" pode ser visto aqui: bit.ly/ X03wG). Ryan aparece junto com os amigos na pele de diversos personagens. Tudo é muito rápido, colorido e estranho. É um mundo em que os limites desaparecem, não se sabe ao certo quem é adulto ou criança, homem ou mulher, real ou virtual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ryan acerta ao enfrentar um dos desafios mais difíceis da arte de hoje, o de como representar o mundo pós-internet, com sua estética feita no YouTube, nas redes sociais e nas mensagens instantâneas. É frustrante visitar um museu ou uma bienal e ver que a maioria das obras parecem vir de outro planeta, onde a internet não existe. E Ryan dá um show ao romper com tudo isso. Assistir aos vídeos dele é como uma conexão direta da mente com a internet, sem passar pelo filtro da consciência. Vou torcer para que a próxima Bienal de São Paulo traga os trabalhos dele para o Brasil.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-8452023596093059120?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/8452023596093059120/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/o-rei-dos-hipsters-gente-legal-parte.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/8452023596093059120'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/8452023596093059120'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/o-rei-dos-hipsters-gente-legal-parte.html' title='O rei dos &quot;hipsters&quot; (gente legal parte dois)'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-2092040047638902890</id><published>2011-10-21T18:04:00.000-07:00</published><updated>2011-10-21T18:04:37.841-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='arte'/><title type='text'>Curadoria é um novo poder no sistema da arte</title><content type='html'>A multiplicação em escala global de museus, galerias, bienais, feiras e coleções -&lt;br /&gt;além, obviamente, de artistas- veio a consagrar, nas últimas décadas, a figura do curador como um novo poder no sistema da arte. É ele quem orienta a formação de acervos públicos e coleções privadas, propõe conceitos e seleciona artistas e obras para grandes mostras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A curadoria tornou-se rapidamente uma nova possibilidade de inserção no mercado para intelectuais e especialistas em arte. Um aspecto positivo desse processo é que, em tese, essas atividades tornam-se mais qualificadas. Uma das desvantagens é que em outras circunstâncias esses profissionais poderiam dedicar-se à crítica de arte -que parece cada vez menos influente e mais rarefeita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade que há no exercício da curadoria uma dimensão crítica. Ao selecionar e relacionar, o curador assume um ponto de vista e o defende em entrevistas, artigos ou textos publicados em catálogos. Mas a curadoria não pode substituir a crítica propriamente dita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poder da curadoria chegou ao ponto de moldar a própria produção de arte e ao extremo de tentar substituí-la. Para o artista Nuno Ramos, a ascensão do curador corresponde a uma fase na qual, como nunca, o discurso institucional tenta prevalecer sobre as obras de arte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em entrevista à Folha, em 2007, Nuno citou a última edição da Bienal de São Paulo, que deixou vazio um andar do pavilhão, como um símbolo dessa realidade: "Uma Bienal sem obras de arte, como a que foi divulgada com tanto alarde, é uma espécie de realização selvagem de um desejo institucional coletivo -a instituição enfim livre da arte, livre desses chatos desses artistas" &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto de Marcos Augusto Gonçalves publicado originalmente na "Folha Ilustrada" (Folha de S. Paulo) em 24 de setembro de 2009 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;=========&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thursday, January 24, 2008&lt;br /&gt;A curadoria como obra de arte - Luciano Trigo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Si hay vanguardia significa tener un amigo en el Ministerio de Cultura, estar apoyado por un crítico corrupto de la Prensa, tener el sostén de una galería multinacional y ser capaz de esgrimir públicamente imbecilidades sin la menor vergüenza"&lt;br /&gt;Eduardo Subirats&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um agente do sistema da arte, conscientemente ou não o artista bem-sucedido está empenhado na reprodução deste sistema: sintomaticamente, cada vez mais artistas acumulam as funções de curadores, galeristas e críticos, criando um novo “discurso” nestas atividades. Veja-se por exemplo, no site www.e-flux.com, o projeto The Next Documenta should be curated by an artist, no qual 29 artistas, incluindo três brasileiros, opinam sobre o assunto. Jens Hoffmann, idealizador do projeto, organizou outro parecido, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, A exposição como trabalho de arte, sugerindo que uma exposição pode ser um trabalho de arte por si só, “sem qualquer trabalho de arte”. Paulo Herkenhoff, Adriano Pedrosa, Ivo Mesquita e Iran do Espírito Santo demonstraram sensatez, defendendo a posição de que “artista faz arte, e curador curadoria”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por si só a existência dessa discussão aponta para novas relações de poder no sistema da arte, que o tornam ainda mais fechado em si mesmo e auto-referente, à medida que os papéis se confundem. Primeiro se esvazia a função do crítico, depois a do público, depois a do curador, eliminando-se o necessário atrito entre diferentes pontos de vista que servia de crivo na reflexão sobre uma exposição. Mais do que abrir caminho para ações entre amigos que excluam elementos estranhos às panelas, já que artistas-curadores passam a convidar e referendar outros artistas-curadores, este movimento reforça a auto-suficiência do sistema e sua dissociação da vida real - caminho oposto ao da fusão entre vida e arte proposto nos anos 60 e 70. O passo seguinte será perguntar se o mecenato pode ser em si uma obra de arte, mesmo sem arte, ou se os leilões podem ser em si obras de arte, mesmo sem arte, o que facilitaria ainda mais as coisas. O sistema da arte não precisaria mais convencer (ou enganar) ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Novos papéis correspondem a novas práticas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No comments, Guto Brinholi said... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caro Luciano, como sempre venho aqui pra analisar seus textos dando algum exemplo que seja mais próximo a minha realidade de músico, artista entretanto. O que você relata no texto "A curadoria como obra de arte" acontece de maneira semelhante em tantas outras áreas. No caso da música, cada vez mais os músicos são também são seus próprios produtores (não só em estúdios, muitas vezes por facilitações da tecnologia) musicais e executivos. Algumas causas para essa realidade pode m ser apontadas inclusive dentro do mercado fonográfico, que se apresenta com tantas mudanças e prejuízos por parte de grandes gravadoras principalmente com o advento de novas tecnologias como a distribuição digital por exemplo. Mas o quero pontuar aqui, justamente coisa que seu texto aponta, é a discussão que aponta aponta "para novas relações de poder no sistema da arte". Colocando artistas e curadores (ou produtores culturais) no mesmo patamar ou com as mesmas funções, o quanto de cada coisa pode ficar prejudicada por esse "acúmulo de cargos"? Quanto o artista pode passar a se preocupar com sucesso mercadológico de sua arte e esquecer-se de avaliar seus êxitos enquanto artista? Com relação a isso indico um texto de um antropólogo deveras popular, Hermano Vianna, que faz uma análise do trabalho de músicos tremendamente populares fazendo comentários pra lá de levianos sobre a falta de necessidade de qualidade na obra de arte, que a qualidade estaria associada a uma elite , blá, blá. Apesar do meu blá, blá vale a pena ler o texto, para ter uma idéia de que tipo de análise das artes e da cultura está chegando a grande massa social: http://www.overmundo.com.br/over&lt;br /&gt;blog/isso-e-calypso-ou-a-lua-nao-me-traiu Acompanhado do acúmulo de "funções" na arte hoje em dia, está uma tremenda inversão de valores no fazer e fruir da arte. Abraço, Guto Brinholi&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-2092040047638902890?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/2092040047638902890/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/curadoria-e-um-novo-poder-no-sistema-da.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/2092040047638902890'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/2092040047638902890'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/curadoria-e-um-novo-poder-no-sistema-da.html' title='Curadoria é um novo poder no sistema da arte'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-5172302479468020390</id><published>2011-10-21T18:02:00.000-07:00</published><updated>2011-10-21T18:06:19.392-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='arte'/><title type='text'>"A arte nas feiras é fraudulenta"</title><content type='html'>&lt;i&gt;"A arte nas feiras é fraudulenta", diz a crítica americana Rosalind Krauss, uma das principais estudiosas de artes visuais hoje, que condena espetacularização da obra de arte &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;Fabio Cypriano, para Folha de Sao Paulo - 0utubro/2009&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No próximo dia 15, o circuito internacional do mundo das artes migra para Londres, onde ocorre a feira de arte Frieze, considerada uma das três mais importantes do planeta, junto com Art Basel, na Suíça, e Art Basel - Miami Beach, nos EUA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com 150 expositores, cinco deles brasileiros (Fortes Vilaça, Casa Triângulo, Gentil Carioca, Luisa Strina e Vermelho), o que se vê nelas, segundo a crítica americana Rosalind Krauss é, simplesmente, uma "fraude".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eu acredito que a arte promovida nas feiras de arte internacionais é fraudulenta", escreveu à Folha Krauss, que irá abrir, no próximo dia 25, o 3º Simpósio de Arte Contemporânea do Paço das Artes. Ela ministrará a palestra "Reconfigurações no Sistema da Arte Contemporânea" (veja a programação no quadro à esq.). Ainda há vagas para o simpósio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há exatos 30 anos, Krauss, 67, publicava um dos mais célebres ensaios sobre arte contemporânea, "A Escultura no Campo Expandido", na revista "October", que ajudara a fundar, em 1976, após ter se firmado como crítica na "Artforum".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No texto, a autora apontava para uma nova forma de realização escultórica para além dos parâmetros modernistas, ruptura histórica que teria sido feita por artistas como Robert Morris, Robert Smithson, Richard Serra, Walter De Maria e Bruce Nauman, entre outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Brasil, a autora, que é professora da Universidade Columbia, em Nova York, desde 1992, tem publicado os livros "O Fotográfico", "Caminhos da Escultura Moderna" e "Papéis de Picasso".&lt;br /&gt;Sua produção mais recente, contudo, de 2004, a antologia "Art Since 1900" (arte desde 1900), realizada em conjunto com Hal Foster, Yve-Alain Bois e Benjamin Buchloh, ainda não foi traduzida. Ao rever a história da arte no século 20, o livro tem o feito inédito de acrescentar os brasileiros Hélio Oiticica e Lygia Clark como protagonistas da cena artística.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curiosamente, no entanto, Krauss não considera familiar a produção nacional: "Estou ansiosa com minha visita como uma oportunidade em conhecê-la", relatou ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na troca de e-mails com a reportagem, Krauss, que também atua como curadora, contou que a influência do mercado na produção contemporânea será o tema central de sua conferência. Condena as feiras, pois "são puro espetáculo, envolvendo o observador com uma atmosfera sedutora sem demandar atenção ou trabalho por parte do visitante para analisar a habilidade que um trabalho tem em criar significados".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As críticas da norte-americana não se restringem às feiras mas também às "instalações", como são chamadas obras imersivas, onde o público participa de forma coletiva, defendidas pela estética relacional, conceito criado pelo curador francês Nicolas Bourriaud.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Ao se mover da experiência privada de um trabalho para uma coletiva, a estética relacional simplesmente segue a análise de Marshall MacLuhan em "A Galáxia de Gutenberg", que descreve a superação da privacidade na leitura de um livro pela atividade coletiva de se assistir televisão, o que nós podemos chamar de espetáculo."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A espetacularização da arte, torna-se assim um dos temas que Krauss irá abordar no simpósio. No entanto, a crítica parafraseia Catherine David, curadora da 10ª Documenta, em Kassel, na Alemanha, para afirmar ainda que não crê "na pureza ou na oposição ontológica entre arte e mídia".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Catherine disse que busca organizar mostras como se fossem filmes, e que quem ainda acredita no "cubo branco" é ingênuo ou estúpido", destaca Krauss. O "cubo branco" é uma expressão desenvolvida pelo crítico Brian O'Dogherty para a galeria, comercial ou de um museu, representar a garantia da autonomia de uma obra de arte, ou seja, sua total separação do mundo fora dele.&lt;br /&gt;Finalmente, como alternativas oferecidas pela arte no início do século 21, Krauss conta que irá abordar o trabalho de artistas como o alemão nascido na República Tcheca Harun Farocki, o norte-americano Christian Marclay e o sul-africano William Kentridge, todos eles vinculados de certa forma ao cinema, e a francesa Sophie Calle, que recentemente mostrou sua instalação "Cuide de Você" em São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A crítica de Rosalind Krauss às feiras não é isolada. "A temporalidade apressada de uma feira de arte é fato incompatível com o tempo estendido que muitas obras requerem para comunicar seus significados. Daí a necessidade de as Bienais reafirmarem sua diferença diante das feiras, propiciando um encontro com a arte de uma ordem distinta", defende Moacir dos Anjos, curador da 29ª Bienal de São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já para Adriano Pedrosa, curador do 31º Panorama da Arte Brasileira, no MAM-SP, "as feiras de arte servem mais ao especialista -o curador, o crítico, o colecionador, que têm um olhar afiado e seletivo, e podem de fato confundir o grande público com a enorme quantidade de informações desencontradas, uma grande cacofonia".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ressalta Pedrosa, "não devemos esquecer a principal função da feira: o comércio da arte. Nesse sentido, ela não é uma fraude. A função expositiva é desempenhada pela galeria, pelo museu, pela Bienal".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernanda Feitosa, diretora da SP Arte, defende o papel das feiras: "As feiras de arte são um veículo importantíssimo de promoção de contato e diálogo de um grande público com um também grande número de galerias e artistas -ao mesmo tempo e num mesmo local. Ao promover esse encontro em maior escala, a feira cria uma oportunidade para o visitante ter contato com a produção artística do mundo todo".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para uma das organizadoras do simpósio, Daniela Bousso, "as feiras não focam a reflexão sobre a produção artística e seus procedimentos. São, porém, muito importantes para a difusão e ampliação do circuito das artes e sua circulação; cumprem um papel relevante dentro de um dado sistema econômico". (FC)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-5172302479468020390?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/5172302479468020390/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/arte-nas-feiras-e-fraudulenta.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/5172302479468020390'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/5172302479468020390'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/arte-nas-feiras-e-fraudulenta.html' title='&quot;A arte nas feiras é fraudulenta&quot;'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-5255777819265619970</id><published>2011-10-21T17:56:00.000-07:00</published><updated>2011-10-21T17:56:37.585-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto Pompeu de Toledo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='amor'/><title type='text'>Palavras no muro</title><content type='html'>Roberto Pompeu de Toledo - VEJA,17.06.2009&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor é importante, pombas. No original, não é "pombas". É um palavrão, que também começa com "po". A frase, desenhada com as letras angulosas e sem curvas dos grafiteiros, nas últimas semanas tomou conta de muros, paredes e beiradas de viadutos de São Paulo. Enfim, um grafiteiro inteligente. Ou poético, ou pungente, dependendo do estado de espírito de quem o lê. "O amor é importante, po", de autoria desconhecida, eleva o grafite paulistano da habitual indigência ao nível dos clássicos do ramo produzidos no maio de 1968 francês – "A imaginação no poder", "Seja realista: exija o impossível", "É proibido proibir".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segredo da frase é a palavrinha que começa com "po" aposta à oração principal. É o que faz que um pensamento banal adquira vísceras e atinja o leitor. "O amor é importante", sozinho, seria uma bobagem. Ocorre que o grafiteiro queria dizer exatamente isso, que o amor é importante. Encontrou um jeito de driblar o lugar-comum ao socorrer-se do palavrão. O palavrão contrapõe-se à pieguice do desabafo sentimental e o redime. A violência do expletivo chulo compensa a moleza do pensamento central. Produz-se o inesperado. E o rabisco na rua alcança o patamar da beleza literária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse mesmo fenômeno de uma expressão secundária, na frase, sobrepor-se ao principal e salvá-la encontra-se em… (em quê? em quem? …prepare-se o leitor para saltar dos clandestinos assaltos aos muros de São Paulo para os textos antológicos da literatura universal) …em Jorge Luis Borges. Não que se queira comparar o desconhecido grafiteiro com o criador do Aleph (ou melhor: é o que se quer, sim; prepare-se o leitor para o sublime encontro entre um autor anônimo, possivelmente sujo, talvez faminto, quase certamente desocupado, cuja diversão é vagar pelas ruas da cidade nas horas vazias da noite, e um dos luminares da literatura do século XX). O recurso empregado em "O amor é importante, po" é o mesmo de dois versos do poema La Luna, de Borges:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Según se sabe, esta mudable vida&lt;br /&gt;Puede, entre tantas cosas, ser muy bella".