Tesão e direitos humanos - O caso Geisy

Ex-diretor da Capes, filósofo Renato Janine Ribeiro diz que opinião pública ignora a questão central no caso da aluna da Uniban: a esfera do desejo

(Renato Janine Ribeiro para a Folha de São Paulo - 15.11.2009 - Caderno Mais!)

A universitária do microvestido conseguiu um milagre: juntou todo o mundo, da UNE à direita, na defesa dela e na condenação aos alunos que a insultaram e, depois, à universidade que quis puni-la. Mas há um viés na abordagem que me preocupa. O que atraiu a sociedade para o caso foi seu lado sexual. É o chamariz, tanto que a Folha levou uma atriz [vestida com minissaia] a quatro universidades do centro de São Paulo para ver se seus alunos são diferentes dos da periferia.

Mas, lançada a isca, a imprensa não fica à sua altura e vai opinar de maneira legalista. O sexo é chamariz, mas não é estudado. Já a educação é uma grande (outra) questão, mas também não é aprofundada. Começando pelo fim: a educação proporcionada pela Uniban está sendo questionada a partir desse caso, e não em sua qualidade. Que ela é criticada faz tempo, sabe-se. Mas está melhorando?

Por coincidência, como diretor que fui da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], responsável pela avaliação da pós-graduação brasileira, vi avanços da Uniban nos seus mestrados e no único doutorado. Não sei de sua graduação. Seria preciso avaliar se ela está melhorando ou piorando, em vez de ler generalidades que não respondem a essa pergunta central.

O outro aspecto é o cerne do caso. Uma vez deflagrada a polêmica, sumiu de cena o que a causou -o microvestido. Vi o advogado da aluna, de terno, defendendo seu direito de vestir-se como quiser. Foi uma síntese perfeita das contradições que o caso traz à luz. Para defender uma moça que gosta de mostrar o corpo, recorre-se à linguagem formal (e à roupa idem) da profissão jurídica. Fala-se dela como se fosse perseguida por ser judia, negra, comunista ou ter uma síndrome.

O sexo perturba
Só que ela não foi ofendida no fluxo dessas discriminações tradicionais, e sim porque gosta de mostrar o corpo. Por que essa questão central se perde na vagueza das fórmulas ("cada um é livre para fazer o que quiser", "para ir e vir" etc.)? Defendo essas liberdades. Mas, quando entra o sexo, ele as perturba.

No dia 22 de outubro, na Uniban de São Bernardo do Campo (SP), ela e centenas de jovens foram perturbadíssimos pelo sexo. Não adianta tentar, agora, abafar o assunto com generalidades legais -belíssimas, sim, fulcro de nossa civilização, mas pré-freudianas. Ou melhor: adianta.

É por isso que da esquerda à direita há um acordo geral. Um grande acordo para abafar o pequeno monstro. O monstro começa pelo desejo -que parece ser mais comum nas mulheres- de ser vista, admirada, desejada. A moça fez por isso. Não sabia o quanto estava despertando o monstro. Quando percebeu, deve ter-se assustado. Sorte, pelo menos, que ninguém foi machucado (ela não foi).

Mas o fato é que vimos o nervo exposto de algo que é mais atávico e forte que um preconceito contra judeus, negros ou, mesmo, mulheres. Entraram em cena uma sexualidade provocante e respostas, masculinas e femininas, a ela. Quer dizer que os rapazes tinham razão em xingá-la? Qualquer alfabetizado entenderá que não. Não tinham esse direito. Mas, que foram mexidos, foram. Que ela queria mexer com eles, queria. O que ela desejava de fato, ela provavelmente não sabe (Freud não saberia). Talvez, depois de tudo por que passou, não saiba mais. Nem eles, depois de expostos na mídia, saibam mais o que queriam.

Id e ego
De todo modo, a imprensa não se preocupou em saber como foi, nas cabeças de centenas de jovens que estavam lá, aquela noite. Alunos da Uniban mal foram entrevistados. Como as alunas que apareceram na TV discordavam da manifestação da UNE "em favor delas", a imprensa preferiu não aprofundar o assunto. Não dá para reduzir esse assunto à pauta dos direitos em geral ou das discriminações contra a mulher.