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia central, a de que a vida pode ser bela, é simplória como a de que o amor é importante. A maravilha dos versos se deve ao "segundo se sabe" com que se abrem e ao "entre tantas coisas" que precede a qualificação da vida. Eis, de novo, a mágica de componentes secundários da frase – dois, neste caso – tomarem o lugar do principal e o modificarem a ponto de conferir-lhe estatuto de obra de arte. O "segundo se sabe" prepara o espírito para algo já muito repisado, e com isso ameniza a banalidade do que virá a seguir, mas não está aí seu efeito principal. Mais relevante é que se trata de uma expressão marcadamente prosaica, frequente em peças de argumentação, aquelas em que se procura defender um ponto, como um editorial de jornal, uma tese acadêmica ou um arrazoado de advogado. Encontrá-la num poema, a escorar um luminoso momento de encantamento com a vida, produz um contraste da mesma família do palavrão sacado pelo grafiteiro para sublinhar o recado de que o amor é importante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O "entre tantas coisas" abre ao infinito o leque de feições que pode assumir a vida. Nenhuma surpresa. A vida pode ser bela, mas pode ser muitas outras coisas, feia inclusive. "Vida", como mulher fácil, pode ir com qualquer adjetivo. Mas aí que está. Se a vida pode ser também feia, trágica, cruel, frustrante e dura, além de agradável, surpreendente ou reconfortante, quando nos damos conta de que, "entre tantas coisas", ela pode também ser bela, aí sim é que se torna mais bela ainda. Se Borges tivesse apenas escrito que a vida pode ser bela, que decepção, para um escritor de sua estatura. Seria como se o grafiteiro afirmasse que o amor é importante, e ponto final. Ao escrever que a vida "puede, entre tantas cosas, ser muy bella", ele a torna extraordinariamente bela, ofuscantemente bela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a frase do grafiteiro é digna de Borges, como aqui se procurou demonstrar, a recíproca é verdadeira. Borges é também digno do grafiteiro. Não. Não dá para imaginar o argentino, spray na mão, a esgueirar-se na noite, em busca do muro mais imaculado para aplicar sua marca, isso não. Mesmo porque enxergava mal e podia acidentar-se. Mas dá para imaginar o "Según se sabe, esta mudable vida…" aplicado a um muro, uma parede, uma beirada de viaduto. O efeito seria o mesmo do "O amor é importante, po". O de uma pausa, uma surpresa e um renovador respiro, em meio à selva da cidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-5255777819265619970?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/5255777819265619970/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/palavras-no-muro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/5255777819265619970'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/5255777819265619970'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/palavras-no-muro.html' title='Palavras no muro'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-3302245222250187765</id><published>2011-10-21T17:48:00.001-07:00</published><updated>2011-10-21T17:53:47.226-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='arte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jorge Coli'/><title type='text'>A feira das ilusões // Coisas e Loisas</title><content type='html'>A feira das ilusoes&lt;br /&gt;Caderno Mais!, FSP – 24.05.2009&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mercado das artes é bom ou é ruim? Há uma resposta ética possível. Data do século 19, quando a galeria substitui o comprador direto ou o mecenas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em pleno romantismo, a ideia do gênio incompreendido paira com nobreza. O sucesso comercial é percebido com desconfiança. Acredita-se então que a arte esteja acima do gosto comum, ao qual toda concessão por parte do artista se torna um crime. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As vanguardas sublinharam essa convicção, que a história também reforçou. A arte de desprezados terminou por triunfar, numa lição tanto moral quanto estética. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pureza da criação artística, que não se suja com baixas razões materiais, torna-se a quintessência de uma santificação pautada pelo rigor: entre os seus vários e tremendos anátemas, André Breton excomunga Artaud por ter aceito uma encomenda paga. Nobre posição heroica exigida dos criadores, ela articula-se, porém, graças a mecanismos invisíveis, à vil máquina do mercado, cujo combustível é a flutuação do gosto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sucesso das vanguardas fez certos autores passarem, em algumas décadas, do zero às dezenas de milhões em moeda forte: o caso de Van Gogh é exemplar. Elas, as vanguardas, "esquentaram", como se diz nas Bolsas de Valores, o mercado das artes graças a lucros vertiginosos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está claro, esse mesmo mercado tenta recriar, artificialmente, situações semelhantes que o levem a ganhar muito dinheiro. A obra mostra-se parecida com uma ação na Bolsa de Valores: apenas ela é concreta, bonita, pode dar prazer. Ou, às vezes, nem isso: alguns colecionadores possuem "carteiras" de arte guardadas em bancos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Blue chips" &lt;br /&gt;Os termos da mesma pergunta podem ser tomados de um ângulo prático: o mercado das artes seria benéfico ou prejudicial para a criação do artista? A resposta vai mais longe: sem o mercado, as artes plásticas não existiriam hoje. O mercado é a sua biosfera artística. Bom ou ruim, é o único modo, em nossa sociedade, dentro do qual um criador se torna profissional. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estímulos oficiais são importantes. Dão oportunidades a quem começa; organizam mostras originais e arriscadas, bancam a formação de jovens, ou deveriam fazê-lo. Não que o Estado substitua o mercado nem tem ele instrumentos para tanto. É, ou deveria ser, um regulador cultural no sentido de compensar as falhas daquilo que é um comércio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caso contrário, as obras de arte milionárias e chiques passam a depender apenas de milionários que querem ser chiques, como acontece no Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre nós, a diminuta participação dos poderes públicos e a grande festa das leis de incentivo fazem com que os ricaços se assenhoreiem tanto do mercado quanto das instituições. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aplicações &lt;br /&gt;A Feira de Arte do Ibirapuera, em São Paulo [SP Arte, que ocorreu de 14 a 17/5], tem uma atmosfera elegante e cordial de gente fina. Há muitos artistas brasileiros do século 20. São Ismael Neris, Pancettis, Guignards, Di Cavalcantis. Tantos, que por vezes a pulga fica atrás da orelha. Há belas obras também, e recentes, e internacionais. Os preços são estratosféricos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valores &lt;br /&gt;Um dos aspectos mais simpáticos na SP Arte são os estandes, embora em número reduzido, voltados para criadores em começo de carreira. Galerias discretas, com preços modestos, às vezes ínfimos, propõem ótimas descobertas, apostando em desconhecidos. &lt;br /&gt;O colecionador de recursos parcos leva para casa, sem esnobismo nem especulação, uma obra que lhe trará prazer genuíno, com a qual ele passará a compartilhar sua existência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisas e loisas&lt;br /&gt;Folha Mais! - São Paulo, domingo, 04 de outubro de 2009&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns leitores escreveram para esta coluna sobre a relação entre arte e mercado, que foi lembrada, aqui mesmo, no domingo passado. Um deles interessou-se pela ideia de que a arte não produz objetos, mas produz sujeitos que pensam sem palavras. Diz assim: "Ao mesmo tempo que concordo, discordo. Acho que as "coisas físicas" produzidas, que costumamos chamar de arte, têm sua mágica, seu fetiche enquanto coisas". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O leitor tem razão em sua reticência, porque faltou dizer que objeto, naquele caso, não é um sinônimo de coisa. Significa algo posto para, e pelo, sujeito. Seria, por assim dizer, uma "coisa" submissa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, a obra de arte, como ele diz, tem sua mágica. Por isso, age como sujeito ao operar seus milagres. O despacho numa encruzilhada é um agente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele atua. Não é um ser passivo. É um sujeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A proximidade com as crenças mágicas ou religiosas permite compreender bastante "aquilo que costumamos chamar de arte". Arte, tal como a concebemos hoje, é, exatamente, aquilo que costumamos chamar de arte. Qualquer outro critério, além da própria denominação, é insuficiente. Beleza, sensibilidade, expressão e mais o que se quiser, nada disso oferece um campo vasto o suficiente para recobrir tudo o que nossa cultura entende por arte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcel Duchamp, nas primeiras décadas do século 20, determinou isso por meio de seus "ready-mades": se ficarmos convencidos de que uma roda de bicicleta, exposta numa galeria ou num museu, é arte, ela passa a ser arte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Condão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se trata de impostura. A palavra "arte" adquiriu poderes reais. É um abracadabra que funciona. Metamorfoseia a caixa de sabão Brillo, ou a roda de bicicleta. Elas passam a emitir sinais, significações, intuições, que antes não tinham. No mundo dos objetos comuns, eram mudos. Depois que viraram arte, falam uma linguagem, silente e intensa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A razão é que se sacralizaram pela nossa crença: como acreditamos neles, eles nos respondem. São entes cheios de poderes invisíveis, mas laicos, desvinculados de qualquer religião ou sobrenatural. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mais prodigiosa das pinturas é apenas um pouco de tinta sobre uma tela; Van Gogh escreveu alguma coisa assim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco depois de sua morte, um quadro seu foi descoberto numa casa de Saint-Rémy [França], tapando o buraco de um galinheiro. As galinhas não sentiam frio e aquilo, ali, não era arte, de modo algum. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mandrake &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem decide que uma pintura, uma escultura, um copo d'água é arte? O artista, se tem algum reconhecimento, ou seja, se alguém acreditar que ele possui esse poder transformador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O crítico, que celebra e convence, ou que despreza e condena (a fórmula negativa mais forte, a única que de fato anula o feitiço, se alguém acreditar nela, está claro, é: "Isso não é arte". Muito usada, em escritos e em conversas, de preferência num tom de superioridade, por críticos seguros de si, contentes de vestirem a casaca e a cartola do mágico). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As galerias, os museus, que aceitam tal ou qual obra e recusam outras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mercado, que gradua seus valores segundo a intensidade das crenças. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cerne &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria leviano duvidar dos poderes da arte. Comovem, fascinam, despertam desejo de posse: muitos colecionadores arruinaram-se por não resistirem ao canto da sereia. O roubo de grandes obras conhecidas, que não podem ser vendidas, mostra que a arte pode causar desatinos. Mas, por felicidade, ela também conduz a grandes, elevados prazeres, a formas sutis e profundas de inteligência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Jorge Coli para Folha de Sao Paulo)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-3302245222250187765?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/3302245222250187765/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/feira-das-ilusoes-jorge-coli.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3302245222250187765'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3302245222250187765'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/feira-das-ilusoes-jorge-coli.html' title='A feira das ilusões // Coisas e Loisas'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-6766846741695781691</id><published>2011-10-21T17:47:00.000-07:00</published><updated>2011-10-21T17:47:04.424-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='arte'/><title type='text'>Ai! Weiwei</title><content type='html'>RAUL JUSTE LORES, DE PEQUIM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ativismo político do mais famoso artista da China foi parar nesta semana em uma sala de cirurgia na Alemanha.&lt;br /&gt;Um mês após apanhar da polícia chinesa em um protesto e sofrendo dores de cabeça, Ai Weiwei, 52, precisou da intervenção do bisturi para conter um sangramento interno.&lt;br /&gt;Ai lançou uma campanha para dar nome às crianças vítimas do terremoto do ano passado em seu país, depois que o governo abafou o escândalo das "escolas de areia".&lt;br /&gt;Morreram em escolas de construção precária 5.535 crianças.&lt;br /&gt;O governo calou o protesto dos pais das vítimas, que foi encampado pelo artista. Seu popular blog foi bloqueado em maio. No Twitter, também bloqueado na China, ele postou fotos pré e pós-cirurgia, feita em Munique.&lt;br /&gt;O aumento do confronto verbal e físico entre Ai e as autoridades chinesas coincide com o auge do reconhecimento de sua obra. Ele foi para a Alemanha abrir a exposição "So Sorry" (sinto muito).&lt;br /&gt;Até novembro, a maior retrospectiva de sua obra está em cartaz no museu Mori, de Tóquio, com 26 trabalhos desenvolvidos entre 1994 e 2009. A exposição apresenta os interesses múltiplos de Ai, da instalação e fotografia à provocação política e arquitetura.&lt;br /&gt;Ai é conhecido por ter participado na concepção do Estádio Olímpico de Pequim, convidado pelos arquitetos suíços Herzog e De Meuron, o chamado "Ninho de Pássaro".&lt;br /&gt;De sua prancheta saíram mais de 50 construções, entre edifícios comerciais, residências, restaurantes e até uma vila de ateliês para amigos artistas, no bairro de Caochangdi, em Pequim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Serpente e fadas&lt;br /&gt;Em Tóquio, sua obra mais recente é uma longa serpente formada por centenas de mochilas escolares e que dá voltas pelo teto do museu.&lt;br /&gt;"Depois do terremoto, havia milhares de mochilas espalhadas, única lembrança das crianças. E a serpente, para os chineses, sempre indica o perigo que está à espreita", disse Ai para a Folha na semana passada, quando já se queixava de dores de cabeça.&lt;br /&gt;Sua grande retrospectiva em Tóquio, visitada pela reportagem, também apresenta vídeos e fotos da performance que fez na Documenta de Kassel, em 2007. Em "Conto de Fadas", ele levou 1.001 chineses que nunca tinham viajado ao exterior para o evento artístico na Alemanha, acompanhados de 1.001 cadeiras no estilo da dinastia Qing.&lt;br /&gt;"Ocidente e Oriente precisam se encontrar, com o medo e a curiosidade que isso implica", diz. "Acho que os participantes acham que aquela pequena cidade encantada alemã é o Ocidente. Voltaram mais confusos, o que é bom para a imaginação e a fantasia", brinca o artista.&lt;br /&gt;As galerias da pequena Kassel tiveram seus dias de superpopulação com 1.001 chineses de um lado para outro.&lt;br /&gt;Várias obras tratam da nova China. Duas grandes tigelas estão recheadas de pérolas cultivadas, como por venda a quilo. "O luxo, quando em excesso, fica banal", diz. "A China de hoje é obcecada em ficar rica e o Partido Comunista está cheio de corruptos, que não sabem como gastar", diz.&lt;br /&gt;Dificilmente a exposição será apresentada em Pequim. "Para a censura chinesa, arte só cabe se for propaganda ou inofensiva", diz. "Mas sou otimista, algum dia vou exibir aqui."&lt;br /&gt;Ele não se empolga com os 60 anos da chegada do comunismo ao poder, que serão comemorados com pompa em 1º de outubro.&lt;br /&gt;"Se eles não têm coragem de concorrer em eleições, se os burocratas estão ricos, se nosso povo é pobre, não há o que comemorar. Deveria ser tempo de silêncio, de reflexão."&lt;br /&gt;Ai só celebra o fim da bolha da inflacionada arte chinesa, graças à crise econômica internacional. "O mundo da arte como um todo precisava dessa chacoalhada. É uma lição para novos comportamentos; tomara que não só na arte."&lt;br /&gt;No Twitter, ele disse ontem que vai se recuperar logo. "Sou um artista bem-sucedido, posso me tratar bem. Milhões recebem o mesmo tratamento da polícia, mas sofrerão essas dores pelo resto da vida."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arte e política inseparáveis&lt;br /&gt;MARIO CESAR CARVALHO&lt;br /&gt;s DA REPORTAGEM LOCAL &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai Weiwei tem uma concepção muito particular do que é ser artista. "Acho que todo artista é um ativista e um bom ativista pode ser um artista", disse no mês passado.&lt;br /&gt;No caso de Ai, a definição não é um jogo de palavras. Arte e política -especialmente a política de terra arrasada da ditadura chinesa em relação à tradição- são polos inseparáveis de sua obra. A graça do trabalho dele é que a política não elimina as leituras infinitas da obra, não é o panfleto de um sentido só.&lt;br /&gt;A história pessoal de Ai talvez ajude a entender essa concepção de arte. Quando era criança, seu pai, um dos grandes poetas da China moderna, foi mandado para o interior para limpar latrinas -era um castigo que visava reeducar a família "burguesa", nos tempos da Revolução Cultural (1966-1976).&lt;br /&gt;Após cursar cinema em Pequim, Ai conseguiu uma bolsa para estudar na Parson's School de Nova York no início dos anos 1980, quando a cidade fervia com novos artistas, bandas punks e new wave e toda a arte conceitual dos anos 60 estava ao alcance das mãos.&lt;br /&gt;Não é por acaso que um dos trabalhos de Ai cite frases de Marcel Duchamp, o artista que redefiniu a arte no século 20 ao transformar objetos ordinários em arte, e de Mao Tse-tung, o ditador que tirou a China da Idade Média.&lt;br /&gt;É com esse mundo díspar, que equilibra Duchamp e Mao, que Ai faz o seu acerto de contas particular. Vem daí, talvez, o peso dramático de alguns dos seus trabalhos -e drama era tudo que a arte conceitual e o dadaísmo queriam matar. Ele faz trabalhos com mochilas de crianças mortas num terremoto, com madeira de templos budistas de mil anos que foram demolidos por ordem do Partido Comunista, com pés de imagens budistas destruídas. Usa tijolos de casas do século 14 que foram derrubadas em Pequim no ano passado para a cidade abrigar a Olimpíada 2008.&lt;br /&gt;Para quem estava acostumado a uma certa assepsia da arte conceitual, é uma porrada. Para quem acha que assuntos mundanos e de interesse imediato não deveriam ser tratados pela arte, é um lembrete de que tudo pode ser arte; só depende da ação do artista.&lt;br /&gt;O rigor formal é uma das estratégias que Ai usa para fugir do panfleto. Tudo é muito simples, mas quase nada é de entendimento imediato.&lt;br /&gt;A faceta ativista de Ai não se restringe à arte. Ele cutuca o autoritarismo chinês em seu blog, no Twitter, em exposições que age como curador ou ao criar um bairro de artistas independentes em Pequim. Quando o governo chinês bloqueou seu blog, ele se recusou a continuar a fazê-lo nos EUA. Queria falar com os chineses. É por isso que virou um dos mais fortes candidatos ao exílio. A China não tolera dissidentes com seguidores.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-6766846741695781691?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/6766846741695781691/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/ai-weiwei.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6766846741695781691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6766846741695781691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/10/ai-weiwei.html' title='Ai! Weiwei'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-7523141849226378522</id><published>2011-05-27T14:38:00.000-07:00</published><updated>2011-05-27T14:38:39.915-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cultura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Luiz Felipe Ponde'/><title type='text'>Fetiche intelectual</title><content type='html'>Folha de São Paulo, 09 de maio de 2011 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HÁ DUAS semanas ("A burca", Ilustrada, 25/4), eu disse que era a favor da lei francesa contra a burca (que muita gente confunde com o véu, que não é proibido na França). Aliás, com aquele véu, a mulher mulçumana parece uma Afrodite em versão corânica. Uma deusa de sensualidade. Andam pelas ruas juntas, como um vento que varre nossos olhos com seus olhos. São a prova viva de que a invisibilidade da forma do corpo (ou a visibilidade apenas pressentida) é muito mais sensual do que a obscena explicitação da forma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um mar de e-mails e protestos contra a minha "intolerância com o outro". Obrigado.&lt;br /&gt;Mas adianto: de todos os argumentos dos tranquilos defensores do "direito à burca" (acho a expressão engraçada por si só), um me parece o mais absurdo. Já vou dizer qual é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo àqueles que discursam a favor da burca desde seus apartamentos com TV a cabo, de seus cursos de história da arte, de seus direitos de ir e vir e praticar sexo sadomasô, se assim o quiser, enfim, da condição de adorar Elvis, ETs, o nada, a mãe-natureza (pra mim está mais pra madrasta) ou seu próprio e pequeno "eu", que não acredito que nenhuma mulher use uma burca porque "quer".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O argumento mais absurdo é "as mulheres usam a burca porque querem". Não acredito nesse papinho multiculturalista. O argumento "fulana nasceu na cultura X, a cultura X implica Y, logo fulana quer Y" é um sofisma barato. Quer ver?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que um desses assinantes de TV a cabo, defensores do "direito à burca" provavelmente defenderia hoje o direito a "ser escravo" na medida em que "alguém foi acostumado pela cultura a isso". Será?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que tal a "lapidação" (corte ritual do clitóris) que alguns praticam por aí? Também algo que devemos "achar objeto do direito da cultura". Azar de quem nasceu num lugar desses?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O debate contemporâneo é como uma guerra de trincheiras. Ninguém consegue ver muito longe, não existe mais nenhuma teoria grandiosa e definitiva, mas nem por isso é menos sangrento e sério. De minha parte, não tenho dúvida de qual lado da trincheira estou: daquele contra o fundamentalismo religioso seja qual ele for.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fundamentalismo não é a mesma coisa que terrorismo islâmico (que alguns dizem que está acabando...). Muitas vezes o fundamentalismo é silencioso e invisível em seus modos de tortura. Fundamentalismo religioso é uma forma de reação aos "costumes modernos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos dias seguintes a esse meu texto sobre a burca, uma mulher me abordou contando o seguinte.&lt;br /&gt;Em férias num país de maioria mulçumana, ela vira lado a lado uma alemã de férias com um shortinho desses de parar o trânsito e uma mulher com uma dessas burcas de mau gosto (o "de mau gosto" é por minha conta, ou melhor, minha culpa, minha máxima culpa).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso seria índice de como as "culturas" são diferentes. Uso as aspas aqui para a palavra "culturas" porque "cultura" virou um segundo grande fetiche da burguesia (o primeiro, segundo Theodor Adorno, seria a ciência). A inteligência burguesa blasé gosta de citar a "cultura" como prova de sua "generosa aceitação do outro" e de ausência de preconceitos. Quem diz que não tem preconceito é mentiroso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A questão, caros defensores do "direito à burca", é que, no mundo do fundamentalismo religioso (e tem gente que acha que não existe fundamentalismo religioso...), a menina alemã não teria o direito de usar seu shortinho que para o transito. Ela também teria que usar a burca (claro, mas ela aceitaria porque afinal, a "cultura" a faria aceitar, ou a sua filha, no futuro).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A burca é o fundamentalismo religioso. Só cego não vê isso. Os talibãs (essa gente democrática, doce e respeitadora do "outro") adoravam as burcas e, de certa forma, a "inventaram".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esses relativistas assinantes de TV a cabo, na realidade, são como gente de 18 anos que diz para o professor "cada um é cada um" a fim de que ele pare de encher o saco com perguntas difíceis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, o segredo de dizer "é a cultura dela", ou "cada um tem um ponto de vista", é soar chique. É posar de estar em dia com o "respeito ao outro". Puro fetiche.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-7523141849226378522?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/7523141849226378522/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/05/fetiche-intelectual.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/7523141849226378522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/7523141849226378522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/05/fetiche-intelectual.html' title='Fetiche intelectual'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-4138782541937332852</id><published>2011-05-27T14:36:00.000-07:00</published><updated>2011-05-27T14:36:26.737-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ricardo Semler'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Educacao'/><title type='text'>Professores são obsoletos</title><content type='html'>Ricardo Semler - FSP 09.05.11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Westinghouse era um gigante nos anos 20. Numa fábrica com 12 mil funcionários, conduziram uma experiência seminal. Aumentaram a iluminação e a produtividade aumentou. Depois, voltaram ao que era. A produtividade aumentou mais! Esse experimento provou que a intervenção gera mudanças temporárias, e não difere dos empresários que intervêm em escolas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No começo a diretora faz cursos de gestão, aparecem computadores e reciclagem para professores. Com o tempo, tudo volta ao que era. E os valores que são colocados nessas escolas "mexidas" tornariam o orçamento da rede publica inviável, portanto, são artificiais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas boas entidades, Instituto Ayrton Senna e Todos Pela Educação colocaram pesquisadores para achar o denominador comum de centenas de estudos sobre melhorias na sala de aula -o resultado, logicamente, não passa de um conjunto de platitudes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São quatro as conclusões: um, o professor tem que ser bom. Os 20% melhores ensinam mais do que os 20% piores. Ué... Segundo, que turmas menores aprendem mais -ou seja, não é bom ter 48 alunos na classe. Certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terceiro, que é melhor que a turma seja homogênea -se for para aprender mais matemática e português-, mas seria melhor que fosse heterogênea -se for para outras matérias. Ops...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quarto, que alunos aprendem mais se houver mais aulas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hmmm... Sei que faço uma caricatura, mas não difere disso. A culpa não é dos empresários -têm boas intenções-, mas cabe lembrar que 92,3% das empresas quebram ou são vendidas a cada 20 anos, o que sugere que o empresário tem dificuldade de entender do seu próprio métier, quem dirá educação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que empresários escolheriam um professor de sociologia, depois um torneiro mecânico e por fim uma guerrilheira para comandar o país?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teriam acertado na mosca, o país nunca andou tão para a frente.&lt;br /&gt;Perguntei, numa palestra em Londres para 59 ministros de Educação: por que as férias são tão compridas no verão? Nem um deles sabia -é assim porque as escolas eram rurais, e os pais precisavam da criançada para ajudar na colheita, por dois meses. É assim até hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhorias marginais na escola são como motor novo e pintura metálica num Fusca 77.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O papel do professor está obsoletado. Pede-se demais: que entenda de uma matéria, mas cruze com outras; que saiba manter 39 meninos quietos; que lide com as sacanagens da carreira, com diretoras ranzinzas e pais perdidos; e ainda aprendam tudo sobre bullying e "bullshit".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os investimentos e estudos deveriam ir para formatos novos, com professores virando os tutores esclarecidos da paideia grega e chamando à escola os milhões de recém-formados e aposentados que poderiam partilhar suas paixões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficar tirando a média de um conceito medíocre é inócuo. Correr atrás de resultados melhores no Pisa parece avanço, mas não passa de uma polida no capô do Fusca.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-4138782541937332852?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/4138782541937332852/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/05/professores-sao-obsoletos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/4138782541937332852'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/4138782541937332852'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/05/professores-sao-obsoletos.html' title='Professores são obsoletos'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-3114350427647304969</id><published>2011-05-27T14:34:00.000-07:00</published><updated>2011-05-27T14:34:49.142-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='neurociencia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Educacao'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='SuzanaHH'/><title type='text'>De improviso</title><content type='html'>Suzana Herculano-Houzel&lt;br /&gt;Folha de São Paulo, 10 de maio de 2011 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive O privilégio, dias atrás, de assistir a um concerto de improviso do mestre da arte: Keith Jarret. O homem senta-se ao piano, contempla o teclado por alguns instantes... E algo inédito sai de seu cérebro, em ligação direta com o piano. Como?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Improvisos não saem do nada: é preciso anos de treino e muito conhecimento musical para que algo fascinante e harmonioso saia a cada vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, tocar com destreza e boa interpretação não basta para improvisar. Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, a neurociência já tem uma resposta. Não é porque a criatividade exija a ativação de alguma outra parte não treinada do cérebro; pelo contrário, a criatividade depende das mesmas regiões que são responsáveis pelos sentidos, pela memória, pelo reconhecimento de padrões ""mas atuando de formas diferentes, inusitadas, livres do autocontrole que aprendemos a exercer o tempo todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram pianistas de jazz tocando de improviso dentro de um aparelho de ressonância magnética funcional que deixaram seu cérebro revelar o truque: abrir mão de controlar a si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em comparação à execução de peças memorizadas, durante o improviso há uma grande redução da atividade de uma região extensa do córtex pré-frontal lateral, que normalmente se encarrega de supervisionar nossas ações, monitorando e controlando o resto do cérebro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As porções sensório-motoras do córtex continuam funcionando, claro, acompanhando a música e gerando as próximas notas, enquanto aumenta bastante a ativação do polo frontal do cérebro, responsável por nossa personalidade e história pessoal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz sentido. Afinal, a improvisação é uma expressão altamente pessoal, emocional e livre da história do músico que toca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Improvisar, então, é associar de maneira livre do controle pré-frontal: é deixar o cérebro encontrar melodias de acordo com suas memórias, valores e emoções, sem o cerceamento pré-frontal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprender a improvisar, portanto, é aprender a deixar inertes os ímpetos controladores do córtex pré-frontal, enquanto o resto do cérebro cria com suas associações correndo soltas, naquele estado de "flow" em que a gente se descobre espectador das próprias ações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por essa razão, improvisar em público é "nível 2", que exige também ignorar o córtex pré-frontal dos outros e o seu julgamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dica para aprender a improvisar, portanto, é começar sozinho, sem ninguém olhando. De preferência, nem você mesmo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, é professora da UFRJ e autora de "Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor" (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-3114350427647304969?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/3114350427647304969/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/05/de-improviso.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3114350427647304969'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3114350427647304969'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/05/de-improviso.html' title='De improviso'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-6489149245101530780</id><published>2011-05-27T14:32:00.000-07:00</published><updated>2011-05-27T14:34:39.445-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='neurociencia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Educacao'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='SuzanaHH'/><title type='text'>O lugar da coragem</title><content type='html'>Suzana Herculano-Houzel&lt;br /&gt;FSP - 26.04.2011&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SENTIR MEDO é fundamental. É ele que nos protege dos perigos mais variados, de perder dinheiro ou falar besteira em público ao maior de todos os riscos: perder a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Justamente por nos manter a uma distância considerada segura, o medo pode ser paralisante -o que nem sempre é bom. Que policial enfrentaria um assassino em ação se fosse dominado pelo medo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A capacidade de vencer o medo é o que chamamos de coragem. Corajoso não é quem não sente medo diante do perigo, e sim quem consegue superar seu medo e agir apesar dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a coragem acontece no cérebro? Um estudo da equipe do neurocientista Yadin Dudai, do Instituto Weizmann, mostrou que ela envolve a capacidade de o cérebro conseguir, por meio da ativação de uma estrutura específica, separar a sensação subjetiva de medo da sua expressão objetiva no corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dudai e sua equipe convidaram voluntários saudáveis a fazer o possível para superar um medo comum entre humanos: o de cobras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitados em um aparelho de ressonância magnética, os voluntários escolhiam, em poucos segundos, afastar ou aproximar cada vez mais de sua cabeça uma cobra de um metro e meio, viva (não peçonhenta, claro), pousada sobre uma esteira rolante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exceto em voluntários habituados a manusear cobras, a aproximação do réptil aumentava tanto a sensação subjetiva de medo quanto a produção de suor, uma medida da expressão corporal do medo -e aumentava também o esforço necessário para decidir aproximar a cobra mais uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aqui surgia a diferença entre os que sucumbiam ao medo e os que o superavam: a atividade no córtex subgenual, envolvido no controle cognitivo das emoções, que se tornava cada vez mais forte durante o período de decisão nos que logo escolhiam avançar assim mesmo, mas não se sustentava nos que acabavam recuando a seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo com a sensação de medo cada vez maior, o córtex subgenual é capaz de controlar sua expressão no corpo, deixando-o mais calmo -o que deve contribuir para a decisão corajosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corajoso, portanto, é quem consegue encontrar uma razão interna forte o suficiente para sustentar a ativação do córtex subgenual e superar seu medo, suprimindo a tendência automática a recuar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo assim, fica uma dica para quem deseja ficar mais corajoso: praticar meditação, que deixa seu córtex subgenual mais ativo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, é professora da UFRJ e autora de "Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor" (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-6489149245101530780?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/6489149245101530780/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/05/o-lugar-da-coragem.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6489149245101530780'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6489149245101530780'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/05/o-lugar-da-coragem.html' title='O lugar da coragem'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-7363457038002684124</id><published>2011-05-10T15:50:00.001-07:00</published><updated>2011-05-10T15:50:27.930-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Brasil'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cidadania'/><title type='text'>Quem ama a classe média?