Não tem nada a ver com mulher não ser presidente ou CEO de empresa. Até porque nesse campo, o do desejo que o homem sente só por ver uma mulher bonita, ela tem um poder que ele não tem. Faz bem a universidade, em que o abscesso se rompeu, em discutir esse assunto à luz da cidadania? É essencial. Mas gostaria que não ficasse no genérico dos direitos humanos (que eu defendo, nem preciso repetir). Espero que saiba devolver à cena a questão importante que irrompeu naquela noite terrível: a questão do sexo em face da liberdade, da cidadania e tudo o mais. A questão do id em sua negociação com o ego. É uma grande questão, pouco tratada.

Mas não acredito muito. Falar na generalidade dos direitos humanos não afetará o âmago das pessoas, portanto é mais fácil. Não obrigará a discutir como lidar de maneira racional (a grande conquista da civilização, que inclui os direitos humanos) com o que é mais irracional em nós, sobretudo os mais jovens -um desejo desabrido a desafiar valores, interditos, tudo. Os rapazes podiam ser preconceituosos. Mas pareciam estar tarados por ela. A tara poderia vencer -ou reiterar- o preconceito. Como mudar o final do jogo, seu resultado? Eis a questão.

Como o tesão se relaciona com os direitos humanos? Dá para repetir o mantra de que uma mulher poderosa, desejável, ciente do que desperta nos homens, é ao mesmo tempo um sujeito racional capaz de deliberar em sã consciência se quer ou não um deles?
Dá para acreditar que um homem, assim excitado, facilmente aceite a decisão da mulher de negar-se a ele? O estupro é inadmissível, mas dizer que esses controles são fáceis é iludir a sociedade.

[O sociólogo alemão] Norbert Elias entendeu bem a questão. Ele disse, décadas atrás: ao contrário do que se imagina, quando se exibe mais o corpo, sobretudo o feminino, exige-se mais -e não menos- autocontrole. Porque se requer do espectador que não ataque aquele corpo desejado. Essa exigência é necessária? É. Mas é fácil? Não. Veja-se um baile funk. Vejam-se as publicidades na TV.

Um direito e um problema
Essa história tem sido lida como uma parábola do moderno e do reacionário. Moderno é a moça fazer o que quer com o corpo, inclusive mostrá-lo. Reacionário é ser contra isso.

Mas a atualidade intensa do conflito é que ele não tem essa temporalidade moderna, que é dos demais direitos humanos. Pois, por um lado, mexe com a libido, que tem fortíssima base natural e uma temporalidade muito mais lenta.

Por outro lado, a mulher se exibir o quanto queira é conquista recente. O homem não saber lidar com isso também é um dado acentuado recentemente. Há um elemento natural, há um confronto hipermoderno. A reação "conservadora" também é hipermoderna. O que não dá é para dizer que a moça se exibir não é problema, é direito. É direito, sim, mas só interessa a ela porque é problema. Alguém acha que [a apresentadora] Sabrina Sato imitaria a aluna se os homens não babassem por ela (Sabrina ou Geisy, não importa)?

É esse efeito que se quer produzir. É ele que, produzido, incomoda muita gente. E é esse incômodo -a consciência, o reconhecimento de que há um incômodo, um problema quase sem solução, o que Kant chamaria de uma antinomia- que incomoda muito mais.
O que devemos é enfrentar o incômodo, reconhecer sua originalidade. Desse ponto de vista, temos uma oportunidade ímpar, justamente porque difícil, de reflexão e de proposição.

RENATO JANINE RIBEIRO é professor titular de ética e filosofia política na USP.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1511200909.htm

Em 22 de outubro passado, a estudante de turismo Geisy Villa Nova Arruda, 20, foi hostilizada por cerca de 700 colegas no campus da Uniban (Universidade Bandeirante) em São Bernardo do Campo (Grande São Paulo).

Ela usava um vestido curto, o que teria motivado a agressão dos colegas.
No último dia 7, a direção da universidade decidiu expulsá-la por "desrespeito à dignidade acadêmica e à moralidade". O Ministério da Educação e a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres questionaram a decisão, que gerou polêmica. Pressionada, a direção da Uniban revogou a expulsão da estudante.

Olhar moderno move "Virada Russa"

Vladimir Safatle, professor do departamento de filosofia da USP, para Folha de São Paulo, sábado, 26 de setembro de 2009 - Ilustrada/Acontece E12

Raras são exposições tão fundamentais quanto "Virada Russa - A Vanguarda na Coleção do Museu Estatal Russo de São Petersburgo". Contrariamente a outras que São Paulo recebeu ultimamente e cuja musculatura encontra-se mais na publicidade do que propriamente nas obras, a exposição trazida pelo Centro Cultural Banco do Brasil impressiona pela importância e riqueza.