</title><content type='html'>Maria Inês Dolci para Folha de São Paulo, 02 de maio de 2011 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TODOS AMAM a classe média brasileira -a mais antiga e a ascendente. Todos querem seu dinheiro, seu consumo, seus votos.&lt;br /&gt;Os políticos falam em nome dela, mas não tocam em temas urgentes, mas sempre esquecidos, como a necessidade de uma reforma tributária e fiscal. Ou em favor dos direitos dos consumidores.&lt;br /&gt;As empresas fazem suas campanhas de marketing, de vendas, suas ações de responsabilidade social (reais ou aparentes) para esses brasileiros que têm poder de consumo de razoável, a maioria, para bom, a minoria. Ninguém ouve a classe média, contudo -exceto em levantamentos para definir um novo produto ou um novo serviço.&lt;br /&gt;É interessante que quem pague as contas, todas elas, seja tratado como se fosse invisível.&lt;br /&gt;A classe média começa a colocar a mão no bolso antes de nascer, por intermédio dos pais e das mães. Pois se eles não tiverem como arcar com as mensalidades de um plano de saúde privado, as mães sofrerão em filas para marcar consultas, exames e outros procedimentos.&lt;br /&gt;Nascer é caro, e depende de bons hospitais e médicos de qualidade. &lt;br /&gt;Isso tem custo, que é pago, no mínimo, duas vezes: nos impostos que não garantem um bom sistema público de saúde e na contratação de planos particulares.&lt;br /&gt;Pode-se alegar que as empresas bancam a maior parte da saúde suplementar para seus funcionários, mas isso volta, de alguma maneira, nos preços de produtos e serviços.&lt;br /&gt;O jovem com alguma renda familiar é espoliado até na diversão, se gostar, por exemplo, de um simples jogo de videogame. Os tributos incidentes sobre esses produtos mais do que duplicam seus preços.&lt;br /&gt;Também não é muito fácil exercer o direito de ir e vir em grandes cidades, pois o transporte público é ruim, desconfortável e lotado. Os veículos particulares rodam em ruas, avenidas e estradas esburacadas, pagam pedágios caros e sofrem nas mãos dos produtores de álcool, que decidem fabricar açúcar em vez do combustível porque o mercado externo tem forte demanda.&lt;br /&gt;Os preços da gasolina beiram os R$ 3 por litro, e os do álcool não estão muito distantes disso.&lt;br /&gt;Namorar não é das atividades mais baratas, porque o lazer é caro nos shopping centers da vida. Mas casar, bem, isso sim exige dinheiro e paciência com os preparativos e a qualidade oscilante dos serviços.&lt;br /&gt;O pacote completo -documentos, cerimônia religiosa e festa- consome milhares de reais.&lt;br /&gt;Justamente quando o novo casal necessita de uma moradia, própria ou alugada. Há mais crédito habitacional, mas as taxas se somam em desfavor dos jovens. Muita papelada, gastos e mais gastos.&lt;br /&gt;Ao longo de sua vida, os consumidores de classe média pagarão as contas de energia elétrica, de telefonia fixa e móvel, de acesso à banda larga e de TV por assinatura das mais salgadas do mundo. &lt;br /&gt;Terão de fazer seguros automotivos, de vida e contribuir para a aposentadoria complementar -se puderem, evidentemente.&lt;br /&gt;Dificilmente conseguem receber, contudo, quando fazem jus aos seguros que fizeram.&lt;br /&gt;Todos estão de olho na classe média, então, mas ninguém faz nada por ela. Quando se afirma algo assim, nos acusam de defender quem já tem privilégios. Quais são as vantagens desses brasileiros?&lt;br /&gt;Estudar muito, lutar por uma vaga no mercado de trabalho, pagar toneladas de tributos e não receber serviços públicos de qualidade? Não ter segurança em casa nem nas ruas, para eles, para suas famílias e para seus bens?&lt;br /&gt;O capítulo final das vidas também é movido a muito dinheiro. Funerárias já contam com planos especiais, com mensalidades pagas durante a vida, para bancar a última viagem. &lt;br /&gt;Se as agências reguladoras funcionassem bem e equilibrassem o jogo empresas-consumidores, a trajetória aqui descrita seria menos sofrida. Se a Justiça fosse célere e enquadrasse os poderosos, também.&lt;br /&gt;Na verdade, o que a maioria ama não é a classe média, e sim o que ela conquista com trabalho e muito suor, para bancar um estado caro e ineficiente, que não consegue nem assegurar aeroportos e estádios para uma Copa do Mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARIA INÊS DOLCI, 56, advogada formada pela USP com especialização em business, é especialista em direito do consumidor e coordenadora institucional da ProTeste Associação de Consumidores. Escreve quinzenalmente, às segundas, nesta coluna. Internet: mariainesdolci.folha.blog.uol.com.br&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-7363457038002684124?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/7363457038002684124/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/05/quem-ama-classe-media.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/7363457038002684124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/7363457038002684124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/05/quem-ama-classe-media.html' title='Quem ama a classe média?'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-3430568117472423381</id><published>2011-04-17T09:46:00.001-07:00</published><updated>2011-04-17T09:46:46.010-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Brasil'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sexualidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cidadania'/><title type='text'>Quem tem medo da promiscuidade</title><content type='html'>Joel Rufino dos Santos - O Estado de S.Paulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os últimos dias foram pródigos em acontecimentos parecidos: agressões a gays, chacina de crianças em escola, ataques verbais a negros, uma surpreendente novela num dos maiores canais de televisão sobre os porões da ditadura... Deveríamos pensar esses fatos como um conjunto inteligível da sociedade brasileira atual? Deveríamos separá-los por planos - o plano político, o moral, o psíquico, o histórico, e assim por diante? Ou haverá um plano anterior em que todos esses fatos se apresentem ao mesmo tempo à nossa compreensão, como fato social total? Questão teórica, dirá o leitor, não precisamos de mais uma. O problema é que sem método de pensar acabamos embriagados de fatos, caímos numa espécie de ressaca midiática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um deputado, Jair Bolsonaro, está se defendendo das acusações de racismo e homofobia. Vamos lhe dar o benefício da dúvida: ele não entendeu a pergunta da entrevistadora (o que faria se um filho seu casasse com uma negra?), e desancou a promiscuidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No plano moral, não precisamos definir promiscuidade; provavelmente somos todos contra. No plano da sexualidade, seria a falta de moral que conduz a fazer sexo com qualquer um; e provavelmente nem todos somos contra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que a promiscuidade aparece também em outro plano, o da história. É um fator de longa duração, que operou de Cabral até hoje, sem intermitência. Não fosse ela, seríamos outro país. A língua que falamos é um exemplo, resultou da promiscuidade do português com as línguas indígenas e africanas. O Estado, as academias, a escola, os manuais de redação lutaram todo o tempo para proteger o português das outras línguas. Perderam. Ficaram vestígios dessa luta inglória - o hábito de chamar as línguas africanas de dialetos, diminuindo-as; os nomes indígenas de locais paulistas, resistentes de cinco séculos às designações oficiais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A família brasileira, desde o começo, foi promíscua. A grande fazenda, o curral, as minas, as bandeiras amontoavam brancos, índios, negros e mulatos na mesma casa, nas mesmas canoas e redes, de dia e de noite. A unidade de produção coincidia com a unidade familiar: onde se trabalhava era onde se comia e onde se amava (e/ou odiava). Essa coincidência ajuda a explicar nossa miscigenação. Somos patriarcais, etc., porque fomos promíscuos. Parece estar aí um significado da homofobia e negrofobia brasileiras: conter a promiscuidade. A Ordem sempre a combateu com sermões, conselhos e leis. Inventou, certa época, termos jurídicos: inversão, para homossexualidade; cromoinversão, para casamentos inter-raciais. Deus livrasse delas nossa família. Não livrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Detestar pretos e homossexuais é um livre-arbítrio; há quem os deteste até por motivo religioso. No plano político, o da luta pelo poder, ocorre de o negrófobo ser quase sempre homófobo. Negros e homossexuais são avatares da promiscuidade que nos ameaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A promiscuidade criou a patuleia. Se esta se mantivesse no seu lugar, nenhum problema. Não houve racismo durante a escravidão: não era necessário. O problema começa quando a mulataria luta para se tornar povo, não o povo retórico dos políticos, mas comunidade de sujeitos cidadãos. Nessa luta, a Ordem apresentou suas armas. A primeira foi classificar a promiscuidade como problema moral/sexual, recalcando o plano histórico em que, afinal, todo fato também ocorre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mais duradoura e eficaz dessas armas é a tortura. O senso comum vê o torturador como um desviante moral/sexual, mas essa não é sua característica principal. Politicamente, a tortura visa a impedir a transformação da mulataria em povo. Espancar a criança para não virar viado (transviado, invertido), por exemplo, é obrigação do pai. Se este falhar, que entre a lei e a polícia, com seu arsenal de palmatórias e choques.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa é essa pedagogia coerentemente defendida pelo deputado Bolsonaro. O negrófobo, o homófobo e o torturador têm um fundo comum. Não no plano moral/sexual, em que os valores se combinam subjetivamente. Mas no plano histórico-social, em que se combinam objetivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JOEL RUFINO DOS SANTOS É DOUTOR EM COMUNICAÇÃO E CULTURA, ESCRITOR, HISTORIADOR, É AUTOR DE A BANHEIRA DE JANET LEIGH (ROCCO&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-3430568117472423381?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/3430568117472423381/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/quem-tem-medo-da-promiscuidade.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3430568117472423381'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3430568117472423381'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/quem-tem-medo-da-promiscuidade.html' title='Quem tem medo da promiscuidade'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-3002489969597820091</id><published>2011-04-17T09:45:00.000-07:00</published><updated>2011-04-17T09:45:05.460-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Brasil'/><title type='text'>Aonde vai a nova classe media</title><content type='html'>O Estado de SP, 16.04.11 – Ivan Marsiglia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bola estava no ar, faltava cortar. Foi o que fez o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, num artigo para a revista Interesse Nacional que ganhou o noticiário e inverteu o jogo no debate político brasileiro. O ponto: o sociólogo e presidente de honra do PSDB tenta entender qual será o papel político da chamada “nova classe média”, cuja ascensão há muito vem sendo discutida pelos economistas. Como vão se comportar eleitoralmente os cerca de 20 milhões de pessoas que deixaram a base da pirâmide social do País para chegar à classe C, impulsionados pelo crescimento econômico e os programas sociais da era Lula? O que os partidos, em especial a oposição liderada pelos tucanos, deverão fazer para conquistar corações e mentes acostumados ao novo padrão de consumo adquirido com o aumento da renda e do crédito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No artigo, que incendiou as torcidas de lado a lado, o ex-presidente afirma que “enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os ‘movimentos sociais’ ou o ‘povão’, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos”. E, no mês em que a presidente Dilma Rousseff completa cem dias de mandato, com seu estilo “gerencial” caindo no gosto das camadas médias e instruídas do País, FHC faz um alerta aos seus pares: “Estas, a despeito dos êxitos econômicos e da publicidade desbragada do governo anterior, mantiveram certa reserva diante de Lula. Essa reserva pode diminuir com relação ao governo atual se ele, seja por que razão for, comportar-se de maneira distinta do governo anterior”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estratégia? Resignação? O senador tucano Aécio Neves, potencial candidato à sucessão de Dilma, disse se considerar “mais otimista” que FHC na reconquista do “povão” – que, lembra, cerrou fileiras com o PSDB no Plano Real. Outros aliados, como o presidente do PPS, Roberto Freire, consideraram “equivocada” a proposição do ex-presidente. O PT, por sua vez, na voz sempre pronta do ex-presidente Lula, aproveitou para fustigar o suposto DNA elitista dos tucanos: “Já tivemos políticos que preferiam cheiro de cavalo ao do povo. Agora tem um presidente que diz que é preciso esquecer o povão”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para decifrar a inclinação política dos novos emergentes, o Aliás escalou dois especialistas: o sociólogo Jessé de Souza, autor de Os Batalhadores Brasileiros – Nova Classe Média ou Nova Classe Trabalhadora? (UFMG, 2010), e o cientista político Bolívar Lamounier, que lançou, em parceria com Amaury de Souza, A Classe Média Brasileira – Ambições, Valores e Projetos de Sociedade (Elsevier, 2009). A seguir, algumas de suas conclusões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aprovação de Dilma em setores de classe média aumentou. E FHC chama a atenção para a disputa pelo voto da ‘nova classe média’. Todos estão de olho nos emergentes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jessé de Souza: Os emergentes são a maior novidade econômica, social e política do Brasil na última década. Essa classe crescente é a grande novidade do “Brasil bem-sucedido” dos últimos anos, mas ainda é pouco conhecida. De um lado existe muito preconceito em relação a ela, como em geral aos setores populares no Brasil. De outro, também não cabe a percepção triunfalista que a cerca no debate público. Quando se chamam os emergentes de “nova classe média”, está se querendo dizer que no País as classes médias e não os pobres passam a formar o grosso da população. Isso está longe da verdade. Os “batalhadores”, como os chamo, se assemelham muito mais a uma classe trabalhadora precarizada, típica do pós-fordismo. Uma classe sem direitos e garantias sociais, que trabalha de 10 a 14 horas por dia, estuda à noite e faz bicos nos fins de semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolívar Lamounier: A avaliação positiva dos primeiros cem dias da presidente Dilma parece-me refletir dois fatos que nada têm a ver com a “nova classe média”. Acho que é um justo crédito de confiança, pois o governo está apenas começando. As medidas mais interessantes da presidente ocorreram no plano externo, no qual vêm sinalizando o abandono do nefasto posicionamento do governo Lula. No interno, não houve medidas significativas. Por outro lado, trata-se de uma sensação de alívio pelo fim do “estilo Lula”. Nos últimos dois anos Lula desandou a falar de todos os assuntos concebíveis, sem nenhum critério de oportunidade ou conveniência. Quanto ao ex-presidente Fernando Henrique, o que fez foi sugerir caminhos para o revigoramento das oposições, de modo geral, e do PSDB, em particular. E o fez com muito acerto. Antes que sua sugestão seja tragada num sorvedouro de equívocos, lembremos que o termo “nova classe média” vem sendo empregado para designar um agregado social correspondente a mais de 40% da população, compreendido entre R$ 1.200 e R$ 4.800 de renda familiar mensal. Não estranharei se alguém se referir à metade dessa camada como “classe trabalhadora” ou até “proletariado”. Como diz Shakespeare, a rose by any other name smells as sweet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que aconteceu nos últimos anos com a pirâmide social brasileira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolívar: No último quarto de século, a exemplo do que ocorreu em praticamente todos os países emergentes, houve um intenso processo de mobilidade social vertical. Não só a mobilidade individual que constitui um campo tradicional de estudo dos sociólogos, mas mobilidade também estrutural, de toda uma camada, em decorrência de processos econômicos poderosos, como a abertura das economias, uma fase de vigoroso crescimento da economia mundial e, no caso brasileiro, o controle da inflação e a consequente expansão do crédito. Em vez dos integrantes da classe média tradicional, que apenas almejavam reproduzir o status dos pais, num universo mais ou menos estático, os da “nova” classe média têm a ambição de “subir na vida”, viver melhor, consumir mais e, portanto, aprender e se qualificar a fim de gerar a renda consentânea com essa forma de viver. É pois de estratificação e mobilidade que falamos. Mesmo mobilidade é misleading, pois não se trata de mobilidade individual. O que há é uma grande estrutura mudando, e isso num mundo que vem passando por mudanças acentuadas há várias décadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jessé: O crescimento econômico brasileiro beneficiou tanto os setores superiores e privilegiados quanto os populares. Mas o crescimento mais dinâmico veio da “parte de baixo” da sociedade brasileira, o que mostra o efeito positivo para todos – inclusive para os setores privilegiados que ganham e muito com o novo quadro econômico – de políticas simples como o Bolsa Família e o microcrédito. O desafio para a transformação efetiva da “pirâmide” em “losango”, onde as camadas médias, pelo menos quanto à renda, são maiores que as de baixo e as de cima, implica manter aumentos reais do salário mínimo e aprofundar a política social. Existe um “núcleo duro” da “ralé” – nome provocativo para denunciar o abandono de uma classe que nem sequer é notícia fora das páginas policiais – que precisa de muito mais que estímulos econômicos tópicos e passageiros para ser incluída no mercado competitivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conceito de classe média não é consensual nas ciências sociais. Que características aproximam e distanciam essa nova camada da definição clássica de classe média?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jessé: Não é apenas o conceito de classe média, o próprio conceito de classe social é percebido superficialmente no debate público. Isso porque uma adequada compreensão do processo de formação das classes permite a crítica do princípio social mais importante para a legitimação de todo tipo de privilégio injusto das sociedades modernas: o princípio da meritocracia. O privilégio injusto nessas sociedades é travestido como justo porque ele é percebido como fruto do “desempenho individual extraordinário”. Uma correta percepção dos “emergentes”, no entanto, exige que percebamos o “tipo humano”, com dramas, tragédias, sonhos e capacidades singulares, específico dessa classe. Não basta quantificar sua renda. É necessário comparar essa nova classe tanto com as classes médias “verdadeiras” quanto com os desclassificados sociais, que chamo de “ralé” para denunciar seu abandono. Os “emergentes” ou “batalhadores” não possuem nenhum dos privilégios de nascimento da classe média verdadeira. Mais especialmente o tempo livre que permite a apropriação do conhecimento útil e valorizado chamado por Pierre Bourdieu de “capital cultural”, que caracteriza a classe média verdadeira. Se a apropriação privilegiada de “capital econômico” marca as classes altas, é a apropriação privilegiada de “capital cultural” que marca as classes médias modernas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolívar: A pergunta suscita a clássica discussão entre as sociologias marxista e weberiana. No marxismo, o conceito de classe tem dois componentes principais. De um lado, certa homogeneidade de condições, e portanto coesão, consciência de si, capacidade de agir coletivamente. Do outro, uma posição comum na estrutura de produção. Especificamente em relação às camadas médias – ou à “pequena burguesia”, como os marxistas as designavam, torcendo o nariz –, fazia-se também uma profecia: a de que elas estariam condenadas a definhar, ensanduichadas entre a burguesia e o proletariado. Já a sociologia weberiana concebe as classes como agregados sociais que raramente chegam a se tornar conscientes e a agir de maneira unitária no campo político. Os membros de uma classe se definem em função de recursos como a educação, o conhecimento especializado, disponibilidades patrimoniais, etc – valorizáveis nos diferentes “mercados sociais”. A ótica weberiana pensa em camadas sociais que não encolhem, ao contrário, se expandem à medida em que o capitalismo avança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em diferentes momentos da história, as classes médias assumiram posições progressistas ou retrógradas. Como essa nova classe emergente poderá se portar politicamente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jessé: Os “batalhadores” não são uma classe homogênea. Nem sequer se percebem como classe. Estamos adentrando um terreno novo que ainda exige estudo e reflexão. O que pude perceber em minha pesquisa são resultados díspares e heterogêneos. Ainda que a ideologia do “mérito individual” tenha convencido, por razões compreensíveis, parcelas ponderáveis dessa classe, o que a aproxima das classes médias “verdadeiras”, a maioria dos batalhadores se mostrou sensível e favorável aos programas sociais de distribuição de renda – com uma sensibilidade social maior que nas classes do privilégio. A direção política que a classe emergente vai tomar é, portanto, uma luta em aberto. Ela tanto pode ser colonizada pelas classes dominantes economicamente dinâmicas, politicamente conservadoras e socialmente irresponsáveis que caracterizam a sociedade brasileira, como se transformar num protagonista novo, uma “luz no fim do túnel” que sirva de inspiração e exemplo para o exército de abandonados sociais no Brasil. De qualquer modo sua função de fiel da balança tanto da economia quanto da política brasileira no futuro próximo parece certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolívar: Descartemos, desde logo, a ideia de um comportamento rigorosamente unitário, afinal estamos falando de um agregado com mais de 40% da população. Segundo, descartemos o determinismo que ainda assombra o imaginário de alguns sociólogos. Se as novas classes médias necessariamente devessem se comportar de um jeito ou de outro, o ponto de vista expresso por FHC não faria sentido. De duas, uma: elas seriam inacessíveis ao apelo da oposição ou já a estariam apoiando. Nem uma coisa nem outra. Trata-se de um terreno contestado, como tudo na vida política. Depende da agenda política. Basta lembrar que elas contribuíram maciçamente para a vitória de FHC em 1994 e 1998 e para as de Lula em 2002 e 2006.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observadores do Congresso notam a presença cada vez maior de sindicalistas na representação parlamentar. Que consequências isso traz à estrutura social brasileira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolívar: De fato, esse é um fenômeno apontado por diversos observadores, como Leôncio Martins Rodrigues. É um processo perfeitamente normal, que acontece em todas as democracias capitalistas avançadas. Quer isso dizer que tais lideranças vão exercer seus mandatos de uma maneira estreitamente fiel aos trabalhadores de menor renda, ou consentânea com interesses legítimos da sociedade como um todo? Aqui, vamos devagar com o andor. Lembremos, para começo de conversa, que os sindicatos brasileiros continuam em geral gostosamente acomodados na estrutura corporativista implantada ao tempo da ditadura Vargas. Lembremos também a profecia de Robert Michels no clássico Os Partidos Políticos, de 1908. O autor previu que mesmo nos partidos socialistas a tendência seria a de os sindicalistas se incrustarem na alta burocracia, formando uma espécie de “nova classe”. No Brasil, não faltam sinais disso. Como bem lembrou FHC, o governo Lula “aparelhou” a máquina do Estado e cooptou as principais centrais sindicais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jessé: Dentro de certas circunstâncias excepcionais o Congresso e especialmente o Executivo no Brasil podem mudar a realidade social e política. Em condições normais, no entanto, a política de “verdade”, que estipula quem ganha e quem perde na competição social, é realizada fora dos órgãos representativos. O Estado não é o único centro da vida política, ainda que seja o “teatro” para o qual todas as luzes apontam. No novo tipo de capitalismo financeiro hoje hegemônico, por exemplo, boa parte da política é transformada em “questão técnica” e aplicada como necessidade econômica. A tentativa, aliás muito bem-sucedida, de se vincular a determinação da taxa de juros entre nós unicamente ao combate à inflação serve para travestir o interesse particular de financistas. Nesse sentido, ganhar a esfera pública e a mídia significa selecionar os assuntos que se tornam pauta política e ridicularizar opiniões contrárias. Um poder maior que o de qualquer bancada no Congresso. A demonização do Estado como ineficiente, politiqueiro e corrupto – como se o mercado fosse o oposto disso – serve, do mesmo modo, para transformar as esferas sociais, como a educação e a saúde, que deveriam independer da sorte ou do azar da classe de nascimento e ser acessível a todos, em esferas de lucro privado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No artigo, FHC diz que ‘enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os movimentos sociais ou o povão, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos’. É uma avaliação que faz sentido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolívar: Eu assino embaixo, e uma de minhas razões está no que acabo de dizer: o governo Lula praticamente transformou os sindicatos e o petismo em apêndices do Estado, ou seja, numa máquina que se vale dos recursos do Estado para manter um quase monopólio político sobre a classe trabalhadora tradicional e a massa pobre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jessé: É uma avaliação brilhante, ainda que seja preconceituosa e mostre o perverso “racismo de classe” que perpassa as classes do privilégio no Brasil, as quais FHC representa tão bem. Ela é brilhante, posto que pragmática e óbvia, procurando concentrar esforços e focar sua mensagem para uma clientela em relação à qual um partido liberal como o PSDB tem boas condições de convencer. É a mensagem do “mérito” percebido como esforço individual, que já critiquei e vê como preguiçoso e burro – as massas “pouco informadas”, no eufemismo de FHC – todo aquele que sofre humilhações e experimenta não reconhecimento e invisibilidade social desde que nascem. Na Europa os partidos conservadores manipulam o ódio aos imigrantes. Entre nós se manipula o “racismo de classe” contra os pobres, percebidos como sanguessugas de uma ordem social que, na verdade, os produz e reproduz como párias sem chance na competição social por recursos escassos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aécio relativizou a estratégia de FHC se dizendo ‘mais otimista’ na capacidade de o PSDB atrair o eleitor de baixa renda. Já o presidente do PPS, Roberto Freire, considerou o artigo ‘equivocado’...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolívar: No que toca ao senador Aécio Neves, fico contente em saber que ele está relativamente otimista. Tomara que esteja certo. Quanto à reação do Roberto Freire, um líder político por quem tenho imenso respeito, não há muito que eu possa acrescentar ao que já falei. A meu juízo, a análise de FHC não é equivocada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jessé: A avaliação de FHC é muito mais honesta, sincera e inteligente. É a mesma estratégia do Partido Liberal alemão, por exemplo, que passou de partido nanico a partido formador da coalizão de governo usando o mesmo tipo de discurso e se dirigindo ao mesmo tipo de público que FHC agora preconiza e defende. Em um país sem história de lutas sociais que tenha logrado institucionalizar com sucesso princípios como responsabilidade social e republicanismo, como o nosso, esse tipo de discurso tem amplas condições de sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nova presidente tem sido criticada no que diz respeito ao combate à inflação. Mesmo assim, há alguns dias, na contramão dos que pedem um aperto maior nos juros, ela reafirmou que deseja reduzi-los ao longo do mandato. Sinaliza na direção da nova classe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jessé: Sem dúvida. Essa classe prosperou em grande medida graças ao crédito farto e facilitado tanto para seus pequenos negócios quanto para seu consumo pessoal. A luta política – a qual se traveste mais do que nunca em “questão técnica” de racionalidade econômica dado que os interesses mais particulares nunca podem se mostrar pelo seu nome verdadeiro – opõe o setor rentista que vive de juros, que é a fração dominante no novo tipo de capitalismo hegemônico aqui e no mundo todo, e a esmagadora maioria da população, que tem interesse por juros não escorchantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolívar: Bem, não sou expert no pensamento econômico da presidente. Ela por certo não ignora o tamanho da pressão inflacionária que está se formando. Volto ao que dizia no início de nossa conversa. A gestão dela começou bem avaliada mais em função de expectativas que de medidas efetivas. Ela pode demorar a tomar as medidas necessárias por não levar a inflação tão a sério como seria desejável, ou por não se sentir com força política suficiente, ou por querer cortejar a “nova classe média”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estilo gerencial de Dilma agrada mais aos emergentes? Quando FHC chama a atenção para o risco de a presidente ‘envolver parte das classes médias’ manifesta o temor de que o lulo-petismo conquiste hegemonia política em todas as camadas do eleitorado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolívar: No que se refere a uma aceitação potencialmente maior de Dilma que de Lula, eu concordo. É um risco? Claro que é. Não existe política sem riscos. O que há é sempre um terreno em disputa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jessé: Acho difícil que o PSDB perca sua hegemonia nesses setores. A gestação das ideias que opõem mercado a Estado como uma oposição da virtude em relação ao vício tem larga tradição e prestígio entre nós. Também na esfera pública a hegemonia dessas ideias é praticamente absoluta. Tanto que existe grande afinidade entre setores do PT e do PSDB na política econômica. É preciso compreender a política em sentido mais alargado que o campo dos políticos profissionais para compreender quem e quais visões de mundo detêm hegemonia numa sociedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ascensão da ‘nova classe média’ é menos visível em termos educacionais. Terão os emergentes condições para pensar os problemas do País e avançar na construção de uma sociedade mais democrática e justa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jessé: Por trás da afirmação de FHC acerca das classes “pouco informadas” está o preconceito comum de que apenas quem tem acesso à cultura livresca pode ter uma concepção adequada e crítica do mundo. Nada mais longe da verdade. A maior parte dos livros, científicos ou não, reproduz uma percepção afirmativa e acrítica do mundo e produzem mero re-conhecimento e não efetivo conhecimento. Os pobres não são tolos e identificam muito bem seu interesse real. Claro que tempo de leitura e educação aprofundada são importantes, coisas a que os “batalhadores” têm bem menos acesso do que a classe média privilegiada. Mas essa não é a única variável importante. Para uma melhor educação política de um povo, o fator que mais pode contribuir é o acesso a uma esfera pública plural, onde toda a gama de opiniões divergentes tenha o direito de expressão livre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolívar: Essa é uma pergunta relevante, pois há muita gente batendo o bumbo do grande avanço social e quase ninguém discutindo a sustentabilidade desse processo. Consumir é ótimo, mas cada família tem de gerar renda para financiar seu consumo. No mundo atual, a educação é um ponto crítico, e não preciso comentar a situação catastrófica da educação brasileira. Lula cantou aos quatro ventos o fato de ter criado 13 novas universidades. Formidável, mas a melhor universidade do País ocupa o 234º lugar no ranking mundial&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-3002489969597820091?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/3002489969597820091/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/aonde-vai-nova-classe-media.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3002489969597820091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3002489969597820091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/aonde-vai-nova-classe-media.html' title='Aonde vai a nova classe media'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-1719510168866633588</id><published>2011-04-08T12:38:00.000-07:00</published><updated>2011-04-08T12:38:20.820-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Marcelo Gleiser'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ciencia'/><title type='text'>Infinito, elétron e outras invenções</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;MARCELO GLEISER&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Folha de São Paulo, 27 de fevereiro de 2011&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;OUTRO DIA, meu filho de quatro anos perguntou: "Pai, você pode contar até infinito?" "Não posso, filho, não ia acabar nunca". "Mas quanto é infinito menos três?" "É infinito também". "Mas como se escreve o número infinito?" "É um oito deitado." "Mas isso é um número, feito um ou dois?"&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O infinito é mais uma ideia do que um número. É um conceito que criamos para representar sequências infindáveis de números, ou um ponto no espaço ou no tempo infinitamente distante da nossa posição ou do nosso momento presente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O infinito não é algo a que chegamos; é algo sobre o qual pensamos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Uma representação de nossas limitações, já que somos finitos no espaço e no tempo. Por outro lado, é também exemplo da nossa criatividade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Mesmo que arredio, o infinito está por toda parte. Em cosmologia, dados atuais indicam que o Universo é infinito. Se andarmos numa direção e mantivermos a rota, jamais retornaremos ao ponto de partida. Se o universo fosse finito, feito a superfície de uma bola (em 3D), poderíamos circunavegá-lo, como o fez Fernão de Magalhães com a Terra (ou os que restaram de sua tripulação.)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Podemos ter certeza de que o universo é infinito? Não. Sabemos apenas que a porção do espaço que podemos medir, o que chamamos de horizonte -a distância percorrida pela luz em 13,7 bilhões de anos- é plana (ou quase). E uma geometria plana, como a superfície de uma mesa, estende-se ao infinito. Mas nossa certeza termina aí.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;É possível que nossa porção plana do espaço faça parte de um universo curvo gigantesco. Se não temos acesso ao que há fora do horizonte, não temos certeza do que existe lá. Podemos apenas inferir.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;E os pontos e linhas da geometria? Conceitos estranhos, também.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Um ponto marca uma posição no espaço, mas não ocupa espaço: seu volume é nulo. Uma linha, ligando dois pontos no espaço, não tem espessura. E é feita de pontos adjacentes. Coisas sem volume, lado a lado, fazem uma linha sem espessura!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Portanto, representamos coisas no espaço usando coisas que não existem no espaço, mais ideias do que coisas. Representações matemáticas, como quando desenhamos pontos num papel e os conectamos com linhas, mesmo que ilusórias, funcionam extraordinariamente bem. O real baseia-se no intangível.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Quando procuramos pelos menores pedaços de matéria, encontramos ideias semelhantes. Átomos são formados de elétrons, prótons e nêutrons. Prótons e nêutrons são formados de quarks. Portanto, dizemos assim que a matéria é feita de quarks e elétrons.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Será que quarks e elétrons são feitos de coisas ainda menores? Um elétron não é simplesmente uma bola de energia com carga negativa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Um físico de partículas diria que um elétron não tem estrutura interna, que não há nada "lá dentro". Mas não podemos ter certeza.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Baseamos nossos argumentos no que podemos medir. Podemos tratar o elétron como uma partícula "pontual", com carga elétrica negativa, mas devemos lembrar que esta representação é uma aproximação da coisa real. E o que é essa coisa real? Talvez nunca saibamos. Como pontos e linhas, os elétrons e quarks são construções que usamos para representar como vemos o mundo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Eles são como os vemos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-1719510168866633588?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/1719510168866633588/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/infinito-eletron-e-outras-invencoes.