Nomes maiores da arte do século 20, como Kandinsky, Maliévitch, Tátlin, Rodtchenko e Chagall comparecem com obras maiores, isto ao lado de pintores pouco conhecidos, mas de impressionante qualidade, como Pavel Filónov.

No entanto, mais do que apenas permitir acesso direto a obras que o público brasileiro nunca viu, a exposição serve para nos colocar questões sobre o que ainda está vivo no impulso vanguardista que marcou a arte do século 20. Pois a ideia do envelhecimento definitivo das vanguardas virou uma estranha doxa dominante.

Ela serve atualmente para colocar fora de circulação toda tentativa de insistir na necessidade das obras de arte serem capazes de se constituírem como forma crítica. Forma capaz de nos desacostumar dos modos de organização, de visibilidade e de fascinação que circulam nas esferas da cultura industrial.

Pois quando esta exigência crítica sai de circulação, as obras de arte podem se transformar na mera estetização de linguagens próprias a esferas hiper-fetichizadas da cultura, como a moda, a publicidade, os quadrinhos, a pornografia etc. Sai de cena Maliévitch, entra Jeff Koons.

Realismo socialista

O crítico de arte Pierre Restany um dia afirmou que a força de abstração própria às vanguardas era o sintoma de "artes da evasão e da recusa do mundo, manifestação extrema de uma visão pessimista da condição humana". Os russos desmentem cada uma destas palavras. Primeiro, só uma época histórica onde as possibilidades de reconstrução da "condição humana" era extremamente presente poderia produzir arte como aquela apresentada pelos construtivistas, suprematistas e cubo-futuristas.

Não por outra razão, o impulso criativo vanguardista dará lugar ao neoclassicismo do realismo socialista à medida que as possibilidades de reconstrução social saírem do horizonte. Neste sentido, a decisão de terminar a exposição com algumas pérolas do realismo socialista é extremamente pertinente. Ela nos lembra como toda forma deteriorada de vida tem um estranho amor pelas ruínas estilizadas do neoclassicismo.

Por outro lado, longe de algum tipo de "evasão", o "formalismo" dos russos foi resultado direto de uma certa "subtração" que se transformará em estratégia maior do modernismo. Tratava-se de subtrair tudo o que naturalizara nossas formas de ver e de organizar o visível. O que aparecia ao final desta subtração era o sistema elementar de constituição da representação, que enfim podia ser problematizado.

Assim, a pintura podia se dedicar a discutir o sistema de cores, isto a fim de constituir um espaço no qual nenhuma cor se estabiliza em sua identidade (Kandinsky). Ou ainda, o jogo de linha, curva e plano podia subir à cena para mostrar sua força produtiva (Maliévitch).

Como dirá décadas depois o artista plástico Sol LeWitt, tratava-se de maneiras de retirar a pele das coisas para que suas estruturas pudessem ser desveladas e ganhassem novas dinâmicas. Esta subtração chegará ao impressionante "Quadrado Preto sobre Fundo Branco", em que, como dirá Maliévitch, a pintura podia enfim se aproximar da "experiência de ausência de objeto". Uma ausência que sempre aparece como fundamento para toda verdadeira experiência criadora.

Foi assim que se construiu o olhar moderno. Desta forma, a exposição apresenta o início de algo profundamente inquietante que ainda faz parte de nós mesmos. A inquietação de um novo olhar que animou momentos fundamentais das expectativas disruptivas da arte moderna. Olhar que sempre retorna. Freud costumava dizer que a razão fala baixo, mas nunca se cala.

Retornar a este momento maior da experiência vanguardista, onde revoluções na vida e na arte se encontraram, é uma maneira de lembrar que experiências como estas nunca se calam.

Quando: de ter. a dom., das 10h às 20h; até 15/11
Onde: CCBB (r. Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651); livre; grátis

Casamentos possíveis

Contardo Calligaris
Folha de São Paulo, quinta-feira, 10 de setembro de 2009

UMA DAS boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.
O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto, em seu peito. A decepção consigo mesmo é menos amarga quando é transformada em acusação: "Você está me impedindo de alcançar o que eu não tenho a coragem de querer".