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1719510168866633588'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1719510168866633588'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/infinito-eletron-e-outras-invencoes.html' title='Infinito, elétron e outras invenções'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-3139353782277612349</id><published>2011-04-08T12:03:00.001-07:00</published><updated>2011-04-08T12:03:39.047-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Joao Pereira Coutinho'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='amor'/><title type='text'>A outra</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;JOÃO PEREIRA COUTINHO&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Folha de São Paulo, Ilustrada, 01 de março de 2011 &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O RAPAZ convidou as duas amigas. Para que o visitassem na cidade do Porto, sua terra natal. Um dia, uma tarde. Elas agradeceram o convite e prometeram pensar no assunto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ele entrou no carro, partiu e, enquanto cruzava as ruas de Lisboa, pedia a todos os santos para que só uma delas fosse ao seu encontro. Recriminou-se mentalmente por ter feito um convite duplo quando era a mais nova, a mais bonita, que ele desejava receber. Mas não tivera outra oportunidade e, perdido por dez, perdido por mil: para receber uma, teria que receber as duas. Era um começo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Na semana seguinte, chegou a mensagem: iriam ambas, sim, em dia a combinar. Ele leu. Releu. Respondeu: que estaria à espera na estação de trem; que iriam almoçar, conhecer a cidade, beber e, com sorte, talvez a outra se cansasse de ser a outra e preferisse ficar no hotel. No amor e na guerra não há pensamentos nobres. Ou qualquer coisa assim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Chegou o dia. Chegou o trem. Ele já estava na estação, junto à linha, encostado a um dos pilares. Saíram os primeiros passageiros, cabeças indistintas sob uma chuva outonal. Ao fundo, vislumbrou a outra. Acenou. Recebeu um aceno de volta. Ninguém mais acenou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;A outra aproximou-se, sozinha, e ele perguntou pela amiga.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Não havia amiga. Não tinha podido vir, disse-lhe a outra, razões pessoais, familiares, sentimentais, ele já nem escutava.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Com gentileza mecânica, pegou na sacola da outra, disse uma frase clichê ("Muito bem, estamos nós aqui, vamos aproveitar.") e arrastou-a para fora da estação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Entraram no carro. Ele silencioso e a outra a preencher o silêncio com conversa banal. Começaram o passeio. Ele começou a debitar informações turísticas como se fosse um guia turístico: aqui, um monumento; ali, uma igreja; mais ao fundo, um jardim, um museu, uma livraria.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Entraram na livraria. A outra demorou-se pelas estantes. Ele ficou junto à entrada, a olhar para o relógio, a contar os minutos para que a noite viesse e a outra se fosse.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Caminharam pelas ruas da baixa. A outra fazia perguntas que ele só respondia à segunda vez, quando realmente as escutava. Por vezes, apercebia-se que a outra ficava para trás -um metro, dois- porque ele caminhava demasiado depressa. Então, ele parava, esperava, e retomavam a marcha até que nova distância se instalasse entre os dois.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Foi nas margens do rio que a outra resolveu parar. Ele perguntou se ela estava cansada. A outra sorriu com ironia e respondeu: "Podes dizer que sim".&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ele gelou. Desconversou: que poderiam sentar-se na esplanada, descansar, tomar um café. A outra preferiu sentar-se no cais e tirar um cigarro do bolso. Acendeu-o. Pausa longa. E depois disse-lhe: "Quero apenas que me leves à estação, por favor".&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ele gelou novamente. E desconversou novamente: que se passava, perguntou, acontecera alguma coisa? Ele fizera alguma coisa?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;A outra recusou-se a comentar o óbvio. Olhou-o apenas com desprezo e murmurou: "É pena que não tenhas reparado que fui eu quem veio ter contigo".&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ele olhou para ela pela primeira vez naquela tarde, pela primeira vez em todas as tardes, como se a frase o tivesse despertado. Havia uma presença real ao lado dele; uma presença discreta, e também por isso discretamente bela, que fumava às pressas para não chorar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ele sentia vergonha e nada disse. E também ternura e também desejo. A outra levantou-se e, sem esperar por ele, caminhou para o carro. Ele seguiu-a -um metro, dois metros atrás dela. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O trem partiu às sete da noite. E, ainda hoje, nos jantares de amigos, ela gosta de contar a história de como o idiota do rapaz lhe disse um adeus mudo na plataforma da estação. E de como ele lhe voltou a aparecer de repente na carruagem onde ela seguia sozinha, de volta. E de como se sentou ao lado dela. E de como se preparava para falar. E de como ela o impediu de dizer uma palavra que fosse, encostando os seus lábios aos lábios dele. E de como os outros passageiros se riram daquela cena patética. E de como se riram ainda mais quando o revisor surgiu minutos depois e o idiota do rapaz não tinha bilhete para apresentar.&amp;nbsp;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-3139353782277612349?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/3139353782277612349/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/outra.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3139353782277612349'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3139353782277612349'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/outra.html' title='A outra'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-4213968378279729867</id><published>2011-04-04T06:37:00.000-07:00</published><updated>2011-04-04T06:37:00.823-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='psicologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Educacao'/><title type='text'>Seu filho é ‘problema’?</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;ROSELY SAYÃO para Folha de São Paulo, Equilibrio, 15 de março de 2011&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;"Meu filho é um problema" é uma frase pronunciada com bastante frequência por muitos pais. Professores também falam dessa maneira em relação a alguns de seus alunos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;A maioria dessas crianças não é um problema: elas causam problemas para os seus responsáveis porque exigem uma atenção especial em seu processo educativo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;De vez em quando, todas as crianças, sem exceção nenhuma, se descontrolam, fazem birra, atrapalham o que o grupo faz, desorganizam o ambiente e arrumam encrencas verbais ou físicas com outras crianças. Todas elas procuram resolver seus conflitos à força, usam e abusam de sua capacidade de provocação e testam até o limite os valores dos adultos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Pois bem: há crianças que fazem essas coisas quase que o tempo todo. São essas as chamadas de "problemáticas" ou difíceis.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Algumas dessas crianças, inclusive, foram encaminhadas a médicos, psicólogos e outros especialistas, ganharam algum tipo de diagnóstico e estão sendo medicadas e/ou tratadas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Entretanto, muitas delas continuam criando situações problemáticas para os adultos responsáveis por sua educação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;No filme nacional chamado "O Contador de Histórias", um adolescente que vivia em uma instituição foi considerado "irrecuperável". Mas ele teve a sorte de encontrar uma mulher que não aceitou o destino planejado para ele e decidiu lhe oferecer uma chance.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;A história mostrada no filme é inspirada em fatos reais. Hoje, aquele adolescente é pedagogo e um contador de histórias conhecido internacionalmente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;As crianças chamadas de problemáticas ou difíceis merecem, da parte dos adultos que as educam, a mesma compaixão que o personagem do filme recebeu. Empreitada difícil? Sim, sem dúvida alguma. Por isso, vamos nos dedicar a refletir a esse respeito.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Muitos afirmam que algumas dessas crianças fazem o que fazem "apenas" para chamar a atenção.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Pode ser verdade, já que muitas delas só conseguem atrair o olhar dos adultos que com elas convivem quando assim agem. Então, uma boa saída a oferecer a essas crianças não seria exatamente dar a elas o que elas pedem e precisam?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Não se trata, aqui, de aceitar o que a criança faz de errado. Ela consegue entender que ela não se resume àquilo que faz, quando o adulto a ajuda a perceber a diferença entre essas duas coisas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Outra possibilidade que, combinada com a anterior, costuma funcionar é o adulto ter o entendimento de que essas crianças precisam de disciplina e firmeza. E que disciplina e firmeza são coisas muito diferentes de castigos e exaltação de ânimo. Ser firme é bem diferente de ser bravo, não é?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Finalmente: essas crianças devem ser tratadas como crianças que são -e não como alguns adultos que acatam o que lhes dizem e se esforçam para mudar seu comportamento.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Com as crianças precisamos, todo santo dia, agir como se fosse a primeira vez que elas tivessem feito aquilo que fizeram, mesmo que elas já tenham ouvido que não deveriam fazer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;O mais importante é ensinar a essas crianças que existem para elas outras escolhas, melhores. Afinal, quem é que não gosta de ser escolhido como companhia em vez de ser rejeitado?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;É isso que essas crianças precisam aprender: que o seu comportamento faz com que outras crianças e até adultos evitem a companhia delas. E é bom saber que quem aprendeu a obter atenção dessa maneira não consegue mudar de estilo com facilidade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Paciência, perseverança, insistência, firmeza, serenidade e compaixão: são esses os ingredientes necessários para aqueles que têm a responsabilidade de educar essas crianças.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-4213968378279729867?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/4213968378279729867/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/seu-filho-e-problema.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/4213968378279729867'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/4213968378279729867'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/seu-filho-e-problema.html' title='Seu filho é ‘problema’?'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-6061388459239910568</id><published>2011-04-03T20:36:00.000-07:00</published><updated>2011-04-03T20:36:58.426-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sexualidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Luiz Felipe Ponde'/><title type='text'>O delicioso perfume de Emma Bovary</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Luiz Felipe Ponde para FSP, 21.03.11&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;DE FATO, uma tragédia no Japão! Mas o povo japonês é um grande povo, estoico, maravilhoso, e vai dar uma lição ao mundo, mais uma vez, de como enfrentar a dureza da vida sem frescuras. Confio nos samurais contra esta bela besta-fera que é a natureza.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Claro que o bloco dos 2012 maníacos pelo fim do mundo vai dizer que a "mãe Terra" (que está mais pra Medeia do que pra Gaia) está nos mandando um recado, mas isso é bobagem, a natureza é cega. Não faço parte dos fanáticos "believers da religião verde". Sou um herege. Os "nature lovers" sabem que câncer é natural?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Sou mais dado a assuntos "menores", do tipo que enche o consultório dos analistas e nossas camas sujas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;"O que você acha da culpa e da traição?", me perguntou, outro dia, uma jornalista, um tanto ansiosa. Senti o delicioso perfume de Emma Bovary no ar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Sei que pode haver culpa, mas o que me espanta mais é a ideia contemporânea de que haja uma "redenção pelo sexo".&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Antes de tudo, não entendo a culpa como uma "ideia da consciência moral". Acho que quando a filosofia pensa a culpa como uma "ideia da consciência moral", ela faz má filosofia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;A culpa é mais um sentimento difuso que vai do fígado ao coração, assombrando o cérebro, escurecendo a visão, um zumbido nos ouvidos, que faz do mundo opaco. Uma ameaça que inunda o sangue.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Como uma náusea que não se sabe de qual órgão do corpo vem, nem para qual faculdade da alma se dirige. Um afeto incômodo, mas que faz você sentir que ainda tem corpo e alma, como numa intoxicação que paralisa o cotidiano.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Por isso usamos expressões como "ressaca moral". A culpa inunda o sangue, contaminando-o como faz o vinho, deixando um gosto de borracha na boca e a língua azeda.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Um erro comum é a fantasia de que uma vida sexual "louca" cura a alma de sua insatisfação cotidiana. Não, uma vida sexual "louca" é marca de uma alma louca de desejo. Nada mais. Como qualquer tara, é repetitiva, monótona, banal. Um vício, como o jogo, a cocaína, o álcool. Uma loucura humana demasiado humana, mas não sinal de uma nova atitude libertadora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Só pessoas que vivem sonhando, pensando na maravilha que seria ser uma Emma Bovary, sem nunca ter pecado, sem nunca sentir o gosto de uma cama suja na boca, imagina que haja redenção no desejo sexual "emancipado".&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Não digo isso pra negar o valor de se realizar desejos. Longe de mim a crença na armadilha do velho puritanismo. Deixo o puritanismo para as militantes da "pureza da natureza feminina" e para esses maníacos pela alimentação "sem sangue".&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Digo isso para refutar a ideia infantil de que haja redenção no sexo ou em qualquer outra forma do desejo humano.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;O ciclo do desejo é um círculo infinito cuja esfera está em toda parte e o centro em parte alguma. Este movimento descreve o sem-fim do inferno humano.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;O desejo é sempre triste. Apenas quem não o conhece o julga redentor. A revolução sexual é puro marketing de comportamento. Venda de "estilos e produtos de prazer". Sua verborragia é indício de sua nulidade. Nossos avós faziam sexo melhor do que nós e nossos filhos que se gabam de beijar dezenas numa noite. O pecado é que dá tesão e não a liberdade sexual.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Uma das marcas do ridículo de nossa época é levar os jovens a sério demais. Atitude típica de covarde que foge da responsabilidade de dizer aos mais jovens que não há solução para vida e que tudo o que eles pensam já foi pensado antes deles e melhor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;A vida nasce, é bela, floresce, adoece e morre, sendo esquecida em meio aos vermes. E fazemos o que podemos em meio a isso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Espanta-me como tanta gente grita dizendo que não vai ter água e comida pra todo mundo. Acho que o que vai acabar antes é a libido diante de tamanha masturbação sobre como ela salva a vida da sensação de nulidade cotidiana. Não vai sobrar libido para todo mundo, já que todo mundo deve ser um campeão do sexo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Não existe sexo de graça (livre). A forma mais barata ainda é pagar com dinheiro ou um jantar. Daí o sucesso eterno da prostituição, porque sua nudez é ainda a mais em conta. Ou se paga com dinheiro ou com a alma.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-6061388459239910568?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/6061388459239910568/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/o-delicioso-perfume-de-emma-bovary.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6061388459239910568'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6061388459239910568'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/o-delicioso-perfume-de-emma-bovary.html' title='O delicioso perfume de Emma Bovary'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-20959427054656022</id><published>2011-04-03T20:29:00.000-07:00</published><updated>2011-04-03T20:29:24.637-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='psicologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contardo Calligaris'/><title type='text'>O prazer e a culpa</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;CONTARDO CALLIGARIS&lt;/span&gt;&amp;nbsp;para Folha de&amp;nbsp;São Paulo, 24 de março de 2011&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;ADMIREI A reação dos japoneses diante do desastre -terremoto, tsunami, contaminação nuclear. Nas declarações oficiais e nas palavras das vítimas, a catástrofe é apenas um acidente: pode haver responsáveis por falhas na prevenção, na segurança ou nos socorros, mas a catástrofe em si não tem sentido algum. Será que nós, ocidentais, seríamos capazes da mesma atitude? Não sei.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;A peste assolou repetidamente a Europa do século 14 ao 18. A primeira grande epidemia, de 1347 a 1352, matou um quarto da população europeia. Para que o horror não induzisse ninguém a pensar que o universo era sem sentido, duas reações populares: 1) perseguir judeus e bruxas, supostamente responsáveis pelo contágio, 2) juntar-se aos flagelantes, penitentes que erravam pelo continente se fustigando até o sangue.&lt;/span&gt;Para o flagelante, a peste era um castigo pelos pecados do mundo; portanto, punir-se por eles talvez fosse o jeito de tornar a peste desnecessária.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Naqueles quatro séculos, a Europa se cobriu de igrejas que eram construídas como oferendas para que a epidemia se acalmasse; nelas, homens e mulheres faziam promessas, pedindo para serem poupados.