Essas recriminações, que disfarçam nossos fracassos, não são unicamente masculinas.
Certo, os homens são quase sempre assombrados por impossíveis devaneios de grandeza -como se algum destino extraordinário e inalcançável já tivesse sido sonhado para eles (e foi mesmo, geralmente pelas suas mães). Diante de tamanha expectativa, é cômodo alegar que o casal foi o impedimento.

As mulheres, inversamente, seriam mais pé-no-chão, capazes de achar graça nas serventias do cotidiano. Por isso mesmo, aliás, elas encarnariam facilmente, para os homens, os limites que a realidade impõe aos sonhos que eles não têm a ousadia de realizar.

Agora, as mulheres também sonham. Há a dona de casa que acusa o marido, os filhos e o casamento por ela ter desistido de outra vida (eventualmente, profissional), que teria sido fonte de maiores alegrias. E há, sobre tudo, para muitas mulheres, um sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual, justamente, elas desistem por causa de marido, filhos e casamento.

Com isso, d. Quixote se queixa de que sua mulher esconde seus livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento. E Madame Bovary se queixa de que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, à cata de paixões sublimes e elegantes.

Pena que raramente eles consigam ter os mesmos sonhos. Um problema é que os sonhos dos homens podem ser de conquista, mas dificilmente de amor, pois eles derivam diretamente das esperanças que as mães depositam em seus filhos, e, claro, uma mãe pode esperar que seu rebento varão seja um dom-juan, mas raramente esperará ser substituída por outra mulher no coração do filho.

Não pense que esse fogo cruzado de acusações seja causa recorrente de divórcio. Ao contrário, ele faz a força do casamento, pois, atrás da acusação ("É por sua causa que deixei de realizar meus sonhos"), ouve-se: "Ainda bem que você está aqui, do meu lado, fornecendo-me assim uma desculpa -sem você, eu teria de encarar a verdade, e a verdade é que eu mesmo não paro de trair meus próprios sonhos".

Ou seja, em geral, a gente casa com a pessoa "certa": a que podemos culpar por nossos fracassos. E essa, repito, não é uma razão para separar-se. Ao contrário, seria uma boa razão para ficar juntos.

Quando a coisa aperta, não é porque sonhos e devaneios teriam sido frustrados "por causa do outro", mas pelas "cobranças", que, elas sim, podem se revelar insuportáveis.

Um exemplo masculino. Uma mulher me permite acreditar que é por causa dela que eu não consigo ser o que quero: graças a Deus, não posso mais tentar minha sorte no garimpo agora que tenho esposa, filhos e tal. Até aqui, tudo bem. Como compensação pelos sonhos dos quais eu desisti, passo as tardes de domingo afogando num sofá e soltando foguetes quando meu time marca um gol, mas eis que, no meio do jogo, minha mulher me pede para brincar com as crianças ou para ir até à padaria e comprar o necessário para o café - logo a mim, que deveria estar explorando as fontes do Nilo ou negociando a paz entre os senhores da guerra da Somália.

Essa cobrança, aparentemente chata, poderia salvar-me da morosa constatação do fracasso de meus sonhos e das ninharias com as quais me consolo. Talvez, aliás, ela me ajudasse a encontrar prazer e satisfação na vida concreta, nos afetos cotidianos. Mas não é o que acontece: o que ouço é mais uma voz que confirma minha insuficiência.
À cobrança dos sonhos dos quais desisti acrescenta-se a cobrança de quem foi (ou é) "causa" de minha desistência e razão de meu "sacrifício": "Olhe só, mesmo assim, ela não está satisfeita comigo." Em suma, não presto, nunca, para mulher alguma -nem para a mãe que queria que eu fosse herói nem para a esposa para quem renunciei a ser herói. E a corda arrebenta.

O ideal seria aceitar que nosso par nos acuse de seus fracassos e, além disso, não lhe pedir nada. Difícil.

Beco sem saída - por Drauzio Varella

Na política, chegamos a níveis de imoralidade assumida incompatível com princípios éticos. NOS QUASE dez anos desta coluna, leitor, nunca escrevi sobre política. Adotei essa conduta por reconhecer que há profissionais mais preparados para fazê-lo e por considerar que médicos envolvidos em educação na área de saúde pública devem ficar distantes das paixões partidárias.

No entanto, os últimos acontecimentos de Brasília foram tão desconcertantes e chocaram a nação de tal forma, que ignorá-los seria omissão. No trato da administração pública, chegamos a níveis de desfaçatez e de imoralidade assumida incompatíveis com os princípios éticos mais elementares.

Para os que ganham a vida com o suor do próprio rosto, é revoltante tomar consciência de que parte dos impostos recolhidos ao comprar um quilo de feijão é esbanjada, malversada ou simplesmente desapropriada pela corja de aproveitadores instalada há décadas na cúpula da hierarquia do poder.

Mais chocante, ainda, é a certeza de que os crimes cometidos por eles e seus asseclas ficarão impunes, por mais graves que sejam. Do brasileiro iletrado ao mais culto, todos nós temos consciência de que o rigor de nossas leis pune apenas os mais fracos. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico parar na cadeia, diz o povo, com toda razão.

Uma noite, na antiga Casa de Detenção de São Paulo, ao fazer a distribuição de um gibi educativo sobre Aids, perguntei, à porta de um xadrez trancado, quantos estavam ali. Um rapaz de gorrinho de lã, curvado junto à pequena abertura da porta, respondeu que eram 17. Diante de minha surpresa por caberem tantos em espaço tão exíguo, começou a reclamar das condições em que viviam. Às tantas, apontou para a TV casualmente ligada no horário político, no fundo da cela, no qual discursava um candidato:

-Olha aí, senhor, dizem que esse homem levou 450 milhões de dólares. Se somar o que todos nós roubamos a vida inteira, os 7.000 presos da cadeia, não chega a 10% disso.
Essa realidade, que privilegia a impostura e perdoa antecipadamente os deslizes cometidos pelos que deveriam dar exemplo de patriotismo e de respeito às instituições, serve de pretexto para comportamentos predatórios (se eles se locupletam, por que não eu?), gera descrédito na democracia e, muito mais grave, a impressão distorcida de que todo político é mentiroso e ladrão.

Considerar que a classe inteira é formada por pessoas desonestas tem duas consequências trágicas: votar nos que "roubam, mas fazem" e afastar da política cidadãos que poderiam contribuir para o bem-estar da sociedade.
De que adianta documentar os crimes se os criminosos ficarão impunes e retornarão nas próximas eleições ungidos pela soberania do voto popular?

Como renovar a classe política num país em que quase dois terços da população não têm acesso à informação escrita, em que empresários financiam campanhas de indivíduos inescrupulosos, comprometidos apenas com os interesses de quem lhes deu dinheiro, e no qual as mulheres e os homens de bem se negam a disputar cargos eletivos, porque não querem ser confundidos com gente que não presta?

É evidente que os políticos brasileiros não são os únicos responsáveis pelo estado a que as coisas chegaram. Antes de tudo, porque muitos são honestos e bem-intencionados; depois, porque o clientelismo que os cerca é uma praga que nos aflige desde os tempos coloniais. Os que se aproximam dos políticos para pedir empregos públicos, nomeações para cargos estratégicos, favores em negócios com o governo ou para oferecer-lhes suborno, por acaso são mais dignos?

Esse é o beco sem saída em que nos encontramos: os partidos aceitam a candidatura de indivíduos desclassificados, os empresários financiam-lhes a campanha (muitas vezes com os assim chamados recursos não declaráveis), o eleitor vota neles porque "não faz diferença, já que todos são ladrões" ou porque podem conceder-lhe alguma vantagem pessoal, a Justiça não consegue nem sequer afastar do serviço público os que são flagrados com as mãos no cofre e, para completar a equação, as pessoas de bem querem distância da política.

A esperança está na prática da democracia. Se a Justiça não pune os que se apropriam dos bens públicos, a liberdade de imprensa é a arma que nos resta, a única que ainda os assusta.

Folha de São Paulo, Ilustrada, sábado, 15 de agosto de 2009

Allan McCollum desafia os originais

Silas Martí, para Folha de São Paulo
quinta-feira, 27 de agosto de 2009


Allan McCollum não acredita em auras atrofiadas. Não importa que as obras de arte não sejam mais únicas. Seu trabalho é feito de cópias, substitutos e originais questionáveis.

Desde que é possível produzir quase tudo em grande escala, o mercado de arte se equilibra tentando restringir circulações, edições de gravuras e impressões fotográficas, mantendo a escassez como motor da demanda e âncora dos preços.
Na contramão, McCollum, ou seu discurso, dispensa objetos únicos. "A reprodução cria outro tipo de aura, uma aura que inclui o espectador", diz o americano, que abre hoje individual na galeria Luciana Brito."Vejo certa magia em alguém com os mesmos sapatos que o meu, a xícara de café, a mesma coisa nas mãos de tanta gente."