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Ainda hoje, na calamidade e no medo, a promessa que acompanha o pedido feito a Deus ou aos santos sempre propõe uma renúncia: o pedinte se engaja a se privar de algo, do sexo ao chocolate. Funciona assim: 1) meu prazer e meu gozo são sempre culpados, 2) portanto, qualquer mal que me assole se explica como punição de minhas culpas, 3) a renúncia aos meus prazeres pode me redimir e estancar a punição.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Como chegamos a fazer esse estranho uso dos prazeres, ou melhor, da renúncia aos nossos prazeres? Três respostas, não excludentes (e insuficientes).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;1) Bem ou mal, educar implica conter, impor frustrações e renúncias. Com isso, a aprovação dos educadores sempre parece proporcional à aceitação das renúncias pelos educandos. Ou seja, os jovens podem ser levados a pensar que é só frustrando seus próprios desejos que eles ganham o amor dos adultos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;2) No fim do primeiro milênio, cada vila europeia vivia no medo de bandos errantes. Quando eles se aproximavam, o povo se reunia na igrejinha e rezava. Isso não impedia nem saques nem estupros. O que pensar quando os bandidos iam embora? Deus não nos protege porque não existe? Deus existe, mas não dá a menor para a gente? Devia triunfar a versão que conciliava o desastre com a existência de Deus: o próprio Deus mandou os bandidos para nos punir de nossos pecados.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;3) Talvez seja menos angustiante viver num mundo que faz sentido do que num mundo que não teria sentido algum. Por exemplo, como é que você aguentaria o pensamento da morte futura sem o conforto da ideia de que ela está incluída numa ordem cósmica ou num plano divino?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Infelizmente, esse conforto tem um custo alto, pois o jeito mais fácil de garantir a existência de um sentido do mundo consiste em me atribuir a culpa por todos os males. Ou seja, minha culpa e meu esforço para me redimir "provam" que existe uma ordem (justamente, a que eu ofendia quando me entregava a meus prazeres).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Corolário: se meus prazeres culpados são a causa dos males, não preciso responder "adequadamente" às calamidades, bastará modificar minha conduta de modo que minhas ofensas sejam perdoadas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Além de dar sentido ao meu mundo, a culpa me oferece a ilusão de agir de maneira eficaz: como o flagelante, posso esperar que minha renúncia ao prazer suspenda a punição. De repente, doenças e catástrofes talvez parem diante de minha conduta meritória. Em vez (ou além) de procurar as condições de prevenir um terremoto ou de debelar um câncer resistente, rezarei noite e dia e me fustigarei em penitência. Se, de qualquer forma, o terremoto vier ou o câncer triunfar, será porque não me açoitei o suficiente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Pois bem, não acredito que, em nossa cultura, esse bizarro uso dos prazeres e da culpa tenha mudado substancialmente nos últimos sete séculos. Continuamos fundamentalmente inimigos do nosso prazer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Prova disso: há, hoje como no século 14, bandos errantes que denunciam nossos tempos "hedonistas" e nossa voracidade por prazeres e gozos. São os flagelantes verbais: criticam o prazer para fomentar a culpa. É o jeito (custoso) que eles acharam para dar sentido ao mundo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-20959427054656022?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/20959427054656022/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/o-prazer-e-culpa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/20959427054656022'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/20959427054656022'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/o-prazer-e-culpa.html' title='O prazer e a culpa'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-7506088277057890573</id><published>2011-04-03T20:21:00.000-07:00</published><updated>2011-04-03T20:21:58.765-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='psicologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contardo Calligaris'/><title type='text'>"Fazer" uma doença</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;CONTARDO CALLIGARIS &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;para Folha de São Paulo, 31 de março de 2011&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;VÁRIOS LEITORES pediram que eu insistisse no mesmo tema da semana passada: por que a culpa é um de nossos jeitos preferidos para dar sentido ao mundo? Como é possível que, diante de uma desgraça, o fato de sentirmo-nos culpados constitua, para nós, uma espécie de conforto?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Todos conhecemos as expressões usuais pelas quais, por exemplo, Fulano ou Fulana podem eles mesmos admitir que "fizeram um câncer" -e não foi porque fumaram dois maços de cigarros por dia durante a vida inteira, nem porque, verão após verão, deitaram no sol para bronzear a pele, sem protetor algum. Nada disso: a expressão "fazer uma doença", em geral, indica outro tipo de responsabilidade. Mas vamos devagar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Não é raro que a primeira reação de quem recebe um diagnóstico maligno consista em procurar uma intenção escusa da qual ele poderia ser a vítima. Envenenaram a água da cidade; o ar é repleto de resíduos daquela fábrica cuja chaminé solta fumaça a cada noite; há um dentista que tem consultório acima do meu, ninguém sabe quantos raios-x ele faz por dia, será que ele isolou sua sala do jeito certo ou será que a radiação chega até aqui?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Na mesma linha, Deus ou o diabo podem ser os mandantes de minha desgraça. Deus, porque ele quer colocar à prova minha fé, como ele já fez com Jó. O diabo, porque ele é príncipe aqui na terra e todo o mal vem dele.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Essas reações parecem ter o mesmo propósito dos delírios paranoicos: elas acusam um agente externo (Deus, o diabo ou os vizinhos) para que o mundo ganhe sentido, ou seja, no caso, para que o mal que se abate sobre a gente tenha uma explicação. "Adoeci porque alguém me quis mal": graças a essa crença, não sofro por acidente nem por acaso, mas sou vítima de uma vontade que me castiga ou me testa. O que se ganha com isso? Antes de responder, mais uma observação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Em geral, quando temos intenções que preferimos esconder de nós mesmos, uma boa solução é atribui-las a outros. Portanto, não seria de todo estranho que a gente acusasse Deus e todo mundo por males que nós mesmos causamos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Desse ponto de vista, reconhecer que nós somos os primeiros culpados de nossa desventura seria um progresso. Algo assim: até que, enfim, o cara se tocou, não foi Deus, não foi o demônio, nem a usina química no morro atrás da casa, foi ele mesmo que "fabricou" sua doença.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Geralmente, a explicação deste "fabricar sua doença" passa quer seja por uma poética do estouro (emoções contidas e silenciadas tiveram que se expressar e explodiram numa neoplasia), quer seja por uma poética da erosão (as mesmas emoções reprimidas foram atacando o corpo como a famosa gota que cava a pedra, não pela força, mas caindo repetidamente).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Tanto faz: o que me importa dizer é que entre acusar a Deus e todo mundo e acusar a nós mesmos não há progresso algum.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;A posição de vítima (Deus, o diabo e os vizinhos me querem mal) e a posição de culpado (eu fabriquei minha doença porque meu inconsciente é meu verdadeiro inimigo), ambas são chamadas a "explicar" o mal que nos assola, porque, aparentemente, preferimos sofrer de um mal explicado a sofrer de um mal aleatório. Por que isso? Simples: tanto se eu for a vítima escolhida por Deus e pelo mundo quanto se eu for a vítima de mim mesmo, apesar de doente, eu me manterei nas luzes da ribalta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Em suma, agimos e pensamos como se nosso sofrimento pudesse ser aliviado por uma compensação narcisista: a desventura é terrível, mas, ao menos, como vítima ou como culpado, sairei na foto. Não é uma consolação?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Talvez. Mas é uma consolação custosa, porque, nessa foto em que sou vítima ou culpado, a desventura é o que me define, o que me resume.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;De fato, qualquer sofrimento seria um fardo mais leve se ele pudesse aparecer como quase sempre é: um mal sem sentido, que não faz parte de nenhum plano e não é fruto de nenhuma vontade escusa, nem da nossa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Teste de boa saúde: estamos bem quando podemos ser atropelados sem ter que considerar que alguém tentou nos matar ou que nós mesmos nos jogamos nas rodas do caminhão, empurrados por impulsos inconfessáveis.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Um amigo querido morreu de um câncer que ele não fabricou e que não lhe foi imposto nem por Deus nem pelo diabo nem pelos vizinhos. Ele dizia: os males reais são suficientemente graves para que a gente não se esforce para lhes acrescentar mil sentidos imaginários.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-7506088277057890573?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/7506088277057890573/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/fazer-uma-doenca.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/7506088277057890573'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/7506088277057890573'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/fazer-uma-doenca.html' title='&quot;Fazer&quot; uma doença'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-6887835669447992096</id><published>2011-04-03T20:17:00.000-07:00</published><updated>2011-04-03T20:17:59.458-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='psicologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Educacao'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ciencia'/><title type='text'>Pré-conceitos e preconceitos</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;SUZANA HERCULANO-HOUZEL para Folha de São Paulo, Equilibrio, 29 de março de 2011&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&amp;nbsp;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;MUITAS VEZES é preciso decidir rápido. Visitando uma cidade em uma parte desconhecida do mundo, aonde você topa ir de ônibus? Por onde anda a pé, a quem confia sua câmera para tirar uma foto?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Boa parte do que fazemos tão bem e decidimos tão rápido é graças a ideias que o cérebro formula como generalizações baseadas em experiências prévias. Esses são nossos pré-conceitos: noções já concebidas anteriormente, prontas para o uso na hora do aperto, quando uma decisão rápida for necessária.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Tais pré-conceitos, quando bem fundamentados em experiências, costumam se mostrar acertados e úteis: ônibus bem cuidados prometem uma viagem mais segura; ruas limpas, bem iluminadas e cheias de passantes tendem a ser tranquilas; e uma pessoa bem vestida tem boas chances de saber operar sua câmera -e também não sair correndo com ela...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Contudo, alguns pré-conceitos são baseados não em experiências, mas apenas em valores pessoais que não necessariamente casam com a realidade. Esses são os pré-conceitos preconceituosos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Exemplos infelizmente comuns são que homens devem ser mais inteligentes do que mulheres, pessoas negras, mais violentas do que pessoas brancas, pessoas magras ou altas ou de cabelos claros, mais capazes do que as gordas ou baixas ou de cabelos escuros.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Curiosamente, muitas vezes pessoas que são alvo de preconceitos são elas mesmas pré-conceituosas no mesmo sentido. Um estudo constatou que, tanto em negros como em brancos, a amígdala reage mais veementemente, gerando mais ansiedade a retratos de rostos desconhecidos de negros do que de brancos, enquanto o resto do cérebro associa mais facilmente palavras negativas aos primeiros, e palavras positivas aos últimos. Preconceituosos ou não, a questão é que os pré-conceitos influenciam nossas escolhas, e o que deveria ser vantagem vira problema quando nossas decisões prejudicam os outros sem razão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Felizmente, o próprio cérebro tem a solução, quando quer: o córtex pré-frontal, ao se reconhecer infundadamente pré-conceituoso, é capaz de vetar opiniões, decisões e até ações. Leva tempo e requer esforço, é verdade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Mas vale a pena: é a diferença entre ter pré-conceitos, o que todos temos, e deixar que eles se transformem em ações preconceituosas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, é professora da UFRJ e autora de "Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor" (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com&amp;nbsp;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-6887835669447992096?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/6887835669447992096/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/pre-conceitos-e-preconceitos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6887835669447992096'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6887835669447992096'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/04/pre-conceitos-e-preconceitos.html' title='Pré-conceitos e preconceitos'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-3434999162349865414</id><published>2011-03-26T04:30:00.000-07:00</published><updated>2011-03-26T04:30:48.091-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cidadania'/><title type='text'>Respeito à própria intimidade</title><content type='html'>Roberto Soares Garcia para Opinião – Tendências/Debate, Folha de São Paulo, 27.02.11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A falta de recato com a própria intimidade, revelada sem pejo em algumas páginas da internet, nas telas do "Big Brother" e nas traseiras de automóveis, onde se veem grudadas figurinhas representativas da composição da família proprietária, constitui, em um primeiro olhar, exercício de direito à autoexposição.&lt;br /&gt;Pondero, para a reflexão do leitor, que o abuso desse direito à imagem escancarada poderá levar à supressão do direito fundamental à privacidade, abrindo espaço para a ditadura do monitoramento oficial ilimitado. A perda de espaço destinado à intimidade, como se lembram os que leram "1984", é característica de regimes autoritários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sociedades democráticas prezam os direitos de minorias, em especial o direito da menor minoria possível, que é o indivíduo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi por acaso que, pós-ditadura, a Constituição destinou seu dispositivo mais extenso à tutela de direitos individuais: o artigo 5º tem 78 incisos e diz, ao fim, que o rol não é exaustivo, o que confere a todos nós proteção contra o Estado, que não pode atentar contra a intimidade do cidadão, bisbilhotando, sem autorização judicial, sua movimentação bancária ou suas comunicações telefônicas; se o fizer, o indivíduo pode recorrer ao Judiciário para resguardar seus direitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, contudo, no exagerado exercício individual do direito de abrir mão da privacidade que mora o problema. Se considero normal informar ao estranho que vai à traseira do meu carro que somos cinco em casa, como poderei exigir da loja da esquina a manutenção em segredo do cadastro que lá preenchi?&lt;br /&gt;Por que o fiscal do Imposto de Renda deveria se privar de vasculhar minha conta corrente se tuíto a todos os que me "seguem" o quanto gastei no final de ano em determinado shopping?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como sustentar que a polícia não pode ouvir minhas conversas telefônicas se divulgo detalhadamente todos os meus pecados, fotografados ou filmados, no Orkut?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em resumo: se não velo pelo que me é próprio, pela minha intimidade, por que o Estado estaria obrigado a velar? A resposta, por ora, está na vigência da lei, que me autoriza a divulgar meus segredos e veda ao Estado acesso indiscriminado à minha intimidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a legitimidade da lei está no eco que seus comandos encontram na sociedade. Se a norma visa proteger o que o indivíduo não se importa mais em perder, a vida da tutela ao direito será curta. Ao abrir reiteradamente mão do resguardo da intimidade como vetor de vida, o cidadão, sem perceber, leva a sociedade para um modelo autoritário, em que o indivíduo e a privacidade não importam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já que, por definição, se descartam intervenções que substituam o próprio cidadão nas decisões sobre sua intimidade, a solução está no alerta para que, em nossas condutas, cada um preze um pouco mais por sua privacidade. Esse cuidado responsável e voluntário não trará prejuízo. Já o descuido poderá ser fatal até para a democracia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ROBERTO SOARES GARCIA é advogado criminal e professor do curso de pós-graduação da GVLaw. Foi diretor vice-presidente do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-3434999162349865414?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/3434999162349865414/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/03/respeito-propria-intimidade.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3434999162349865414'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3434999162349865414'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/03/respeito-propria-intimidade.html' title='Respeito à própria intimidade'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-1440536795977379280</id><published>2011-03-20T03:24:00.000-07:00</published><updated>2011-03-20T03:24:05.144-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><title type='text'>DJ, fotógrafo, chef, modelo &amp; ator</title><content type='html'>LULI RADFAHRER para Folha de Sao Paulo - Mercado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se todos querem ser "artistas" na era do faça-você-mesmo, alguém realmente o é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO SE SABE quando a arte se tornou peça de colecionador. Presente de forma ritual em qualquer sociedade antes mesmo do alfabeto, um dia ela passou a ser cultuada. Bom para os artistas, que conseguiam destaque social ao serem apadrinhados pelos poderosos para forrar paredes com seus quadros ou enfeitar festas com sua música, dança e comida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como bem o sabem tantos meninos aspirantes a jogador de futebol, o talento só se desenvolve quando acompanhado de muito treino. Mesmo o jovem Mozart, que encantava a corte com a sua habilidade, só compôs obras-primas quando chegou perto dos 30.