Num pastiche da reprodução em massa, McCollum dispõe 50 vasos idênticos lado a lado, 70 pinturas de um retângulo negro, milhares de moldes de madeira quase iguais, 12 dos mesmos cachorros de gesso. São cópias feitas a partir do molde de um cão original petrificado pela erupção do Vesúvio há quase dois milênios. Um museu de Nápoles replicou o bicho que morreu e fez outras três cópias, espalhadas pela Itália. McCollum usou uma delas para reproduzir sua série.

"Tem o cachorro que viveu em Pompeia, o primeiro molde do século 19, as cópias do museu e agora essa cópia e as cópias dela", lembra. "Mas estão ligadas ao cachorro original e ao sofrimento original dele."

McCollum gosta de lembrar Brecht e como o dramaturgo alemão usava artifícios para revelar que a peça era a peça, que aqueles eram atores, que a plateia era a plateia. Ele tenta fazer o mesmo em suas instalações. "Isso é o duplo de uma galeria de arte, como num palco, no centro da ação", diz McCollum. "Antes, fazia objetos singulares, mas não viam esses objetos como acessórios cênicos."

De certa forma, toda a obra de McCollum vira objeto cênico também, um sinal dela mesma, vista como a obra ao fundo, no cenário, dentro da teatralidade orquestrada pelo artista, como se essa fosse uma performance. Ele propõe a exposição toda como grande instalação, uma curadoria autofágica levada às últimas consequências.

Mas não é um trajeto sem escalas. Lá onde era possível programar uma máquina para executar todas as cópias, McCollum decide dar as próprias pinceladas, muda as cores e reajusta dimensões milimétricas. Tudo parece igual, mas não é.

"Estou buscando o melhor dos dois mundos", admite o artista. "Decidir se algo é original ou cópia é ambíguo, uma construção social, a ideia de que o rei é o filho de Deus e de que todos os peões são idênticos."

Suas quase cópias são vendidas a preço de original, mas sempre em série. "Cobro mais se são mais objetos e menos se são menos objetos", explica. "Tem preços diferentes, porque algumas pessoas querem pagar mais pelos originais."

Galeria Luciana Brito - SP (r. Gomes de Carvalho, 842, tel. 11-3842-0634)
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/acontece/ac2708200903.htm

O que fazer com um texto?

"Use em abundância o ponto final"
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

PARA LER

1. Ignorar os best-sellers, por maior que seja a tentação. Deixe passar cinco anos.
Se o livro ainda respirar bem, pode investir.

2. Ler com desconfiança o que lê. Se o livro resistir a essa leitura, é porque é bom.

3. Ler com um lápis na mão. E usá-lo.

4. Conhecer pessoalmente o escritor só depois de ler o livro; caso contrário, a figura do escritor ficará colada ao texto, como um fantasma.

5. Ler edições que tenham bom gosto. Uma edição amadora piora dramaticamente o livro.

PARA ESCREVER

1. Dedicar mais tempo à leitura do que à escrita.

2. Usar em abundância o ponto final, especialmente quando a frase resiste a qualquer conserto.

3. Usar material de primeira qualidade: bom computador, bom papel de impressão, bons cadernos (sugiro o Moleskine), boas canetas, bons lápis.

4. Não levar o laptop para a cozinha ou para a sala de visitas. Se não tiver um gabinete exclusivo, o quarto é uma boa escolha.

5. Escrever apenas sobre o que conhece perfeitamente, mesmo que seja um romance passado no futuro.
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LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL é professor na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e autor de "Ensaios Íntimos e Imperfeitos" (L&PM), entre outros livros.



"Desconfie das dicas que lhe dão"
MARCELINO FREIRE

PARA LER

1. Quanto mais um livro fizer mal, melhor.

2. Confortável precisa ser a cama, não a literatura.

3. Evitar lista dos mais vendidos.

4. Livro não é para ser entendido, é para ser sentido.

5. Desconfiar das dicas que te dão.

PARA ESCREVER

1. Cortar palavras.

2. Não usar gravata na hora de escrever.

3. Ouvir, mesmo que baixinho, a própria voz.

4. Desconfiar daquele texto que sua mãe gostou.

5. Ler e beber muito. E, no mais: viver.
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MARCELINO FREIRE é autor, entre outros livros, de "Contos Negreiros" (ed. Record) e organizador de "Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século" (Ateliê).



"Leia como se fosse o psicanalista que ouve um paciente"
LUÍS AUGUSTO FISCHER

PARA LER

1. Se você estiver diante de um clássico provado pelos tempos -Shakespeare, Voltaire, Machado de Assis- e acontecer alguma dificuldade na leitura, pode ter certeza de que o problema é seu, não do texto. Bons textos muitas vezes exigem mais de uma tentativa de leitura.

2. No concreto de uma leitura, pode acontecer que a fruição fique embaçada. Antes de entrar em pânico, tente localizar o foco do impasse: se for uma palavra específica que seja desconhecida, para isso existe o dicionário; se não, volte a atenção para os "que", para os nexos entre as partes da frase.

3. Um texto literário, obra de arte que é (ou aspira a ser), tem direito de ser como é, em sua integridade. Isso alerta para a necessidade de a leitura ser respeitosa: o leitor deve dispor-se a receber as informações e as formas do texto tal como o autor as concebeu. Mas isso não impede que o leitor comum pule fora ao perceber que seu honesto empenho de leitura não está sendo recompensado.

4. Um texto literário merece ser lido em pelo menos duas dimensões, uma linear e a outra enviesada. A segunda é menos perceptível, mas muitas vezes é decisiva, e tem sua carnadura num plano alusivo, nas chamadas entrelinhas, num patamar figurado ou alegórico. A boa leitura não pode contentar-se com a decifração daquela primeira dimensão, necessitando uma atenção mais difusa, próxima da atenção que os psicanalistas praticam ao ouvir o paciente.

5. Em narrativas, um detalhe radicalmente importante, em especial nos romances e contos escritos a partir do final do século 19 (no Brasil, o marco é Machado de Assis, mas você pode pensar em Dostoiévski, em Poe, em Flaubert), é o jeito de ser do narrador. O bom leitor sempre mantém em vista que o narrador pode ser parte interessada no enredo, pode ser parcial na avaliação dos fatos e das pessoas que menciona, pode saber mais ou menos do que aparenta.

PARA ESCREVER

1. Tenha sempre em conta que do outro lado de seu texto há, na melhor hipótese, um leitor; e que essa figura, preciosa e fugidia, pode abandonar o barco a qualquer momento. O autor tem todo o direito de radicalizar sua escrita, ser inventivo e ousado, mas também o leitor tem o direito de radicalizar por sua parte, caindo fora.

2. Uma das escolhas básicas para quem escreve um relato diz respeito à distância que o texto vai colocar entre a voz narrativa e o(s) personagem(ns), entre as palavras que o leitor vai ler e a vida íntima do personagem, dentro do enredo. Mesmo um narrador de terceira pessoa pode ser muito próximo dos fatos e das pessoas envolvidas, pode acompanhar as ações muito de perto, assim como um narrador de primeira pessoa pode manter uma distância relativamente serena a respeito dos fatos.

3. Embora no sentido trivial o leitor é quem escolhe o texto que vai ler, num sentido muito profundo é o texto que escolhe seu leitor: suas escolhas vão delimitando o universo potencial dos leitores, que serão mais ou menos sofisticados ou numerosos conforme as opções do autor. Confrontar ou agradar o leitor, eis uma questão que é bom ter em mente, para fazer a escolha que interessa (nisso os grandes revolucionários têm muito a ensinar; veja como Miguel de Cervantes, Honoré de Balzac, Machado de Assis e outros tratam o leitor).

4. Escrever é, em grande medida, administrar entre conhecido e desconhecido, redundância e informação. Um dos riscos sempre implicados nesse campo é o de depender do "background" do leitor, das informações que ele traz (ou não) consigo. Muitas vezes um relato sucumbe porque espera que o leitor aporte conteúdos para compor o sentido de alusões, entreditos, sugestões que o enredo contém.

5. Quem inventa uma ficção está mentindo e espera que o leitor aceite a mentira. Mas sobre essa base há uma outra camada de indispensável verdade: o escritor nunca deve trapacear, nunca fazer pose ou jogar para a torcida. Se começar a contar uma história, tem que assumir o compromisso de contar tudo que importa para que ela aconteça.
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LUÍS AUGUSTO FISCHER é crítico literário, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor de "Machado e Borges" (ed. Arquipélago), entre outros.