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A prática leva à perfeição, mas ela é muito chata. Os filmes e séries de TV ambientados em tribunais e ambulatórios não seriam tão populares se mostrassem o tempo que se passa em bibliotecas e laboratórios. Quem imagina reger uma orquestra ou tocar um instrumento não pensa em se dedicar várias horas por dia a essas atividades. Calos e bolhas não são sexy, consumir arte sempre exigiu menos trabalho e dedicação do que ser artista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia essa situação mudou. As seitas da autoajuda e do faça-você-mesmo se encontraram com a indústria de software na busca por remover o "problema" da prática e "democratizar" o talento. Com uma mãozinha dos computadores, todos ficaram livres para exprimir suas ideias. Não era mais preciso saber desenhar para ser designer, fotógrafos podiam abrir mão dos laboratórios, músicos de seus instrumentos, diretores das ilhas de edição e assim por diante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até mesmo quem dependesse de seu corpo como ferramenta podia usar câmaras e efeitos especiais para compensar deficiências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo seria ótimo se o resultado pudesse ser medido. Mas como não há cor, tom, cheiro ou gosto absolutos, não há parâmetro. Isso faz com que muitos se tornem autodidatas pragmáticos, que se desviam de qualquer obstáculo em nome de seu "estilo". Contestar uma prática sempre foi mais fácil do que segui-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tecnologia não elimina restrições, só muda sua natureza. Um artista sério continua a precisar de muito conhecimento, treino e, principalmente, de boas referências. As limitações sempre estimularam a prática e o apuro da técnica. Quando são eliminadas, surge a impressão de que é fácil fazer arte. E de que é possível se destacar em várias especialidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As ferramentas criativas tornaram a expressão quase compulsória. Leonardo da Vinci ficaria chocado ao perceber que hoje teria que falar como intelectual, escolher vinhos como enólogo, cozinhar como gourmet, cantar como Frank Sinatra e dançar como John Travolta para ser "descolado".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado dessa demanda fica visível nas crises de autoestima, nas epidemias de depressão e nos transtornos de atenção. Seu efeito colateral não é uma sociedade mais criativa, mas uma composta por gente insatisfeita, egocêntrica, desorientada, insegura e sem critério. Para suprir as necessidades de expressão, muitos buscam no entretenimento pop manifestações de consumo fácil, sem justificativas. Assim se entende o sucesso do Justin Bieber ou do "Big Brother". Quando todos estão conectados, as diferenças se igualam pela média. É Arquimedes na prática.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-1440536795977379280?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/1440536795977379280/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/03/dj-fotografo-chef-modelo-ator.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1440536795977379280'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/1440536795977379280'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/03/dj-fotografo-chef-modelo-ator.html' title='DJ, fotógrafo, chef, modelo &amp; ator'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-7817241336085783858</id><published>2011-03-09T18:20:00.000-08:00</published><updated>2011-03-09T18:20:29.775-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paulo Werneck'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cultura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Brasil'/><title type='text'>Cultura e ímpeto pessoal</title><content type='html'>PAULO WERNECK para Folha de São Paulo, 03 de março de 2011&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O episódio da nomeação e da subsequente queda de Emir Sader na presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa pode inaugurar um novo momento na reflexão sobre as políticas culturais no país.&lt;br /&gt;Não é novidade que o Ministério da Cultura tornou-se palco de conchavos e cobiça partidária desmedida. Também não é de hoje que, no campo cultural, enfrentam-se os marxistas "old fashioned" (ou "marxistas parnasianos", na expressão do crítico literário Luiz Costa Lima) e os defensores de uma visão mais abrangente da atividade cultural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é novo na disputa pela Casa de Rui Barbosa é a "transcendência" -para usar uma palavra que se consagrou na polêmica- do clima partidário-paroquial para uma discussão mais madura sobre as políticas culturais no país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a "desnomeação" de Emir Sader afirmou-se a singularidade, o caráter público e a história de uma instituição que, pela perenidade inerente a suas atividades, não pode ficar ao sabor de ventos ideológicos personalistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O episódio poderá ajudar a afastar o mal da descontinuidade nas instituições culturais, especialmente pernicioso em atividades que só rendem frutos no médio e no longo prazo, como a catalogação e o estudo de acervos de intelectuais. É de esperar que, a partir de agora, partidos e governantes pensem duas vezes antes de indicar gestores culturais que desconheçam as instituições de que vão cuidar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O episódio mostra que dos gestores públicos não se espera apenas decoro administrativo, mas também verbal. Se alguém derrubou Sader, foi o próprio sociólogo e suas infelizes palavras, inaceitáveis na boca de qualquer dirigente, de esquerda ou de direita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A falta de tato de Sader ao lidar com o público por meio da imprensa deixou solitário um homem que, há poucos anos, viu pipocarem manifestos e mobilizações em seu favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, não se via uma única personalidade pública se manifestando pela permanência de Emir Sader na Fundação Casa de Rui Barbosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora política cultural não se faça com personalismos, ela depende de uma boa dose de ímpeto pessoal, o que é muito diferente. Paris não estaria tombada como patrimônio histórico se não fosse a atuação de um indivíduo, André Malraux, à cabeça do Ministério da Cultura francês. O mesmo se poderia dizer do parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, fruto da obstinação pessoal de Lota de Macedo Soares, ou do sistema de bibliotecas públicas em São Paulo, criado por Mário de Andrade nos anos 1930.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Superado o episódio, a "Casa Rui" tem, na gestão Dilma/ Ana de Hollanda, o desafio de se modernizar -e, por que não, de ganhar boa dose de ímpeto pessoal, para que se faça conhecer de maneira mais efetiva pelo país cuja memória ajuda a preservar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PAULO WERNECK é editor da Ilustríssima.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-7817241336085783858?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/7817241336085783858/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/03/cultura-e-impeto-pessoal.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/7817241336085783858'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/7817241336085783858'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/03/cultura-e-impeto-pessoal.html' title='Cultura e ímpeto pessoal'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-6540297088329491012</id><published>2011-03-09T18:08:00.000-08:00</published><updated>2011-03-09T18:13:21.895-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='psicologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contardo Calligaris'/><title type='text'>Grandes e pequenos desejo</title><content type='html'>&lt;i&gt;por Contardo Calligaris&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os adolescentes de hoje me parecem desejar de maneira tímida. Como já escrevi, surpreende-me que eles desejem pequeno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, poderia estender essa constatação aos adultos de hoje. Não que eles deixem de desejar (isso só acontece em raras depressões graves), mas há, aparentemente, uma preferência contemporânea generalizada pelos desejos pequenos. Cuidado: um desejo não é pequeno porque seu objeto seria pouco relevante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomemos, por exemplo, "Maria está a fim de cerejas" e "Antônia quer o fim de todas as guerras". Será que o desejo de Antônia é grande e o de Maria pequeno? Nada disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhor nunca comparar desejos por sua suposta "nobreza" -até porque essa tal "nobreza" pode esconder motivações bem mais torpes do que uma saudável vontade de cerejas. Então, como diferenciar desejos grandes e pequenos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, há desejos fluidos, suscetíveis de infinitos deslizamentos, como se, de alguma forma, o objeto desejado fosse indiferente. Esses são desejos pequenos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, estou a fim de uma calça nova. Entro na loja e o tamanho 39 está em falta. Olho ao redor de mim e acabo comprando duas camisas que não têm nada a ver com a calça que eu desejava.&lt;br /&gt;Quero rever "Cisne Negro", mas a sessão está lotada; nenhum drama, compro ingresso para "Bruna Surfistinha" (incidentemente: me dei bem, amei o filme). Também posso querer o fim de todas as guerras e, ao ver na TV uma ação do Greenpeace, decidir que de agora em diante só me importa o destino das baleias. Nesse caso, por se revelar facilmente substituível, o fim de todas as guerras é um desejo pequeno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um outro tipo de desejo, mais incômodo, que não admite a substituição. Quero circum-navegar a Terra de veleiro, quero vingar meu pai, quero produzir uma obra, construir um império, rezar em silêncio no deserto, comer cerejas a cada dia: se eles forem insubstituíveis, se sua insistência moldar nossa vida, esses desejos são grandes porque eles nos definem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desejo pequeno é ideal para uma sociedade que conta com o consumo para alimentar a produção e organizar as diferenças sociais. Desejos substituíveis garantem que a gente seja sempre levemente insatisfeito e levemente desejante, esvoaçando de objeto em objeto como uma abelha num campo de flores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao desejo grande, que já foi ideal dominante, ele é hoje raro na prática, mas (anúncio de uma mudança dos tempos?) a sedução que ele exerce está crescendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como Mônica Waldvogel (no "Entre Aspas", da Globo News, na última quinta) e o crítico da Folha Inácio Araújo (na Ilustrada de domingo), reparei que a safra do Oscar deste ano é peculiar: quase todos os filmes indicados ilustram desejos grandes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos tão acostumados a desejar pequeno que desejar grande (e pagar o preço disso) nos parece ser um comportamento patológico (o cara enlouqueceu, está obcecado) ou, então, sinal de crise (os EUA devem estar muito mal se eles precisam idealizar esses heróis que desejam grande).&lt;br /&gt;Penso o contrário: patológico é desejar pequeno. E, se os Estados Unidos estão gostando de heróis que sonham grande, talvez eles estejam saindo da futilidade dos anos 90: o sinal não seria de crise, mas de saída da crise.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recentemente, vários leitores e leitoras me perguntaram por que não escrevi sobre "Cisne Negro", que (alguns notaram) é um prato cheio para um psicanalista. Pois é, amei o filme e concordo com a ideia do prato cheio, mas acontece que, no filme, o que me comoveu não foi tanto o desabrochar da loucura quanto o heroísmo do desejo de perfeição da protagonista -um desejo grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falando em desejo grande, "Bruna Surfistinha", que estreou na última sexta, é outro exemplo. O filme de Marcus Baldini não é uma apologia nem uma crítica moralista da prostituição: é um filme sobre o difícil e tortuoso caminho de alguém que quis ser livre. É a história de um desejo grande. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTARDO CALIGARIS para Folha de São Paulo, 03 de março de 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-6540297088329491012?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/6540297088329491012/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/03/grandes-e-pequenos-desejo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6540297088329491012'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/6540297088329491012'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/03/grandes-e-pequenos-desejo.html' title='Grandes e pequenos desejo'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-3425699551295955359</id><published>2011-02-18T04:42:00.000-08:00</published><updated>2011-02-18T04:42:18.345-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempos modernos'/><title type='text'>Gen X, Y ou Z? Qual é a sua?</title><content type='html'>MÁRION STRECKER para Folha de Sao Paulo - 10.02.11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AO ESCREVER sobre a Gen Z, no mês passado, fui questionada sobre a razão desse nome. Geração Z de zapear, pregaram alguns. Geração Z porque Z vem depois de Y, disseram outros. &lt;br /&gt;Cem anos atrás, as gerações eram descritas apenas por nomes, não por letras. Como está narrado no livro "Paris É Uma Festa", de Ernest Hemingway (1899-1961), o termo Geração Perdida foi tomado por Gertrude Stein (1874-1946) de um mecânico que ralhava com um funcionário e usado em seguida para caracterizar seu círculo de amigos mais novos, em particular escritores e artistas que viviam na Europa depois de servir na Primeira Guerra. &lt;br /&gt;Era o caso de Hemingway, que achou no final que "todas as gerações eram perdidas, por alguma razão". Depois da Geração Perdida, vimos surgir o termo Greatest Generation, cunhado pelo jornalista Tom Brokaw para se referir às pessoas que nasceram sob as privações da Grande Depressão e contribuíram materialmente ou lutando na Segunda Guerra. Virou livro. &lt;br /&gt;E depois veio a Geração Silenciosa, jovem demais para ter lutado na Segunda Guerra, mas que também viveu seu impacto profundamente. &lt;br /&gt;Acho que minha mãe é dessa geração. Com o fim da Segunda Guerra veio a Geração Baby Boom, assim batizada devido ao crescimento das taxas de natalidade. E depois dos "boomers" veio a Geração X. &lt;br /&gt;O termo Geração X foi cunhado pelo fotógrafo Robert Capa no começo dos anos 50 e depois serviu como título de um ensaio fotográfico seu com jovens. Disseram que se referia aos jovens ainda sem identidade, talvez sem futuro, ou com um futuro incerto, por isso o X. Geração X também se tornou o nome de um livro de sociologia, de Jane Deverson e Charles Hamblett, publicado em 1965. Falava dos jovens que dormiam juntos antes de casar, que não aprenderam muito bem quem era Deus e/ou que não obedeciam mais a seus pais.&lt;br /&gt;Consta que um exemplar do livro foi parar na casa da mãe do músico inglês Billy Idol, que batizou sua banda punk de Geração X, de 1976 a 1981. Digamos que a Geração X nasceu entre 1950 e 1970 e viveu o surgimento do computador pessoal, da TV a cabo, do videogame e da web. &lt;br /&gt;Depois da X, claro, tinha de vir a Geração Y, nascida a partir de 1980 (os anos são sempre definidos arbitrariamente). Muito mais familiarizadas com a comunicação, as mídias e as tecnologias digitais, as crianças da Gen Y ensinaram seus pais a usar os controles remotos enormes ou a gravar filmes da TV.&lt;br /&gt;A Gen Y adotou e-mail, mensagem de texto via celular e MSN como formas de comunicação, enquanto lia "O Senhor dos Anéis", crescia com Harry Potter ou via a trilogia de "Star Wars" em tela gigante. Música digital, iPod e download grátis se tornaram triviais. Acho que é bem a geração do meu filho, de 20 anos. &lt;br /&gt;Mas o tempo não para, assim como a fabricação de rótulos, e chegou a Gen Z, dos chamados nativos digitais. Esses não só demonstram uma incrível facilidade de lidar com qualquer tipo de equipamento novo como gostam de consumir "tudo ao mesmo tempo agora". &lt;br /&gt;Usam instintivamente todos os recursos das redes sociais, como Facebook ou Twitter, e, se tiverem dinheiro, serão viciados também em smartphones (como o iPhone) e tablets (como o iPad). &lt;br /&gt;Dizem que a Gen Z é mais consumista que a Gen Y, além de ser mais conectada. Parece o caso da minha filha de 12 anos, que adora passar a tarde no shopping do bairro com as amigas e os amigos. Sua turma fala no Skype e troca SMS ao fazer a lição de casa com a TV ligada. &lt;br /&gt;É claro que classificar as pessoas em gerações sempre causa controvérsias. Até porque a data de nascimento de alguém não precisa corresponder à mentalidade, aos valores, ao comportamento, à maneira de ser ou mesmo à aparência. &lt;br /&gt;Tenho idade para ser da Geração X, mas meu marido insiste que sou da Geração Z. Acho que ele tem ciúme da minha família Apple (Macbook, iPad e iPhone), que carrego para cima e para baixo, inclusive nas férias. Mas há um problema maior. Depois do Z, o que vem? &lt;br /&gt;MÁRION STRECKER, jornalista, é diretora de conteúdo do UOL. Escreve mensalmente, às quintas, neste espaço.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8308380012643950590-3425699551295955359?l=reflexxelfer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/feeds/3425699551295955359/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/02/gen-x-y-ou-z-qual-e-sua.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3425699551295955359'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8308380012643950590/posts/default/3425699551295955359'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reflexxelfer.blogspot.com/2011/02/gen-x-y-ou-z-qual-e-sua.html' title='Gen X, Y ou Z? Qual é a sua?'/><author><name>eu sei</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_ClSLejJsrzs/TCewLcFipKI/AAAAAAAAARU/SN2Z3O9-EUA/S220/marcelinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8308380012643950590.post-942576137954186511</id><published>2011-02-07T15:36:00.000-08:00</published><updated>2011-02-07T15:36:49.409-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='psicologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contardo Calligaris'/><title type='text'>Todos os reis estão nus</title><c