Folha de São Paulo, caderno Mais - domingo, 16 de agosto de 2009
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1608200910.htm

Produção cultural nas Papuas

Carlos Heitor Cony para Folha de São Paulo, sexta-feira, 17 de abril de 2009

DE COISAS e pessoas incompreensíveis para mim, o mundo e a vida estão cheios. Quanto mais o tempo escorre, menos compreendo coisas e pessoas. Resignado, pasmo, nem ouso passar recibo, assumindo o papel de cínico ou de sábio. Confesso a ignorância e vou em frente.

Vamos aos fatos: não há dia de minha pecaminosa vida em que não seja abordado direta ou indiretamente por um criador. Antigamente, quando se dizia "criador", pensava-se em Deus Pai Todo-Poderoso ou num criador de galinhas.

Hoje, criador é o artista em seu momento mais nobre e transcendental. Músicos, poetas, dramaturgos, comediógrafos, cineastas, atores, atrizes, diretores teatrais, roteiristas, divulgadores, cantores, bailarinos, coreógrafos, carnavalescos, romancistas, contistas, ensaístas, animadores culturais, cientistas políticos -a fauna é vasta, onímoda e estafante. E, sobretudo, insistente.

Todos têm ideias, todos estão em fase de criação e todos precisam de uma "força". Evidente que essa força é suplementar, uma vez que a coisa a ser criada já está no papo, ou seja, já é sucesso de público e de crítica, já rendeu milhões e já marcou não apenas o novo século, mas dividiu a história da humanidade em antes e depois da coisa criada -embora tal criação ainda não tenha sido criada, está em progresso, "in progress", como convém às obras definitivas.

A mania agora, para forçar a força, é garantir que a criação "já está vendida para o exterior" e comprada para a tevê. Honestamente, não sei onde está ou no que consiste esse exterior que compra "ab ovo" uma produção cultural e artística aos lotes, às toneladas, por preços astronômicos (antes eram em dólares, agora em euros) e por prazos abstratos, uma vez que esse exterior tem tanta confiança no negócio que nem se preocupa em saber quando as criações serão devidamente criadas.

Outro dia, um cara me propôs participação na feitura de um vídeo a respeito da obra de um amigo meu, romancista dos melhores e de melhor público. Até certo ponto da conversa eu me interessei pelo assunto, pois sentia que o projeto valia a pena, o romancista merecia o trabalho e a homenagem. Mas, de repente, o cara me declarou: "Vai ser barbada o financiamento. Já vendi duas cotas para o exterior".

Aí eu embatuquei. Que exterior seria esse que comprava um produto inexistente sobre um tema desconhecido? Apertei o cara como pude, gostaria de saber quais nações e povos desejavam consumir a obra a ser criada. O cara fez mistério, alegou que ainda não podia divulgar, mas a coisa estava amarrada, o mercado internacional escancarava-se para a produção, a expectativa era geral e crescente.

Bem, para citar um mercado qualquer, eu falei na ilhas Papuas, que talvez tivessem algum interesse em saber como vive e escreve o meu amigo romancista. Não, não eram as ilhas Papuas, que, aliás, não existem mais, mudaram de nome, mas não de endereço, continuam longe pra burro. Misteriosamente, o cara me deu uma dica: o "exterior" que compraria as duas cotas era apenas o primeiro passo, logo depois ele teria à disposição, "o vasto e florescente mercado do Leste Europeu". Sim, o Leste Europeu. Por acaso, tenho um trabalho traduzido num dos países do Leste Europeu e sei como é problemática a relação obra-consumidor em se tratando de países que geralmente não enviam direitos autorais pelos canais tradicionalmente burgueses e capitalistas.

Mesmo assim, para não fazer feio, prometi que estudaria o assunto. O cara ficou satisfeito e eu também. Afinal, se há coisa e assunto que preciso estudar é justamente a coragem e a fome de conhecimento desse fabuloso exterior que, à falta do que fazer, criou assombrosas expectativas sobre a nossa produção cultural e artística.

Li o projeto, que é vasto e apoiado em imponente bibliografia, com a boa vontade que não tenho sequer para a minha mesquinha produção pessoal. Prometi vagamente que, chegada a hora, daria a tal força solicitada em forma de um curto depoimento em que elogiaria ao mesmo tempo e em doses iguais a criação e o criador. As ilhas Papuas não perdem nada por esperar.